Aprendendo com Salomão

imagem de Flávio Cardoso
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Nestes dias, tenho meditado no livro de Eclesiastes: belo, confuso, desafiador. O autor, tradicionalmente aceito como o rei Salomão, narra o seu esforço de "compreender a sabedoria, bem como a loucura e a insensatez". Mas, depois de tanto buscar explicações para os fatos da vida, o autor acaba concluindo que elas nem sempre existem. Por isso, conclui que todo o seu esforço foi tão inútil quanto "correr atrás do vento".

Certamente, meditar nesse livro é um ótimo exercício para todo cristão, que dele poderá retirar muitos ensinamentos preciosos. Cada vez que o leio, alguns deles sobressaem. Agora, compartilho com vocês os que se destacaram nesta última visita a Eclesiastes.

Alegre-se com os presentes que Deus dá

O ser humano tem uma tendência fortíssima a se tornar infeliz pelo que não tem ou pelo que perde. Isso começa a se manifestar na infância e continua ao longo da vida. É exatamente isso que leva o homem a trabalhar cada vez mais, para conseguir cada vez mais recursos, com o intuito de conquistar as coisas que ainda não tem.

Salomão identifica pelo menos duas tolices nesse comportamento. Primeiro, em sua busca frenética por conquistas materiais, o homem se torna incapaz de curtir a vida, que se torna um terrível enfado. Segundo, ele se esfola de tanto trabalhar, esquecendo que vai morrer um dia. "O homem sai nu do ventre de sua mãe, e como vem, assim vai. De todo o trabalho em que se esforçou, nada levará consigo" (Ec 5:15). No máximo, ele poderá deixar isso para um herdeiro, mas não há nenhuma garantia de que o herdeiro fará bom uso da herança. Vejam esses versos do 2º capítulo:

17  Por isso desprezei a vida, pois o trabalho que se faz debaixo do sol pareceu-me muito pesado. Tudo era inútil, era correr atrás do vento.
18  Desprezei todas as coisas pelas quais eu tanto me esforçara debaixo do sol, pois terei que deixá-las para aquele que me suceder.
19  E quem pode dizer se ele será sábio ou tolo? Contudo, terá domínio sobre tudo o que realizei com o meu trabalho e com a minha sabedoria debaixo do sol. Isso também não faz sentido.
20  Cheguei ao ponto de me desesperar por causa de todo o trabalho em que tanto me esforcei debaixo do sol.
21  Pois um homem pode realizar o seu trabalho com sabedoria, conhecimento e habilidade, mas terá que deixar tudo o que possui como herança para alguém que não se esforçou por aquilo. Isso também é um absurdo e uma grande injustiça.
22  Que proveito tem um homem de todo o esforço e de toda a ansiedade com que trabalha debaixo do sol?
23  Durante toda a sua vida, seu trabalho não passa de dor e tristeza; mesmo à noite a sua mente não descansa. Isso também é absurdo.
24  Para o homem não existe nada melhor do que comer, beber e encontrar prazer em seu trabalho. E vi que isso também vem da mão de Deus."

Nas férias, sempre viajo de carro com minha família. Mas, para mim, essa viagem é um verdadeiro suplício. Eu detesto viajar de carro! Durante a viagem, fico ansioso para chegar rápido ao destino. Quando encontro, no caminho, um comboio de caminhões vagarosos, que me impedem de correr, fico aflito. Assim que consigo ultrapassá-los, me sinto aliviado. Mas a alegria dura pouco, pois sei que logo chegarei a outro comboio. Para mim, as férias só começam, de verdade, quando chego a meu destino.

Diferentemente, conheço pessoas que curtem cada minuto da viagem. Apreciam a paisagem, param para comprar bobagens na beira da estrada, descobrem bons restaurantes pelo caminho. Para elas, as férias começam quando entram no carro.

