As bem-aventuranças

Este é um conjunto de lições acerca do trecho do Sermão do Monte conhecido como "As Bem-Aventuranças" (Mateus 5:3-12). Certamente, trata-se de um dos textos mais conhecidos e mais importantes da cristandade. Ao mesmo tempo, praticá-lo parece um desafio intransponível.

Esperamos que essas lições tragam luz a sua vida, capacitando-o a andar neste mundo como Ele andou.

Introdução

Em nossas últimas lições, temos enfatizado a necessidade de vivermos de modo a fazer a diferença no mundo, praticando boas obras e buscando a simplicidade do evangelho. A lição "Salvos para que?", por exemplo, foi encerrada com uma pergunta: "que igreja tem o evangelismo mais eficaz: uma que prioriza a pregação do evangelho mas não pratica o sermão do monte, ou uma que inclui a pregação entre as muitas boas obras a serem praticadas?". Bem, o sermão do monte é iniciado com as bem-aventuranças. Então, precisamos meditar bastante nelas.

Para tanto, teremos diversas lições escritas pelas irmãs Ainoã e Fabiana, que ministraram o curso "As Bem-Aventuranças" na Escola Bíblica da Igreja de Nova Vida do Guará. A quem quiser aprofundar ainda mais os estudos sobre esse tema, recomendamos que se matricule na próxima turma.

As Bem-Aventuranças

Andar com Jesus deve ter sido a emoção mais encantadora que os seus discípulos tiveram. Um desses grandes momentos nós encontramos quando Jesus dá início aos seus ensinamentos, o Sermão da Montanha. Nesse sermão Jesus aprofunda ensinamentos relacionados à espiritualidade, ética, caráter e atitudes dos discípulos que quando vividos serão capazes de proporcionar uma vida de felicidades.

Encontramos o Sermão da montanha em Mateus capítulos 5, 6 e 7 e também em Lucas capítulo 6. Dentro desse sermão encontramos "As bem-aventuranças", que é o tema do nosso estudo nesse curso. A nossa oração é que durante essas 10 aulas, Deus esteja nos ensinando a como sermos verdadeiros discípulos.

Mateus e Lucas

O livro de Mateus vem de seu autor, o apóstolo Mateus (9.9), também chamado de Levi (Marcos 2.14), cujo significado é "dádiva de Deus". Mateus era coletor de impostos na Galiléia e, ao ser chamado por Jesus, passou a ser um dos seus apóstolos. Não há referências que o coloquem como autor, mas a tradição da Igreja Primitiva lhe atribui o primeiro evangelho. Alguns consideram o mais antigo dos evangelhos com data de composição entre 45 e 55 DC. Ainda segundo a tradição, ele foi escrito em aramaico, sendo, mais tarde traduzido para o grego. Mateus é o mais judaico dos evangelhos; seus destinatários eram os judeus e por isso o escritor apela freqüentemente para o cumprimento das profecias na vida de Jesus.

O livro de Lucas traz o nome do seu autor e é o único livro do Novo Testamento escrito por um gentio. A data de sua composição seria entre os anos de 58 e 65 DC, aproximadamente. Lucas tinha em mente a cultura grega. Os gregos viviam em busca do homem perfeito, que poderia servir de exemplo para a humanidade e nesse contexto, ele apresenta Jesus como o "Homem Universal".

Cenário Histórico do Sermão da Montanha

O enfoque do Velho Testamento sempre foi quanto à formação de uma nação, um povo que Deus escolhera para abençoar muitos outros. A grande premissa da vocação está resumida em poucas palavras que são os 10 mandamentos, porém a história denuncia o quanto a humanidade tem falhado no cumprimento de todo o grande e primeiro mandamento: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo". O povo escolhido por Deus havia se afastado muito do que era a intenção original de Deus, afastaram-se da sua vocação. Assassinaram, furtaram, buscaram outros deuses, divinizaram a monarquia, como outros povos pagãos, estabeleceram leis civis e religiosas opressoras, ou, muitas vezes, contrárias aos preceitos fundamentais do Reino de Deus.

Os hebreus procuravam cumprir alguns mandamentos, quebrando outros. Jesus, no Sermão do Monte, vai desmascarando essas regras e leis --- moralistas no conteúdo, mas imorais na essência. Os dez mandamentos foram reduzidos a instrumentos de exclusão, discriminação e assassinatos.

A Lei e a Graça

Jesus retorna à leitura das Tábuas da lei como se estivesse dizendo às gerações anteriores: "Vocês não entenderam por isso escutem a minha explicação". Ele faz uma nova leitura desses 10 mandamentos.

Em Mateus 5:17 Jesus afirma: "Não pensem que vim abolir a lei ou os profetas; não vim abolir, mas cumprir" (NVI). Ele não veio revogar ou abolir a lei, mas resgatar o seu verdadeiro sentido, veio ampliar o conhecimento sobre os propósitos de Deus para a vida abundante.

Havia um sentimento de Deus ao entregar as leis a Moisés, muito maior do que foi entendido pelo seu povo. Vamos pegar como exemplo o guardar o sábado, que continua sendo avaliado por Jesus como um dia sagrado, que tem a sua ótica em função da vida e não o contrário. O homem estabeleceu como regra e se tornou escravo desse dia, quando a idéia seria de descanso físico e mental, e ainda do homem prestar culto a Deus, como forma de agradecimento por tudo que o nosso Senhor nos fez. Porém o sábado foi transformado numa regra religiosa, na rotina do serviço religioso, o que levou os hebreus a perderem a sacralidade do ócio sabático.

Jesus interrompe a história exatamente aí --- num contexto religioso superficial, legalista, literalista e teatral. Nesse ambiente Jesus enfatiza o que há de mais profundo na vocação dos seus discípulos, "a Essência de Deus em nós". É como se Jesus estivesse recompondo a composição humana original. Os discípulos são desafiados a se despirem de aparências superficiais que tenham como objetivo a auto-promoção, especialmente religiosa.

Jesus anuncia o reino trazendo uma forte declaração: "O Reino de Deus está dentro de vós" (Lucas 17:21). Existe um sopro de Deus, um zoe de Deus dentro de cada um de nós, que muitas vezes somos levados a esquecer que ele existe. Quando Deus nos fez a sua imagem e semelhança essa essência foi depositada em nós. Porém, quando o homem pecou houve uma quebra na comunicação com essa essência, e hoje nós temos o grande desafio de voltarmos ao início de tudo, que é "ser gente". A humanidade tem nos empurrado a abandonarmos essa nossa essência e por isso temos visto atrocidades acontecendo em nosso meio. O sermão da montanha traz de volta a nossa essência em Deus, que são sentimentos, espiritualidade, ética e caráter.

Aqui cabe um parêntese, sobre a palavra grega "zoe, citada acima. Na Bíblia, zoe significa a vida de Deus, sobrenatural, espiritual, que nós recebemos quando nascemos dEle. Ela aparece em versos como João 3:16, por exemplo. As outras palavras gregas traduzidas por "vida" são bios (vida biológica) e psyche (vida psicológica, da alma, natural).

Vendo esse cenário de separação do homem de Deus, no qual o homem tem se tornado o centro de todas as coisas e acreditado que realizando algumas boas obras, como cumprir os dez mandamentos, a sua salvação é garantida, Jesus é enviado para dar início a um novo paradigma, uma Nova Aliança.

É difícil encontrarmos pessoas que cumpram todos os dias as bem-aventuranças, mas Jesus veio justamente para falar que pela graça, pela Nova Aliança, isso se torna possível. A graça nos abriu a porta para reconstruir a comunicação com Deus. Não precisamos viver o legalismo da lei, mas a essência do que Deus queria nos ensinar.

