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"E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações..."
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imagem de Flávio Cardoso

Cristãos versus magos

6  Havendo atravessado toda a ilha até Pafos, encontraram certo judeu, mágico, falso profeta, de nome Barjesus, 7  o qual estava com o procônsul Sérgio Paulo, que era homem inteligente. Este, tendo chamado Barnabé e Saulo, diligenciava para ouvir a palavra de Deus. 8  Mas opunha-se-lhes Elimas, o mágico (porque assim se interpreta o seu nome), procurando afastar da fé o procônsul. 9  Todavia, Saulo, também chamado Paulo, cheio do Espírito Santo, fixando nele os olhos, disse: 10  Ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perverter os retos caminhos do Senhor? 11  Pois, agora, eis aí está sobre ti a mão do Senhor, e ficarás cego, não vendo o sol por algum tempo. No mesmo instante, caiu sobre ele névoa e escuridade, e, andando à roda, procurava quem o guiasse pela mão. 12  Então, o procônsul, vendo o que sucedera, creu, maravilhado com a doutrina do Senhor.
(Atos 13:6-12)

Após um longo verão sem postar novos textos, gostaria de meditar com vocês acerca de alguns aspectos dessa passagem bíblica.

Os mágicos

Concentremo-nos na figura de Elimas, o mágico. Hoje em dia, quando pensamos em "mágicos", logo visualizamos aqueles profissionais da ilusão que animam auditórios em festas infantis. Mas Barjesus, ou Elimas, não era esse tipo de mágico.

Na verdade, tratava-se de um praticante de magia, ou artes mágicas. Eram pessoas que dominavam técnicas de manipulação de poderes sobrenaturais, efetuando feitos notáveis por meio de alquimia, astrologia, mediunidade, necromancia, rituais, feitiços, amuletos, pedras, plantas, palavras misteriosas etc. Essas artes mágicas, esotéricas, são tão antigas quanto a humanidade e sempre estiveram presentes em todas as culturas.

Além desse episódio do confronto entre Paulo e Elimas, o livro dos Atos dos Apóstolos nos mostra duas outras ocasiões em que a Igreja bateu de frente com as artes mágicas.

A primeira é descrita em Atos 8:9-25, onde lemos sobre certo mago chamado Simão, "ao qual todos davam ouvidos, do menor ao maior, dizendo: Este homem é o poder de Deus, chamado Grande Poder". Ele próprio, ao ver os sinais e prodígios efetuados pelos apóstolos, passou a observá-los, imaginando que eles faziam uso de uma magia poderosa. Por fim, ofereceu-lhes dinheiro para ter acesso ao poder que os apóstolos manipulavam. Foi severamente repreendido por Pedro e, por fim, pediu aos apóstolos que rogassem a Deus por ele para não ser amaldiçoado.

A segunda está no capítulo 19 de Atos, que narra a poderosa expansão do evangelho na cidade de Éfeso, a qual era reconhecidamente um dos centros da feitiçaria da Antiguidade, famosa pelos papiros e pergaminhos mágicos, conhecidos como ephesia grammata. Os versículos 19 e 20 registram:

19  Também muitos dos que haviam praticado artes mágicas, reunindo os seus livros, os queimaram diante de todos. Calculados os seus preços, achou-se que montavam a cinqüenta mil denários. 20  Assim, a palavra do Senhor crescia e prevalecia poderosamente.

Importante ressaltar que o poder desses magos era real. Eles, de fato, faziam coisas espetaculares. Nos dias de hoje, a situação não é diferente. Os magos ainda existem, seu poder é real e continuam exercendo verdadeiro fascínio sobre as pessoas. Muitos procuram o auxílio de feiticeiros para destruírem inimigos, para conquistarem a pessoa amada, para conhecerem o futuro. E, algumas vezes, obtêm o seu intento.

Os cristãos

Agora, retornamos ao texto que lemos no princípio. Paulo, cheio do Espírito Santo de Deus, humilhou o poderoso mago diante de todos. O poder de Deus é infinitamente maior do que o das trevas.

Mas perceba uma coisa muito importante: não houve um confronto entre Paulo e Elimas, mas entre Deus e Elimas. O que estava em jogo não era o poder de Paulo contra o de Elimas, mas o poder de Deus contra o de Elimas.

Captou a diferença? Aqueles que se enveredam pelo ocultimo em busca de poder realmente o encontram. Eles se tornam pessoas poderosas. É exatamente essa a estratégia do Maligno ao atrair e escravizar as pessoas: ele as oferece poder em troca de sua servidão.

Deus, por outro lado, não nos oferece poder. O poder é, e sempre será, dEle. Quando nos submetemos ao senhorio de Cristo, o Seu precioso Espírito passa a viver em nós. Mas isso não nos torna poderosos, e é aqui que muitos cristãos erram. O Poder não é do cristão: Ele apenas habita no cristão.

Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra". (Atos 1:8)

Com certeza, as Escrituras falam coisas tremendas a nosso respeito:

  • nosso corpo é santuário do Espírito Santo;
  • somos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo;
  • estamos assentados nas regiões celestiais em Cristo;
  • todas as coisas cooperam para o nosso bem;
  • somos participantes da natureza de Deus; etc. etc. etc.

Com todas essas revelações, é muito fácil nos engrandecermos e acharmos que podemos usar o poder do nome de Jesus para:

  • passar no vestibular;
  • conseguirmos um emprego melhor;
  • o nosso time ser campeão;
  • conquistar aquela linda namorada;
  • garantir que não chova nas férias; etc.

Na verdade, quando fazemos isso estamos tentando dar uma de Harry Potter gospel. Achamos que somos os mais poderosos de todos os magos, já que Deus vive em nós. Triste ilusão. Alguns, ao perceberem que isso não dá certo, acabam até se desiludindo com a fé cristã.

Mas o Paulo que envergonhou Elimas foi o mesmo que disse isso:

9   Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. 10   Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte. (2 Coríntios 12:9-10)

O Espírito de Deus, que habita em nós, só pode revelar o seu poder ao mundo quando nós saímos de cena. Não foi o "poderoso Paulo" que venceu Elimas; foi o Todo-Poderoso Deus, usando o "enfraquecido Paulo".

O progresso dos magos é medido pelo quanto eles se tornam poderosos. E, à medida que progridem, tornam-se cada vez mais arrogantes, auto-suficientes. Mas, na vida cristã, o progresso é medido pelo quanto nos enfraquecemos, anulando nossa carne, nosso ego, nossas vontades, para que o Espírito de Deus possa manifestar o SEU poder ao mundo através de nós. Os homens que são poderosamente usados por Deus devem vigiar sempre para que jamais se envaideçam. Quando se tornam soberbos, sua queda é iminente.

Quanto mais Deus deseja nos usar, mais Ele trata de nos quebrantar, nos enfraquecer. Precisamos trocar nossa velha existência, independente de Deus, por uma abençoada existência nEle, em total dependência.

Então, voltamos mais uma vez às preciosas palavras do Mestre:

Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. (Lucas 9:23)

Afinal, vale a pena ser cristão?

A vida cristã é uma vida de auto-negação, de renúncia dos prazeres carnais, de luta contra o pecado, contra o ego e contra Satanás. Quando vencemos, o mérito é todo de Deus; quando somos derrotados, a culpa é toda nossa.

Então, por que encarar essa jornada? Como fica a relação entre custo e benefício da caminhada cristã?

Essa pergunta é importante e merece ser respondida. Temos irmãos preciosos que, de vez em quando, entram em crise com afirmações do tipo: "Depois que entrei na igreja, tudo começou a dar errado. Não deveria ser o contrário?"

A saída mais fácil para essa difícil pergunta é apelar para a vida após a morte, levando as pessoas a perserverar em troca de uma existência eterna com Deus, no céu. Poderíamos respaldar essa resposta nas palavras de Cristo:

13  Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. 14  Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram. (Mateus 7:13-14)

Mas entendo que essa passagem não se refere apenas à nossa existência após a morte; ela fala de nossa existência aqui e agora. Apelar para a vida após a morte é um erro que acaba gerando um exército de cristãos débeis, que encaram a vida terrena como um fardo e, a cada luta, suspiram pelo dia em que estarão no céu.

É verdade que o preço do discipulado é alto. Nosso Senhor sempre fez questão de falar disso claramente. A cruz é inevitável para o cristão. Mas, o que vem depois da cruz?

Depois da cruz vem a ressurreição. É doloroso mortificar o nosso ego; mas a recompensa é maravilhosa. Quando conseguimos nos livrar de nosso ego, passamos a viver a vida de Deus. A alegria de Deus passa a ser a nossa alegria. A paz de Deus passa a ser a nossa paz. As vitórias de Deus passam a ser as nossas vitórias. A vontade de Deus passa a ser a nossa vontade. A vida de Deus passa a ser a nossa vida. Já não somos nós quem vivemos: é Cristo quem vive em nós.

O projeto de Deus para nós é que sejamos extensões dEle mesmo. Ele é a videira; nós, ramos dessa videira. Antes, éramos apegados a nossa natureza humana e desejávamos dar a ela todo o conforto que pudéssemos. Agora, que nos tornamos participantes da natureza divina, não podemos permitir que a natureza humana prevaleça.

Então, é claro que vale a pena entrar pela porta estreita e percorrer o caminho apertado. Esse caminho nos faz viver a vida de Deus.

Perguntas para reflexão em grupo

  1. Quem era mais poderoso: Paulo ou Elimas, o mágico?
  2. Depois que você se converteu, as coisas melhoraram ou pioraram? Como você se sente acerca disso? Compartilhe com o grupo.
  3. O apóstolo Paulo encarava suas lutas terrenas como oportunidade para enfraquecer seu ego, de modo que o poder de Deus se aperfeiçoasse em sua fraqueza. E você, como tem encarado suas lutas terrenas?

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