É isso que Salomão está nos ensinando. Nossa vida é uma grande viagem, que começa no pó e no pó termina (Ec 3:20). Então, precisamos aprender a nos alegrar durante o percurso. Há muitos crentes que passam pela vida apenas esperando chegar ao seu destino final: o céu. Mas isso é um erro. O Senhor Jesus nos deu a sua paz, para que dela desfrutemos desde já.

Um homem pode ter cem filhos e viver muitos anos. No entanto, se não desfrutar as coisas boas da vida, digo que uma criança que nasce morta e nem recebe um enterro digno, tem melhor sorte do que ele. (Ec 6:3)

Se não conseguimos enxergar as coisas belas e simples da vida e nos alegrar com elas, é porque estamos espiritualmente doentes. Como dizia meu avô, o saudoso Pastor João Francisco de Assis e Figueiredo:

A fé nos coloca em sintonia com o universo. (...) Os céus e a terra, a natureza e seus variados seres, militam contra a descrença. A flor que desabrocha, a abelha que zumbe, o colibri que oscula, a borboleta que baila, a criança que brinca e a estrela que cintila, proclamam e exaltam a glória de Deus. Os caminhos misteriosos dos ciclos migratórios das aves, da reprodução dos peixes, do aprendizado dos pássaros, falam de uma inteligência que ilumina e motiva todo esse complexo de mistérios e maravihas.

A riqueza nem sempre é bênção

Quem ama o dinheiro jamais terá o suficiente; quem ama as riquezas jamais ficará satisfeito com os seus rendimentos. Isso também não faz sentido. (Ec 5:10)

Eu trabalhava numa seção onde uma colega de trabalho vivia triste por ser obrigada a deixar seu filho com a avó. Segundo ela, não havia alternativa, já que ela precisava trabalhar. Ocorre que o seu marido era um servidor público bem remunerado. Eles moravam num apartamento de 270m² no Setor Sudoeste (um bairro nobre de Brasília) e costumavam passar férias na Disney. Então, é evidente que minha colega não precisava trabalhar. Deus já lhe havia dado condições para que ela pudesse estar presente na educação de seu filho. A situação dela era bem diferente da de muitas outras mulheres, que realmente precisam trabalhar, já que a remuneração do marido não é suficiente para uma vida digna.

Salomão completa:

11  Quando aumentam os bens, também aumentam os que os consomem. E que benefício trazem os bens a quem os possui, senão dar um pouco de alegria aos seus olhos?
12  O sono do trabalhador é ameno, quer coma pouco quer coma muito, mas a fartura de um homem rico não lhe dá tranqüilidade para dormir.
13  Há um mal terrível que vi debaixo do sol: riquezas acumuladas para infelicidade do seu possuidor. (Ec 5:11-13)

Um dos problemas que a Igreja atual tem enfrentado é a indisponibilidade de seus membros. Os irmãos mais capacitados, que poderiam fazer grande diferença na vida da Igreja, ganhando almas e ajuntando tesouros no céu, "não têm tempo" para fazer a obra de Deus. Estão estudando, trabalhando, ambicionando, correndo atrás do vento. Ao que parece, estão tentando servir a Deus e a Mamom. Além de Eclesiastes, deveriam também meditar nas palavras de Cristo e de Paulo:

20  Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?
21  Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus. (Lc 12:20-21)

7  pois nada trouxemos para este mundo e dele nada podemos levar;
8  por isso, tendo o que comer e com que vestir-nos, estejamos com isso satisfeitos.
9  Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição,
10  pois o amor ao dinheiro é raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram a si mesmas com muitos sofrimentos. (1 Tm 6:7-10)

Há muitas coisas sem explicação. E daí?

percebi tudo o que Deus tem feito. Ninguém é capaz de entender o que se faz debaixo do sol. Por mais que se esforce para descobrir o sentido das coisas, o homem não o encontrará. O sábio pode até afirmar que entende, mas, na realidade, não o consegue encontrar. (Ec 8:17)

Uma outra tendência do ser humano é a de procurar explicação para tudo. Quando consegue explicar a razão de algo, o homem desfruta da sensação de estar no controle da situação. Podemos até não ter a solução para o nosso problema. Mas se conseguirmos uma boa explicação, já ficamos consolados, não é mesmo?