Bem-Aventurados

A palavra "Makarios" é o termo grego traduzido para bem-aventurados ou felizes e aparece antes de cada virtude apresentada.

Felicidade é um dos temas mais discutido entre filósofos, psicólogos e teólogos. Sabe-se que todos estão em busca desse estado de alma. Porém, cada uma dessas classes tem uma definição e um referencial para examinar e definir a tal felicidade.

Para Aristóteles e Platão a felicidade estaria baseada numa mistura ou combinação de prazer e inteligência, algo que o homem teria que, com os seus próprios esforços, conquistar. Para Freud a felicidade está baseada na realização do desejo, mas como um desejo provoca outros, logo o homem nunca estaria saciado e conseqüentemente nunca atingiria essa tal felicidade. Contudo o nosso estudo irá basear-se naquilo que é felicidade pra Deus.

Enquanto os homens vêm relacionando esse conceito a prazer carnal e mental, Jesus vem mostrar que a verdadeira felicidade existe na essência da alma, ou seja, é mais do que momentos de prazer e conquistas materiais, é uma questão também espiritual. Russel Shedd afirma que: "Assim como o verbo que se tornou carne a fim de tornar real, tangível e visível a glória de Deus, as características espirituais do cristão 'bem-aventurado' devem ser reconhecíveis. Por certo é justamente por isso que as bem-aventuranças parecem contradizer o bom-senso. Nelas a cidadania celestial reveste-se, na terra, de expressões visíveis." (Filipenses 1:27; 3-20; I Pedro 1:1-17).

Em nenhum momento Jesus coloca que não deveremos fazer nada, que a felicidade é uma conquista solitária, mas nos afirma que isso é uma construção minha com Deus, e para isso Ele começa o seu ministério nos mostrando o caminho por meio das bem-aventuranças.

Somente Jesus conseguiu viver na carne humana a perfeição das bem-aventuranças e por isso Paulo escreve aos Romanos "Mas, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne..." (Romanos 13:14). Porém, elas não descrevem cristãos diferentes que vivam uma ou outra dessas qualidades, mas visam a caracterizar todos os seguidores genuínos de Jesus. O cristão que possui uma delas, deve também buscar em Deus possuir todas as outras.

O nosso desejo é que nós possamos aprender com essas lições a viver o verdadeiro significado do reino e da sua felicidade.

Pobres de espírito

"Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o Reino dos Céus." (Mateus 5:3)

"Nada em minhas mãos eu trago;

Simplesmente à tua cruz me apego;

Nu, espero que me vistas;

Desamparado, aguardo a tua graça;

Mau, à tua fonte corro;

Lava-me, Salvador, ou morro."

Em toda a Bíblia, e muito claramente em I Pedro 2:9, vemos Deus chamar um povo para si mesmo, povo separado cuja vocação é permanecer fiel à sua identidade, santo, diferente do mundo em todo seu proceder (Levítico 18:2-4).

No Monte Sinai, Deus trouxe a Moisés os Dez Mandamentos para reger a vida desse povo especial. Mais tarde Jesus trouxe aos discípulos o Sermão do Monte, que não só estabelecia regras, mas uma nova maneira de proceder que fechava possíveis brechas abertas pelo legalismo. O Sermão do Monte contrapõe o padrão cristão ao não-cristão. Jesus estava disseminando uma nova cultura, a Cultura do Reino de Deus, e começou a tratar das concepções mais íntimas do ser humano: a idéia que tem de si mesmo em relação a Deus.

A expressão "pobres de espírito" é usada na Bíblia com uma conotação totalmente positiva, diferindo do uso comum quando é quase sempre pejorativa. Ser pobre de espírito é característica fundamental de todo crente (ou pelo menos deveria ser).

Essa bem-aventurança aponta para um total esvaziamento do ser.

Pobres de espírito significa "CARENTES, DEPENDENTES". A palavra grega que aparece no evangelho de Mateus é "ptochos", que quer dizer POBREZA ABSOLUTA. É aquele pobre que é destituído de tudo. Existe uma outra palavra grega para pobre, que é "penês" e se refere àquele que não é rico, que não possui o supérfluo, mas que é um homem trabalhador que provê com seu trabalho o necessário para uma vida digna. Mas nesse caso Jesus está falando sobre aquele que é absolutamente carente de espírito.

São pobres de espírito aqueles que têm real percepção de sua absoluta dependência de Deus, por terem já descoberto que não são possuidores de nada. É o que vemos quando Paulo afirma: "Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum..." (Romanos 7:18), e ainda quando Davi diz: "Eu sou pobre e necessitado, porém o Senhor cuida de mim..." (Salmo 40:17).

No entanto, desde o Éden o homem caminha na direção contrária a essa dependência, caminha ao encontro da AUTONOMIA. O argumento de Satanás para que Eva desobedecesse foi: "... no dia em que comerdes desse fruto os vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal." (Gênesis 3:5). A proposta era sair de uma posição inferior e passar a ser como Deus. O homem sempre buscou independência, auto-confiança, mas ser pobre ou humilde de espírito é a antítese de tudo isso. O caminho da felicidade, já que bem-aventurado é o mesmo que feliz, é CONFIAR NO SENHOR, como diz o salmista: "Ó Senhor dos Exércitos, bem-aventurado o homem que em ti põe a sua confiaça." (Salmo 84:12).

Pobre de espírito diz respeito a atitude do homem diante de Deus e não do outro. É a consciência de pequenez e insignificância que o indivíduo passa a ter diante de Deus. Só me coloco na dependência de Deus se me sentir pobre de espírito. Experimentamos um pouco disso quando estamos desprovidos de todos os recursos materiais e em apuros. Sem hesitar buscamos com todas as nossas forças e toda convicção o auxílio do nosso Deus.

Mas... quando é que não estamos sem recursos e em apuros? Vamos ser sinceros e pensar com toda lucidez! Tudo que temos e somos é por Deus e toda manifestação de Deus na nossa direção é puro favor, absolutamente imerecido e totalmente gratuito. Não temos nada a dar e carecemos receber tudo.

Russel Shedd diz: pobres de espírito são aqueles que não vêem dentro de si mesmos nenhum mérito que Deus deseje.

O fariseu, na parábola registrada em Lucas 18:9-14, se apresentava diante Deus mostrando seus méritos e virtudes. Já o publicano "... estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!".

O ser pobre de espírito faz do homem, diante de Deus, devedor e não credor. Não podemos DETERMINAR e nem REIVINDICAR nada a Deus (Jó 41:11). Qual a obrigação que Deus tem de nos salvar? Ao contrário do fariseu, o pobre de espírito sabe que não tem com que negociar com Deus.

Willian Barclay diz: "Bem aventurado o homem que reconhece a sua própria debilidade extrema e confia exclusivamente em Deus". Ninguém realmente diante de Deus se sente grande. Os grandes homens de Deus sempre se viram pequenos diante do criador.

O profeta Isaías, por exemplo, era um homem da corte, palaciano, aristocrata. Todavia, diante da presença de Deus se viu o pior dos pecadores, um "pobre de espírito" (Isaías 6:5).

O apóstolo Paulo tinha status social e religioso, era de família rica, e era membro do sinédrio (Assembléia de juízes que existia em cada cidade de Israel nos tempos de Cristo). Diante de Cristo viu-se pequeno, um insignificante, o pior dos pecadores (I Timóteo 1:15).