Veja, por exemplo, os que acreditam em carma. Quando passam por um problema, logo surge um guia que lhe diz para aceitar seu carma, já que a luta é consequência dos erros cometidos em vidas passadas. Ora, do ponto de vista bíblico, isso é uma imensa bobagem. Mas essa bobagem é suficiente para manter o sujeito resignado com seu "merecido" destino. Ele não se livra do problema, mas a explicação lhe fornece o consolo necessário para suportá-lo.

Pois bem: Salomão fritou seus neurônios procurando explicações para tudo. Ao final, veja suas conclusões:

"Nesta vida sem sentido eu já vi de tudo: um justo que morreu apesar da sua justiça, e um ímpio que teve vida longa apesar da sua impiedade." (Ec 7:15)

"Refleti nisso tudo e cheguei à conclusão de que os justos e os sábios, e aquilo que eles fazem, estão nas mãos de Deus. O que os espera, se amor ou ódio, ninguém sabe." (Ec 9:1)

"Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos." (Ec 9:11)

Para as pessoas que não conhecem o Deus verdadeiro, esse tipo de explicação é inaceitável. Talvez, elas pensem assim: "Como um Deus justo pode nos deixar viver com tanta insegurança? Quer dizer que, ainda que lhe sejamos fieis, não teremos nenhuma garantia de vida tranquila? Tem que haver uma explicação razoável para tudo, ora bolas!!!"

A proposta de Deus para o homem não é lhe dar uma vida tranquila neste nosso corpo carnal. A proposta de Deus é que passemos a existir nEle, em completa dependência dEle, nos tornando um só espírito com Ele, por toda a eternidade, começando agora. Para conseguirmos experimentar essa existência em Deus desde já, precisamos, progressivamente, nos desapegar da nossa existência independente.

Quanto mais nos apegamos a Deus, mais somos impregnados da sua natureza, que é eterna. Quanto mais fixamos nossos olhos em Cristo, mais compreendemos que nossa velha vida carnal se encerrou naquela cruz, para que, nEle, pudéssemos viver a nova vida, eterna. Então, nossos pensamentos passam a se ocupar das coisas do alto.

Não gaste seu tempo tentando entender as desventuras da vida. Salomão, que era bem mais sábio que você, tentou e não conseguiu. Em vez disso, entregue rapidamente suas ansiedades para Deus e, sem perder tempo, continue olhando para Ele, confiando em Seu cuidado por você e se alegrando com aquilo que Ele te deu: pessoas amadas, seu trabalho, seu sustento. Quanto aos problemas que surgem em sua caminhada terrena, receba-os como oportunidade de fazer morrer a velha natureza, para que a natureza divina se apodere de nosso ser.

Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquesas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte. (2 Co 2:10)

Como disse o nosso Pastor Hilton em recente pregação, Deus não prometeu nos livrar do vale da sombra da morte. Ele prometeu que estaria conosco quando passássemos por ele.

 


 

Para reflexão

  1. Tente relacionar todos os presentes que Deus lhe deu, dos quais você pode desfrutar hoje mesmo. Você tem se alegrado com eles? Ou tem sido dominado pela sensação de não ter recebido outros presentes?

  2. Você consegue admirar a beleza da criação? Que tal dedicar um pouco mais de tempo, em sua vida corrida, para fazer isso?

  3. Você tem se dedicado a ajuntar tesouros no céu? Sua participação no Grupo de Vida pode ser entendida como um investimento no céu, ou você tem apenas desfrutado da companhia de amigos?

  4. Você tem se sentido aflito por não conseguir explicar a razão de alguma luta pela qual está passando? Você extrai deste texto algum ensinamento que pode ajudá-lo?

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