"Assim, ser humilde de espírito é reconhecer nossa pobreza espiritual ou, falando claramente, a nossa falência espiritual diante de Deus, pois somos pecadores, sob a santa ira de Deus, e nada merecemos além do juízo de Deus. Nada temos a oferecer, nada a reivindicar, nada com que comprar o favor dos céus." (John Stott)

Os que choram

"Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados." (Mateus 5:4)

Os seres humanos são dotados de sensibilidade, de emoções. E cada uma dessas emoções tem a sua função, sendo uma de suas principais funções externar o que está acontecendo interiormente no homem, isso faz parte da natureza humana. O choro é resultado dessas emoções, porém as pessoas fogem desse momento em que as emoções pedem o choro, pois é sempre visto como fragilidade e muita exposição.

Neste caso Jesus não estava falando dos emotivos, dos que choram em cenas bonitas ou até mesmo tristes, mas semelhante à primeira bem-aventurança essa também se refere a um estado da alma, uma condição espiritual porque está focando na compaixão e no arrependimento genuíno. Essa sensibilidade se expressa de duas maneiras: quando eu choro pelos meus pecados e quando eu choro pelos pecados e/ou problemas do outro.

Vale lembrarmos algumas personagens bíblicas que choraram pelos seus pecados e pelos pecados de outros:

Poderíamos continuar citando vários exemplos de homens e mulheres de Deus que choraram a tristeza segundo Deus e não segundo a do mundo. Paulo escreve aos Coríntios (II Coríntios 7:8-16), listando vários dos benefícios desse choro, que levam a um arrependimento para salvação, como:

É necessário fazermos uma distinção entre remorso e o arrependimento. Russell Shedd afirma que "Lágrimas de frustração por causa das nossas ações erradas não tem nada que ver com o lamento do coração quebrantado". Arrependimento leva a confissão de pecados, a mudança de atitudes. Lágrimas de remorso tornam-se apenas em descargas emocionais, contudo as de arrependimento levam o homem a se auto-avaliar, assumir a responsabilidade pelos seus erros sem atribuir culpa a outros e clamar pela misericórdia de Deus.

Só aqueles que conseguem chorar pelos seus próprios pecados e passam pelo verdadeiro arrependimento são capazes de chorar pelos pecados e sofrimentos do próximo. Esse não ora apenas pedindo a Deus que solucione e ajude o outro a se levantar e a sair dos seus problemas, ele se coloca a disposição de Deus para, também, ser resposta da sua própria oração em favor do que está sofrendo, pois está mais interessado em abençoar do que ser abençoado. Em Romanos 12:15 Paulo nos ensina a nos alegrarmos com os que se alegram e a chorarmos com os que choram.

O mundo está cansado de um discurso religioso de amor ao próximo que não se efetiva na prática.

Por fim, a alegria dos que choram por causa dos seus pecados provém do consolo e acolhimento que receberão do próprio Senhor. Para ilustrar essa realidade, Jesus conta a parábola do "Filho Pródigo" (Lucas 15:11-32).

O autor Ivênio dos Santos lista alguns resultados desse choro: os que choram serão consolados por experimentarem a maravilhosa sensação de perdão dos seus pecados; por verem a operação de Deus na vida do próximo por seu intermédio; por verem a resposta de Deus às suas orações; por perceberem que o genuíno quebrantamento torna-os mais sensíveis às necessidades do outro; por descobrirem a longanimidade de Deus; pela alegria de servirem ao invés de ficarem esperando ser servido; por extinguirem um espírito de cobrança que os levava sempre a olhar para os outros como devedores; e pela liberdade adquirida de olhar para o mundo da maneira de Jesus.

John Arndt afirma: "Se alguém olha para si mesmo, vê mais motivos para estar triste do que para alegrar-se. Se ele olha de modo correto para a vida dos outros, encontra mais motivos para chorar por eles do que para invejá-los. Por que o Senhor chorou sobre Jerusalém, que o perseguiu e o matou? O pecado que você cometeu e a sua cegueira o fizeram chorar (Lucas 19:42). Portanto, o principal motivo para chorar deve ser nosso pecado e a falta de arrependimento das outras pessoas".

Mansos

"Bem aventurados os mansos porque eles herdarão a terra." (Mateus 5:5)

Significado

"Praüs" é a palavra grega usada para mansos e significa humilde, atencioso, cortês, de espírito gentil. Aquele que tem autocontrole.

Jesus, o nosso referencial, é chamado de manso e suave.

À primeira vista tudo isso nos deixa um impressão de fragilidade que talvez não nos atraia. Mas recapitulando o que vimos desde o início, Jesus nos propõe no Sermão do Monte uma exposição, passo a passo, de como Deus reconstrói o coração do crente. O primeiro passo foi reconhecer nosso fracasso espiritual e absoluta carência de Deus. Logo em seguida veio a tristeza para arrependimento. O terceiro passo é a mansidão, rendição ao Senhor com confiança e tranqüilidade diante dele e da vida.

Importante dizer logo no início o que ser manso não significa:

A pessoa mansa, segundo as bem-aventuranças, não é aquela que se omite, mas, ao contrário, é aquela que mesmo fazendo ou deixando de fazer age por convicção.

Disponibilidade

Max Lucado, em seu livro "O Aplauso do Céu", aborda um interessante aspecto da mansidão, que conduz à posse da terra. Ele ressalta que o poder de Deus é visto, não pela habilidade do instrumento que ele usa, mas por sua disponibilidade. O instrumento é comum, não tem nada de especial a não ser o fato de estar disponível para Deus. E Deus tem prazer em colocar o extraordinário diante do ordinário. Deus usou uma noite comum para trazer seu Filho ao mundo. Jesus passou terra misturada a saliva nos olhos de um cego para que ele fosse curado. Veja o que diz o autor:

"Bem-aventurados os disponíveis. Bem-aventurados aqueles que acreditam que, se Deus pode usar até saliva para cumprir seu propósito, então Ele pode também nos usar para o cumprimento de sua vontade.

Deus, em seu agir, usou vários instrumentos inanimados, provavelmente porque esses objetos jamais lhe diriam como realizar seu trabalho, ou sugeririam um plano alternativo. É como a história do barbeiro que se tornou artista. Quando lhe perguntaram por que mudou de profissão, ele respondeu: 'Uma tela não me diz como torná-la bonita.'

Da mesma forma é o manso diante do seu Senhor.

É por isso que numa noite comum o nascimento do Messias foi anunciado primeiramente aos pastores. Eles não perguntaram a Deus se Ele sabia o que estava fazendo. Se o anjo tivesse ido aos teólogos, primeiro, eles iriam consultar seus comentários. Se ele tivesse ido à elite, teria ela olhado ao seu redor para ver se havia alguém observando. Se tivesse ido aos bem-sucedidos, eles teriam inicialmente consultado suas agendas.

Por isso ele foi aos pastores. Homens que não tinham um nome a proteger, um interesse pessoal a preservar ou uma escala social a subir. Homens que não sabiam o bastante para dizer a Deus que anjos não cantam para pastores e que não se encontram Messias enrolados em panos e dormindo numa manjedoura."

Submissão

Manso, então, é aquele que está inteiramente submetido ao Senhor, que tem lhe entregado tudo, inclusive a própria vida, e diante das circunstâncias está em paz por saber que o seu senhor rege todas as coisas.

Essa consciência nos inspira a tranqüilidade de um bebê aconchegado no colo de sua mãe, que não se importa com mais nada já que ali tem alimento, conforto, tudo que ele conhece e de que necessita.

Deve ser por isso que devemos ser como crianças para entrar no Reino dos Céus. O grande problema é que somos naturalmente como adultos, autores de nossas convicções, responsáveis por nos manter e preocupados com o futuro.

Se já reconhecemos nossa total dependência de Deus, já nos arrependemos e nos contristamos pelos nossos pecados, só nos resta deixar Cristo dirigir a nossa vida. Fizemos uma entrega total de nossas vidas a Ele, já não somos donos de nada, mas simplesmente mordomos e isso nos coloca debaixo do princípio da Submissão.

Hoje, estamos aqui assentados aos pés de Jesus ouvindo o Sermão do Monte. Sermão que marcou a vida de Tolstoy, influenciou a postura de Gandhi e para nós é fonte de vida que nos diz como viver segundo os princípios de nosso Mestre. Essas palavras não podem significar menos do que isso pra nós, pois duas grandes evidências de conversão são o arrependimento e a fome de obediência. Jesus deixou bem claro que os que entram no seu Reino são os que fazem a vontade do Pai e não necessariamente os que fazem milagres e prodígios (Mateus 7:21-23). Pedro respondeu ao sumo sacerdote: "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens!" (Atos 5:29).

Se não é a Deus que obedecemos, falsos deuses controlam nossas vidas, como os nossos desejos, que muitas vezes são até legítimos, mas não podem nos governar; a nossa própria razão; os princípios deste mundo; a nossa carne; o Diabo e por aí vai. A conseqüência disso é que somos solapados pela ansiedade, amargura, irritação, avareza, ódio, etc.

Mas quem descobre que não é dono de nada, apenas mordomo, realmente herda e usufrui a vida sobre a terra, de forma plena e cheia de paz. Isaías 29:19 diz que "os mansos terão gozo sobre gozo no Senhor". A Bíblia nos fala que no mundo teremos aflições, mas fala também que em Jesus nós temos vida abundante, que por sua vez começa aqui nesta terra. Os princípios de Deus nos conduzem à vida abundante. Neles há proteção, direção, livramento, alegria e paz. Os mansos experimentam a gloriosa libertação do domínio dos falsos deuses.

Enquanto a pobreza espiritual, primeira bem-aventurança, é uma característica do cristão em relação a Deus, a mansidão se manifesta também na relação horizontal, uns com os outros. No decorrer do Sermão do Monte Jesus explica e exemplifica o tipo de sentimento que deve motivar as atitudes daqueles que aceitaram o seu convite e abraçaram a sua causa. E nos mostra como é que o Reino do Céus vai sendo implantado na terra através dos discípulos de Jesus, que são basicamente reconhecidos através do amor.

Se somos bem tratados normalmente retribuímos o bem que recebemos. O mesmo acontece quando somos mal tratados. Impulsivamente "pagamos com a mesma moeda". Esse é o natural. Para reagirmos assim não precisamos de nada, nem de Jesus. Mas para fazermos diferente, só por Jesus, que cravou na cruz a nossa natureza caída, e ressuscitou para que uma nova vida se manifestasse em nós. Foi a essa nova vida que dissemos sim quando aceitamos a Jesus.

Por total conveniência a nós mesmos e a nossa carne acabamos nos esquecendo da proposta inicial de Jesus. Mas porque o Espírito Santo nos guiou a esse estudo vamos crescer no conhecimento do Senhor e resgatar em nós a fome de obediência à vontade do Pai.

Ainda no capítulo 5 do livro de Mateus Jesus nos propõe um dos seus mais desafiadores ensinamentos sobre o trato com o próximo: a não resistência. Se há quem possa praticar esse princípio, o manso é a pessoa ideal. Não porque seja passivo, mas por ser motivado por idéias que, além dos limites pessoais, alcançam os ideais da causa de Cristo.

Jesus expõe quatro situações em que o ímpeto humano demonstra com nitidez a nossa natureza, e nos ensina a fazer exatamente o contrário do que costumamos.

Jesus fala de alguém que é ferido na face direita e oferece também a esquerda. Alguém que perde sua túnica pra outro e aproveitando dá-lhe também a capa. Fala de quem é obrigado a caminhar uma milha e vai não só uma, mas duas. E por último daquele a quem se pede emprestado e este não se desvia, mas empresta.

O ensinamento de Jesus parte do conhecido "olho por olho e dente por dente", que proporcionava uma retribuição exata àquele que praticou o mal contra outro, estabelecendo o fundamento da justiça. Esse princípio especificava o castigo que o culpado merecia e limitava a compensação da vítima, refreando, assim, a vingança. Era um princípio de justiça e não de vingança, como acabou sendo usado até mesmo na época de Jesus, embora desde a lei fosse proibido explicitamente: "Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo. Não conspirarás contra a vida do teu próximo" (Levítico 19:18).

Jesus não estava negando um princípio usado pelos tribunais para estabelecer justiça, mas afirmando que tal princípio não deveria ser aplicado nos relacionamentos, já que estes deveriam basear-se no amor. Jesus se opõe à vingança. Até mesmo quando sofremos injustiça, não devemos nos vingar.

"Eu porém vos digo: não resistais ao homem mau" (Mateus 5:39)

A proposta de Jesus é a não-resistência. É não resistir, não se opor, não enfrentar ou se indispor com alguém.

A mansidão é uma "atitude suave e gentil para com os outros determinada por uma estimativa correta de si mesmo. A mansidão é, em essência, a verdadeira visão que temos de nós mesmos, e que se expressa na atitude e na conduta para com os outros."

As quatro situações trazidas por Jesus funcionam como exemplo de atitudes provenientes de um interior que não tem como motivação o próprio ego ou que se satisfaz com a vingança. São atitudes que apontam para um coração de pessoas trabalhadas por Deus nas quais já se pode ver o perfil de Cristo sendo moldado.

Você consegue se imaginar agindo assim por si mesmo? Acho que não. A maioria das reações que já tivemos quando alguém faz o mal contra nós não se parece com a proposta de Jesus. Mas nós temos o desafio de deixar que Cristo apareça através de nós.

Talvez a essa altura você já esteja se sentindo tão desconfortável quanto eu. Mas antes de pensar qualquer coisa que te ajude a se esquivar, declarando tudo isso como um idealismo impraticável vamos nos lembrar de Pedro quando nos disse "porque Cristo também padeceu por vós, deixando-vos o exemplo para que sigais as suas pisadas" (I Pedro 2:21).

Cristo nos traz um preceito de amor e não de insensatez ou irresponsabilidade que incentiva ao mal. Ele nos incentiva à paciência que renuncia à vingança, já que desde a lei estamos proibidos de fazer justiça pelas nossas próprias mãos. A autêntica não-resistência cristã nos ensina que na vida pessoal devemos nos livrar não só de toda retaliação em palavras e atos, mas também de toda animosidade de espírito. Podemos e devemos entregar nossa causa ao Juiz bom e justo, como o próprio Jesus fez, e não devemos retribuir o mal, mas suportá-lo e, assim, vencer o mal com o bem.

Tudo isso é ser manso! Os mansos é que herdarão a terra. Essa afirmativa é contrária ao que se vive sob os padrões humanos, pois os valentes e arrogantes vencem a concorrência na luta pela sobrevivência. Vale ressaltar que nada do que se diz aqui serve para nos desencorajar em nossas conquistas dessa vida. Até mesmo os filhos de Israel lutaram pela terra que Deus lhes tinha dado. Mas o que não pode ser negligenciado é que a condição para tomarmos posse da nossa herança espiritual é a mansidão, pois tudo é nosso se somos de Cristo.

Os mansos, embora sendo despojados e privados de direitos pelos homens, podem se dizer possuidores de tudo. O novo céu e a nova terra lhes pertencem.

Os que têm fome e sede de justiça

"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos" (Mateus 5:6)

Todos nós já experimentamos a fome e a sede. O nosso ser se mantém por um processo de digestão. Os alimentos são digeridos e transformados em vários elementos que são transferidos para as bilhões de células do nosso corpo, transformados em energia para o funcionamentos dos órgãos. Uma pessoa que não sente fome e nem sede apresenta alguma enfermidade e terá conseqüências graves para o seu organismo, chegando até a morte.

Jesus faz uma comparação muito interessante sobre essa bem-aventurança. Ele compara a fome e a sede do nosso corpo com a fome e a sede que de justiça que devemos ter. Na linguagem figurada, justiça é o alimento espiritual que o cristão precisa ter e desejar. A falta de apetite por justiça é um sinal de que há enfermidade espiritual. Mas, de que Justiça Jesus está falando nessa bem-aventurança?

Há dois tipos de justiça que encontramos na Bíblia:

  1. A que Deus nos dá quando cremos em seu filho. Jesus se torna nossa justiça e santificação por um ato de graça divina. Essa justiça é segundo a fé, nunca merecida, nem paga pelas boas obras que tenhamos realizado. (Romanos 4:3-5; Gênesis 15:6); e
  2. A justiça implantada, o fruto do Espírito, juntamente com todas as evidências do amor de Deus enraizadas no coração do homem de Deus. A fome que surge como fruto da presença de Deus em nós (I Pedro 2:2-3).

Os judeus construíram ao longo dos anos um conjunto de leis que lhes proporcionava uma falsa sensação de merecedores dos favores de Deus. Enquanto a justiça judaica punia, a de Deus pretendia redimir, sob a longanimidade de Deus. No Sermão, Jesus mostra que a justiça dos discípulos deve exceder em muito a dos escribas e fariseus (Mateus 5:20). Jesus menciona três práticas justas: dar esmolas aos pobres, orar e jejuar (Mateus 6:1-18). Em momento algum Jesus condena essas ações, mas questiona a motivação do coração.

Ajuda aos necessitados:
Tiago nos lembra que a verdadeira religião pura e imaculada seria a de ajudar aos órfãos e viúvas e não nos corrompermos pelo mundo (Tiago 1:27). Porém, Paulo traz em I Coríntios 13:3 que mesmo a distribuição de todos os seus bens em prol do outro não teria validade alguma a não ser que existisse atitude de amor e nunca de autopromoção (Mateus 6:1-4). Essa ajuda deve existir baseada em uma alma cheia de compaixão genuína;
Oração:
a oração pode ser enquadrada na justiça que Deus espera da nossa parte. Em Mateus 6:5-14, Jesus traz um modelo de oração, no qual colocamos o seu reino em primeiro lugar. Faz-nos negarmos a nós mesmos e passarmos a Deus toda a glória devida;
Jejum:
em Mateus 6:16-18, o jejum é englobado como ato de justiça, mas não o que se desfigura, porém o que é feito por amor ao Senhor. Jesus foi levado ao deserto, onde ficou 40 dias em abstenção de alimentos, apenas para agradar a Deus (Lucas 4:1-2).

Enfim, em todos esses momentos Jesus estava querendo mostrar que a motivação que existia no coração dos fariseus era tão somente de se mostrarem santos e que com isso a admiração do povo recaía sobre eles, o que lhe dava abertura para manipular as leis. Essa já era a sua recompensa, a recompensa de homens e não divina. Não é essa que estamos desejando, não é mesmo?

Watson apresenta sete sintomas dos que não sentem fome e sede de justiça. São eles:

  1. a alma, justa aos seus próprios olhos, fica ensoberbecida com sua própria justiça imaginária (Romanos 10:3);
  2. o amor ao mundo e aos seus deleites enche o coração (I João 2:15-17);
  3. as pessoas estão demasiadamente sonolentos para "comer";
  4. as pessoas estão cansadas com as atividades mundanas e não têm mais fome do alimento espiritual;
  5. preocupação maior com os enfeites exteriores do que com a substância;
  6. pessoas levam mais a sério diversões e jogos do que a justiça; e
  7. as discussões e controvérsias ocupam o palco e a prática é esquecida.

Ivênio apresenta conseqüências da violação dessa bem-aventurança:

Estagnação na vida cristã:
em Hebreus 5:11-14, Paulo traz uma triste realidade vivida por muitos cristãos que estão há bastante tempo na igreja. São pessoas imaturas, levadas por qualquer vento de doutrina, que se magoam com muita facilidade, que não conseguem viver a forma simples do evangelho;
Perda de interesse:
pelos cultos, pela comunhão, pelo estudo da palavra;
Religiosidade aparente:
tentam mostrar um certo status espiritual, porém geralmente se tornam legalistas, estabelecendo regras para os outros;
Profissionalismo pastoral:
tem apenas como objetivo a manipulação de outros e nunca a santidade; e
Irresponsabilidade social:
"aquele que luta por justiça social ou por uma causa justa sem ter ele próprio fome e sede de ser justo, certamente se tornará um demagogo, usará armas igualmente opressoras para atingir os seus fins, tornando-se mais injusto que os seus opressores. O que normalmente acontece com esses é uma alienação com a injustiça social que os rodeia, sem importar-se com nada que os atinja. Muitos só despertam para as injustiças sociais quando os atinge e usam armar erradas movidas tão somente por interesse próprio ou por desejo de vingança."

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A anemia espiritual tem sido um dos maiores males que temos encontrado nas nossas igrejas, porque tem gerado cristãos doentes e mostrado ao mundo que não vale a pena seguirmos a essa palavra tão maravilhosa. Quero deixar nessa lição o conselho de Paulo a Timóteo quando escreve em I Timóteo 4:7-8: "Exercita-te pessoalmente na piedade. Pois, o exercício físico para poucos é proveitoso, mas a piedade para tudo é proveitosa porque tem a promessa da vida que agora é e que há de ser".

Não podemos deixar de lado Mateus 7:24-27, quando Jesus, no final do seu sermão, nos ensina a construirmos a nossa casa sobre a rocha, que é a palavra de Deus. Estamos com um grande desafio, mas sejamos sinceros e corajosos no que precisamos mudar e seguir.
Deus nos oriente nessa caminhada!!! Amém.

Misericordiosos

"Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia." (Mateus 5:7)

Deus nos trata com duas mãos:

Graça:
que nos dá tudo que não merecemos, como salvação, perdão, vida.
Misericórdia:
que não nos dá o que mereçemos, ou seja, juízo, condenação, morte.

Deus não nos trata segundo os nossos pecados. Ele é compassivo e piedoso, lento para a cólera, longânimo e rico em misericórdia (Salmo 103:8-10). As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos porque as suas misericórdia não têm fim, elas se renovam a cada manhã (Lamentações 3:22).

Misericórdia é a compaixão pelas pessoas que sofrem, passam necessidade. A misericórdia trata da dor, miséria e desespero que resultam do pecado. Concede alívio, traz cura e ajuda.

Jesus não especificou quem seria o alvo dessa misericórdia. Não falou de um grupo seleto digno de ser tratado com tão grande dádiva, até mesmo porque a misericórdia, assim como o perdão, não é dada a quem a merece, mas a quem dela necessita. Então, não há uma pessoa sequer que não seja alvo desse favor.

Deus é misericordioso e dá provas disso continuamente; os cidadãos do seu reino devem fazer o mesmo.

O mundo não age dessa forma. Ao contrário, repele o necessitado e aflito. Não tem motivos para oferecer perdão, já que é doce o sabor da vingança, e o perdão, se comparado à vingança, é sem graça.

Mas os que oferecem misericórdia encontrarão misericórdia. Não que nossa atitude de misericórdia nos faça merecedores de misericórdia, ou merecedores de perdão quando somos perdoadores. A questão é que existe um ciclo infalível: nada prova mais claramente que fomos perdoados do que a nossa prontidão em perdoar.

Quando entendo que sou pecador e me arrependo, inevitavelmente eu entendo também a situação do outro, que ele é tão indigno da misericórdia quanto eu e ao mesmo tempo tão necessitado dela quanto eu. E a consciência de que fomos perdoados nos impulsiona ao perdão. A misericórdia que nos alcançou não pode ter como destino a nossa vida. Tem que fluir através de nós e alcançar quem passa pelo nosso caminho.

Perdoar e ser perdoado, exercer misericórdia e recebê-la acabam indissoluvelmente juntos. É isso que Jesus explicou na Parábola do Credor Incompassivo (Mateus 18:23-35).

A parábola fala de dois devedores que tiveram que acertar contas com seus credores. O primeiro devia ao rei uma quantia de dez mil talentos, quantia referente a quase 1 bilhão de reais. Uma quantia muito alta que ele não poderia pagar. A única saída era vender tudo o que ele tinha, inclusive seus filhos, esposa e ele mesmo. Seriam escravos e trabalhariam em pagamento da dívida. Mas ele não se conformou, prostrado reverenciava o rei e pedia misericórdia, que seu rei fosse generoso, desse mais um prazo ou um abatimento, pois ele tinha intenção de pagar. O rei, movido de grande compaixão dispensou aquele devedor perdoando-lhe a dívida. Aquela dívida enorme, impagável.

O segundo devedor era um caso fácil de se resolver, diante do primeiro que devia 60 milhões de denários, devia apenas 100 denários. E para sua sorte devia esse pequeno valor àquele servo que tinha sido perdoado de tão grande dívida. Mas, de modo surpreendente, o homem que fora perdoado, ao encontrar o seu devedor, lançou mão dele e o sufocava exigindo que lhe pagasse. E apesar da súplica do conservo ele foi preso e lá ficaria até que pagasse a dívida.

O caso chegou aos ouvidos do rei, que chamou o servo que não perdoou e lhe disse: "Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida porque me suplicaste. Não devias tu igualmente compadecer-te do teu companheiro, como também eu me compadeci de ti?" (Mateus 18:33). O rei entregou aquele homem aos carrascos para sofrer até que a dívida fosse paga. Vale salientar que ele não tinha jamais condições de saldar aquela dívida.

E Jesus termina a parábola dizendo: "Assim também vos fará meu Pai celeste, se de coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas" (Mateus 18:35).

Algumas observações precisam ser feitas:

Quando deixamos de oferecer compaixão ficamos entregues à tortura. Torturados pela ira, sufocados pela amargura e consumidos pela vingança. Essa é a punição daquele que experimenta a graça de Deus, mas se recusa a compatilhá-la.

Infelizmente é muito fácil nos identificarmos com o primeiro servo. Quem de nós não compreende facilmente o motivo de Jonas ter fugido para Társis? Compreendemos também a sua indignação por Deus ter ouvido o clamor de um povo conhecido por sua crueldade, mas que agora estava arrependido.

Somos na maioria das vezes duros e implacáveis com os pecados do nosso próximo por não fazermos uma avaliação devida do quanto somos perdoados por Deus. Isso exige uma avaliação honesta do quanto somos pecadores. É por isso que Jesus nos ensina a tirar a trave do nosso olho antes de tirar o cisco do olho do nosso irmão. Achar defeitos nos outros é muito fácil, difícil é olhar para nós mesmos e oferecer misericórdia na medida em que gostaríamos de recebê-la quando fracassamos.

O Sermão do Monte nos propõe diversos princípios que vão de encontro à nossa natureza, mas que suscitam em nós um interior conforme a natureza de Deus demonstrada em Jesus.

Quem oferece misericórdia e perdão é longânimo e compassivo e será abençoado com a longanimidadde de Deus.

Alguém disse que "O perdoador será sempre alguém quebrantado, que não se acha superior aos outros e, por isso, não é implacável com os erros que outros cometem". Quando se perdoa, um nível mais profundo de intimidade é alcançado por meio de uma aceitação mútua, sincera, sem máscaras. Isso se manifesta em comunhão, ao ponto de podermos lavar os pés uns dos outros.

Perdoar é um grande desafio que chega a ser impossível para o homem natural. Mas para nós, que tivemos uma nova chance por meio do perdão de Deus, perdoar é um princípio de vida que não pode ser negligenciado. Com certeza, nada disso se opera em nós por força ou violência, mas pelo Espírito Santo de Deus. O que nos cabe é caminhar na direção do agir de Deus, ouvir seu ensinamento, desejar cumprir sua vontade, orar nesse sentido e praticar crendo que Deus é quem nos capacita.

O assunto é sério. Na oração modelo que Jesus nos ensinou diz assim: "... e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores... Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas" (Mateus 6:12,14-15).

Jesus condiciona o perdão que Deus nos dá ao perdão que damos ao nosso semelhante. Quando não perdoamos, quebramos um princípio do Reino de Deus, do qual só fazemos parte por causa do perdão. Esse reino é pra mim e pra você, não porque merecemos, ou porque não cometemos esse ou aquele pecado, mas porque o perdão nos alcançou. Só o perdão é solução para nós.

Não perdoar é fazer do próprio coração uma masmorra onde se tortura o devedor, apesar de ele mesmo, muitas vezes, nem tomar conhecimento disso. Mas o ressentido vive ali naquele ambiente sombrio, regado pelas lembranças dolorosas que se faz questão de trazer à memória. O ressentimento espesso e profundo impede seus passos. Não há saltos alegres pelos prados. Não há escalada saudável de montanhas. Apenas um dia após outro, andando na tempestade, de ombros curvados contra o vento, e os pés se arrastando pelas cinzas que a vida produziu. O ressentimento é a decisão deliberada de nutrir a ofensa até que ela se torne um furioso e amargo rancor.
Como a droga que vicia e pode matar, a raiva também pode matar o irado. O ressentimento crônico está associado a altos níveis de colesterol, hipertensão e outras condições patológicas. Pode matar emocionalmente, no sentido de aumentar o nível de ansiedade e levar à depressão. Alguém já disse que:

"O ódio é o cão raivoso que se volta contra o próprio dono.

A vingança é o fogo incontrolável que consome o incendiário.

A amargura é o laço que prende o caçador.

E a misericórdia é a escolha que pode tornar todos livres."

Limpos de coração

"Bem-aventurados os limpos de coração porque verão a Deus" (Mateus 5:8)

Não há como pensar que Jesus estivesse falando do nosso coração físico, com músculos, sangue sendo bombeado, artérias e etc. O coração a que Ele se refere é o nosso verdadeiro eu que pensa, que tem critérios de avaliação, que se emociona, que se alegra e se entristece. É dentro desse controle que fluem as questões fundamentais da vida.

Sabemos pela Bíblia que Deus testa o coração do homem e julga a sua sinceridade, vemos isto acontecendo com alguns homens e mulheres de Deus como:

No tempo de Jesus, a contaminação resultava do contato com os gentios impuros e com artigos constantes da lista de alimentos proibidos. Contatos com objetos classificados como imundos contaminavam cerimonialmente (Marcos 7:15-23). Jesus vem para ensinar exatamente o contrário. Não é por ingerir um pedaço de carne proibida ou por tocar num cadáver que o coração se torna imundo, mas o que contamina o homem é o que brota de um coração não convertido e sai da boca.

O coração herdado pela queda de Adão é uma fábrica de maldade, mesmo sem estímulos da tentação o coração gera atitudes pecaminosas. Queremos nos parecer bons, nos camuflamos e mascaramos as nossas reais motivações pecaminosas, faltando-nos integridade. A nossa verdadeira pessoa não aparece nos belos discursos, mas nas nossas atitudes, que são frutos das nossas emoções. Por isso Salomão fala em Provérbios 4:23 que "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida".

Porém, Jesus está falando de uma pureza que os pobres de espírito tiveram o privilégio de alcançar porque entenderam que só pela ação de Deus é possível possuir a Sua santidade. Os limpos de coração possuem a transparência da alma, não se escondem, são autênticos. É a mesma pessoa em casa, no trabalho, no lazer, na igreja. Não é alguém que não erra, ou não peca, mas alguém que não se camufla.

Paulo aos Romanos adverte: "Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus" (Romanos 12:2 -- NVI). Esse é o caminho da purificação dos nossos corações e mente.

Russell Shedd traz três maneiras bíblicas de purificar o coração, são elas:

  1. A obediência (I Pedro 1:22; Gálatas 5:7): Ele afirma que "a obediência resulta de um desejo maior pela vontade de Deus do que pela nossa própria vontade. Quando obedecemos ao nosso Pai, descobrimos como crianças obedientes, a satisfação extraordinária da comunhão e da aceitação. Experimentamos a união alegre com ele". E complementa "Não existe a possibilidade de alguém resolver tornar-se cristão e, ao mesmo tempo, rejeitar os plenos direitos que Cristo tem sobre sua vida. Ainda que exista uma teologia que apresente a carnalidade como opção para o cristão, a verdade é que para se converter é necessário que a pessoa entregue ao Senhor os direitos sobre a sua vida.";
  2. O arrependimento (I João 1:9; Romanos 12:2): "O arrependimento significa, segundo o grego original, mudar de mente (metanoia). Por um lado, a pureza de coração é a conseqüência da atuação de Deus convertendo e limpando as impurezas e a podridão do centro do comando da vida humana. Por outro lado, ele também exige que exerçamos a nossa responsabilidade pessoal. (...) Sabemos que é genuíno o nosso arrependimento quando passamos a sentir nojo do pecado com que antes nos deliciávamos. Um cristão pode cometer pecado, mas não pode sentir-se bem com o seu coração maculado e com consciência ferida. Um arrependimento menos radical pode ser mero remorso.";
  3. A eliminação do Estranho (Mateus 6:24; Marcos 12:30): "A pureza do coração também caracteriza o cristão que enxerga claramente um único alvo na vida: o sumo bem. Jesus descreveu essa atitude de um olho bom que permite que somente a luz penetre no íntimo. O coração dividido procura agradar a dois senhores (...). A razão porque Deus nos criou foi que lhe concedamos a supremacia em tudo quanto ambicionamos e que a glória dele seja a prioridade em todas as nossas atividades e esforços.".

No Salmo 24:3-6, o salmista faz a pergunta crucial ao Senhor: "Quem poderá subir o teu monte? Quem entrará no seu Santo Lugar?" e logo vem a resposta no versículo seguinte: "Quem tem as mãos limpas e o coração puro". Essa é a recompensa daqueles que têm o coração limpo: poder entrar no Seu santo lugar e ali fazer parte dos Seus benefícios de amor.

Paulo afirma em I Coríntios 13:12 que "agora, pois vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido" (NVI). Quantas maravilhas já temos experimentado de Jesus, mesmo não o conhecendo plenamente! Estamos num antegozo da visão de Deus, mas chegará um dia em que o veremos face a face e então toda plenitude do Senhor nos invadirá e viveremos com ele por toda a eternidade. Aleluia!!!

Não abra mão de um coração limpo, pois a maior recompensa é termos e vermos o nosso Senhor em toda a sua plenitude.

Pacificadores

"Bem-aventurados os pacificadores porque eles serão chamados filhos de Deus." (Mateus 5:9)

A pacificação é uma obra divina, pois Deus é o autor da reconciliação. O termo usado nessa bem-aventurança é o mesmo usado por Paulo em referência ao que Deus fez através de Cristo: Deus se agradou em reconciliar consigo mesmo todas as coisas por meio de Cristo, por meio do sangue da sua cruz (Colossenses 1:20). E nessa reconciliação o propósito de Cristo foi criar, a partir de judeus e gentios, um novo homem, fazendo a paz (Efésios 2:15).

Diante de tudo isso não é de se admirar que a bênção associada aos pacificadores é que eles serão chamados filhos de Deus, pois estão procurando fazer a vontade do seu Pai. Deus ama a reconciliação e está inclinado a fazer a paz, através de seus filhos, tal como fez antes, por intermédio do seu Filho unigênito.

A paz de Deus custou o preço do sangue de Jesus, a vida de seu Filho. A princípio já podemos perceber que a paz é um empreendimento custoso, também a nós, em menor escala, é claro.

A Bíblia diz em Romanos 12:18: "Se for possível, no que depender de vós, tende paz com todos os homens". Muitas vezes depende de nós; e Jesus, no Sermão do Monte, nos ensina qual o caminho da paz com todos os homens. "Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta".

1º passo: Lembrar
Quando nos colocamos diante de Deus para cultuar, precisamos fazer uma avaliação honesta do nosso relacionamento com ele e com nossos irmãos. Se virmos relacionamento quebrado com algum irmão devemos dar o segundo passo.
2º passo: Deixar a oferta
Jesus está nos ensinando que a nossa relação vertical com Deus é afetada pela relação horizontal com nossos irmãos. A oferta deve ser deixada no altar até que haja o concerto, mas não pode ser deixada esperando, por meses ou anos. Manter a paz com todos significa buscá-la o mais rápido possível.
3º passo: Ir
Se alguma coisa não está resolvida temos que ter a iniciativa. Isso é pelo bem estar do corpo de Cristo.
4º passo: Reconciliar
Implica coração quebrantado. A ocasião não é para se justificar ou apontar o outro como responsável ou co-responsável pelo desentendimento.
5º passo: Voltar e ofertar
É celebrar a vitória da cruz sobre o pecado. Entrar no Santo dos Santos pelo novo e vivo caminho que Jesus nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne.

O verso 22 de Mateus 5 nos adverte quanto a atitudes que podemos ter contra nosso irmão e a punição que nos acarreta. Precisamos ser sensíveis a essas coisas. Nunca deveríamos permitir que uma desavença permanecesse, muito menos que se desenvolvesse. Não devemos retardar o fazer as pazes. Não devemos nem permitir que o sol se ponha sobre a nossa ira. Mas, imediatamente, logo que tivermos consciência de um relacionamento estremecido, devemos tomar a iniciativa de restaurá-lo, de pedir desculpas pelo ressentimento que provocamos, de pagar a nossa dívida, de fazer restituições.

Não foi por acaso que Jesus falou primeiro sobre o ser limpo de coração. É preciso coração puro para ser pacificador. É preciso também ser misericordioso, manso, humilde de espírito etc. Todas essas são características de um caráter cristão que Deus está formando em nós.

Podemos também ser pacificadores entre terceiros e uma das maneiras é Semear a boa palavra. Observe a história abaixo.

Um jovem pastor assumiu uma igreja que vivia um grande problema: estava dividida em dois grupos que tinham tomado partido ao lado de duas irmãs (Sandra e Beth), que brigavam entre si. Na busca de uma solução para a questão o jovem pastor foi aconselhado por um diácono a tentar semear alguma concórdia entre elas. E assim ele fez.

Em visita à irmã Beth, enquanto saboreava seus quitutes comentou discretamente sobre os maravilhosos doces da irmã Sandra. Imagine a confusão: a irmã Beth ficou muito irritada, quase gritou: "É verdade, ela tem uma mão muito boa para doces, pena que não tem a mesma habilidade para outras coisas, pois é terrível de gênio e..."

Na semana seguinte quando o pastor foi visitar a irmã Sandra disse a ela: 'Irmã Sandra, seus doces são uma delícia! Bem que a irmã Beth já havia me falado que a senhora tem uma mão muito boas para doces' (É claro que ele não disse o resto). Sandra respondeu: "Quem falou isso? A Beth Fernandes? Quem diria que eu um dia iria ouvir isso da parte dela. Ela também faz salgadinhos maravilhosos e muitas outras coisas gostosas..."

Logo, logo, o jovem pastor começou a perceber olhares de aprovação sendo trocados e com o passar do tempo aquela nuvem foi se dissipando.

A grande maioria de nós tem a tendência de se calar quanto à boa palavra, não fazendo que ela chegue aonde deveria, ou seja, à pessoa elogiada, mas age de forma diferente com a má palavra fazendo, muitas vezes, questão de levá-la até o seu alvo. Agindo assim nos tornamos instrumentos nas mãos do maligno para dividir e infectar o corpo.

Se atirarmos uma tocha de fogo em um lago, ela se extinguirá imediatamente, mas se a atirarmos num milharal seco, em segundos provocaremos um incêndio perigoso. Para a má palavra devemos ser como um lago.

Às vezes somos seduzidos de maneira muito sutil pelo adversário crendo que se aquilo que estamos falando é verdade temos o direito de falar. A Bíblia nos diz claramente que não falemos mal uns dos outros. Se não tivermos algo de bom pra falar sobre alguém a melhor opção é não falar nada.

Podemos também se pacificadores participando da reconciliação das pessoas com Deus. E não deixando de arcar com o custo da evangelização e do discipulado.

Perseguidos por causa da justiça

"Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós." (Mateus 5:10-12)

Estamos caminhando para o fim do nosso estudo sobre as bem-aventuranças, trazendo hoje a última das características do caráter cristão propostas por Jesus no Sermão do Monte.

Na bem-aventurança anterior Jesus nos ensina sobre a pacificação e nos incentiva a manter a paz com todos os homens, no que depender de nós. Mas não dá prá negar que, por mais que nos esforcemos para isso, há determinadas pessoas que se recusam a viver em paz conosco, não necessariamente por causa de nós, mas porque não gostam da justiça, da qual temos sede e fome, e porque rejeitam a Cristo, a quem procuramos seguir. E em função disso surgem as perseguições, calúnias, injúrias e todo tipo de mal contra nós, simplesmente por causa de Cristo.

E a pergunta é: Como reagir diante de tudo isso? Como Jesus esperava que seus discípulos reagissem diante da perseguição? Ele mesmo responde no versículo 12: "Regozijai-vos e alegrai-vos...".

A nossa atitude não dever ser de vingança ou mal humor, nem de autopiedade lambendo as próprias feridas, ou ainda de masoquismo como se estivéssemos gostando disso tudo. Devemos nos alegrar como um cristão.

Sei bem que tudo isso soa no mínimo estranho aos nossos ouvidos, mas faz sentido por alguns motivos.

Primeiro motivo:
é grande o nosso galardão nos céus. Podemos perder tudo nessa terra, mas herdaremos tudo nos céus.
Segundo motivo:
porque a perseguição é sinal da genuidade da nossa fé; um certificado de autenticidade cristã. Foi assim com os profetas que viveram antes de nós.
Principal motivo:
o principal motivo pelo qual devemos nos orgulhar de estarmos sofrendo, como disse o próprio Jesus: "É por minha causa" (verso 11), por causa da nossa lealdade para com ele e com seus padrões de verdade e justiça. Essa era a convicção que estava no coração dos discípulos. Quando açoitados por pregarem o nome de Jesus, saíram do sinédrio "regozijando-se porque tinham sido julgados dignos de padecer pelo nome de Jesus" (Atos 5:41). Eles sabiam que ferimentos e contusões são medalhas de honra.

Vale ressaltar que o texto chama de bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça e não por causa da estultícia que é o mesmo que tolice ou insensatez.

Cada cristão deve ser um pacificador e cada cristão deve esperar oposição. Da mesma maneira que o discípulo deve ser humilde de espírito, manso, limpo de coração, ele com certeza há de sofrer perseguições por causa da justiça e de Cristo. Aqueles que têm fome e sede de justiça sofrerão por causa da justiça que anseiam. Jesus disse que seria assim em qualquer lugar. Não devemos nos surpreender se a hostilidade anti-cristã aumentar, mas se ela não existir. Como diz Lucas: "Ai de vós, quando todos vos louvarem!" (Lucas 6:26). A popularidade está para os falsos profetas assim como a perseguição para os verdadeiros.

As bem-aventuranças pintam um retrato compreensivo do discípulo cristão. Primeiro, vemo-lo de joelhos diante de Deus, reconhecendo sua pobreza espiritual e chorando por causa dela. Isto o torna manso ou gentil em todos os seus relacionamentos, considerando que a honestidade o compele a permitir que os outros pensem dele aquilo que, diante de Deus, já confessou. Mas, longe dele aquiescer em seu pecado, pois ele tem fome e sede de justiça; anseia crescer na graça e na bondade. Vêmo-lo, depois, junto aos outros, lá fora, na comunidade humana. Seu relacionamento com Deus não o faz fugir da sociedade nem o isola do sofrimento do mundo. Pelo contrário, permanece no meio deste, demonstrando misericórdia àqueles que foram golpeados pela adversidade e pelo pecado. Ele é transparentemente sincero em todos os seus relacionamentos e procura desempenhar um papel construtivo como pacificador. Mas ninguém lhe agradece pelos esforços; antes, é hostilizado, injuriado, insultado e perseguido por causa da justiça que defende, e por causa do Cristo com o qual se identifica.

Tal é o homem ou mulher que é "bem-aventurado", isto é, que tem a aprovação de Deus e alcança realização própria como ser humano.

Qualquer pessoa que entre em comunhão com Jesus tem de passar por uma reavaliação de valores. Nas bem-aventuranças, Jesus apresenta um desafio fundamental ao mundo cristão e exige que seus discípulos adotem o seu sistema de valores, totalmente diferente.

A cada nova bem-aventurança aprofunda-se o abismo entre os discípulos e o povo. Jesus está falando daqueles que não sintonizam com o mundo, os que não podem equiparar-se ao mundo. Choram sobre o mundo, sua culpa, seu destino e sua sorte. Enquanto o mundo festeja, ficam à parte; enquanto o mundo chama: "Gozai a vida", os discípulos choram. O mundo sonha com o progresso, com o poder, com o futuro --- os discípulos sabem do fim, do juízo e da vinda do reino dos céus para o qual o mundo não está apto. Por esta razão são os discípulos estranhos ao mundo, hóspedes indesejáveis, perturbadores que são rejeitados.

Tal inversão dos valores humanos é básica na religião bíblica. Os métodos do Deus das Escrituras parecem uma confusão para os homens, pois exaltam o humilde e humilham o orgulhoso; chamam de primeiros os últimos e de últimos os primeiros; declaram que os mansos serão seus herdeiros. A cultura do mundo e a contracultura de Cristo estão em total desarmonia uma com a outra. Resumindo, Jesus parabeniza aqueles que o mundo mais despreza e chama de "bem-aventurados" aquele que o mundo rejeita.

Observação: Este texto inclui inúmeras citações da obra Contracultura Cristã, de John Stott.