Crescimento espiritual

imagem de Flávio Cardoso
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Uma igreja de bebês espirituais

Durante alguns anos, eu fiz parte de uma igreja local que era considerada, por muitos, como um verdadeiro exemplo de igreja. Encrustada num dos bairros mais nobres da cidade, ela tinha um rol de milhares de membros, e dezenas de novas conversões aconteciam a cada semana. Muitas curas milagrosas aconteciam, e as multidões afluíam ao templo.

Porém, a maravilhosa impressão que a igreja me causou quando a conheci desvaneceu-se com o passar do tempo. Ao conhecer melhor os seus membros, passei a notar que ela não passava de um grande ajuntamento de bebês espirituais. É verdade que milhares se convertiam. Mas milhares também se desviavam. E os que ficavam muitas vezes mantinham um comportamento pecaminoso totalmente incompatível com o cristianismo que diziam ter abraçado. A grande maioria era violentamente sacudida por qualquer "novidade gospel", das quais os mais antigos de vocês devem se lembrar bem: dente de ouro, pó de ouro na mão, cair no poder do Espírito, etc.

Talvez alguns possam pensar que a igreja não tinha uma boa estrutura de ensino bíblico. Muito pelo contrário! Eu jamais vi, e provavelmente jamais verei, uma escola bíblica dominical tão bem estruturada. As disciplinas eram ministradas por especialistas, à semelhança de um seminário teológico. A cada semestre, os membros escolhiam qual disciplina queriam fazer. Eu ainda me lembro de algumas das disciplinas ofertadas: Velho Testamento 1 e 2, Novo Testamento 1 e 2, Escatologia, Romanos, Escola de Oração etc.

A grande verdade é que aquela multidão de cristãos não crescia espiritualmente. Tinham uma experiência com Deus muito incipiente, muito inicial, incapaz de sustentá-las nos momentos difíceis. Não eram pessoas com as quais Deus podia contar em seu propósito para a Igreja.

Quais as razões dessa tragédia? Será que temos experimentado uma situação parecida? É sobre isso a nossa reflexão.

Sem comunhão, sem crescimento

Prestem atenção nas palavras do apóstolo Paulo (Efésios 4:11-16):

"E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo.

O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro. Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.

Dele todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função."

Nesta passagem, o apóstolo Paulo associa duas ideias que parecem não ter correlação entre si: crescimento espiritual e Corpo de Cristo. Mas, na realidade, a correlação entre ambas é imensa! Não existe amadurecimento fora do Corpo.

Temos meditado, em lições passadas, acerca de uma verdade importante: a Igreja é o Corpo de Cristo. Cada um de nós é apenas uma parte desse Corpo místico. Ora, um corpo só pode crescer de forma saudável se cada parte desempenhar bem a sua função. Se o fígado ou os rins não funcionarem bem, haverá problema no crescimento. Também, quando um corpo cresce, todas as suas partes crescem juntas. Não é possível que uma parte isolada do corpo decida crescer sozinha, por conta própria. Para Paulo, só podemos chegar à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo, como Igreja. Nunca isoladamente.

Aqui vemos uma importante razão para o fracasso no crescimento espiritual de boa parte da cristandade brasileira. Muitos cristãos imaginam poder crescer sozinhos, isolados do Corpo. Cultivam uma vida devocional, dedicando-se à oração e a leitura bíblica, imaginando que poderão obter diretamente de Deus tudo o que precisam para o seu crescimento. Na verdade, esses irmãos são membros de igrejas. Oh, sim: eles vão aos cultos semanalmente, ouvem a pregação, cantam as músicas, entregam seus dízimos, recebem imposição de mãos dos pastores. Eles pensam que são membros do Corpo de Cristo, mas não são! São como um fígado jogado ao chão, tentando sobreviver fora do Corpo; não têm comunhão verdadeira com ninguém. Não recebem a vida que flui pelo Corpo. Não assumem o compromisso de desempenhar, no Corpo de Cristo, a função que Deus lhe confiou. Não abençoam ninguém. Bem, se esses irmãos realmente amam a Bíblia, devem reconhecer que estão desprezando o que Paulo nos ensina nesta passagem e que sua ausência do Corpo vem causando grande prejuízo. Que se arrependam de seu pecado e retornem ao Corpo!

É para corrigir essa distorção que as igrejas têm investido nos pequenos grupos, onde realmente a comunhão e a edificação mútua acontecem. A igreja descrita na Bíblia vivia em pequenos grupos. Aquela igreja doente, da qual falei, não tinha pequenos grupos e essa era uma importante razão de seu fracasso. Se você faz parte de um Grupo de Vida, está no caminho certo para o crescimento espiritual. Esmere-se em desempenhar, no Corpo de Cristo, a função para a qual Deus o designou. Se você ainda não sabe qual é, jejue e ore para saber.

Sem Bíblia, sem crescimento

Se é verdade que não existe crescimento espiritual fora do Corpo, também é verdade que cada membro do Corpo precisa receber o alimento espiritual verdadeiro, ou seja, as palavras de Deus, encontradas nas Sagradas Escrituras. Vejam:

  • "O Espírito dá vida; a carne não produz nada que se aproveite. As palavras que eu lhes disse são espírito e vida." (João 6:63)
  • "De fato, embora a esta altura já devessem ser mestres, vocês precisam de alguém que lhes ensine novamente os princípios elementares da palavra de Deus. Estão precisando de leite, e não de alimento sólido!" (Hebreus 5:12)
  • "Guardei no coração a tua palavra para não pecar contra ti." (Salmos 119:11)
  • "Não deixe de falar as palavras deste Livro da Lei e de meditar nelas de dia e de noite, para que você cumpra fielmente tudo o que nele está escrito. Só então os seus caminhos prosperarão e você será bem sucedido." (Josué 1:8)
  • "Porque desde criança você conhece as sagradas letras, que são capazes de torná-lo sábio para a salvação mediante a fé em Cristo Jesus." (2 Timóteo 3:15)

Como fazer para introduzir as Sagradas Escrituras na mente dos irmãos? Será que as escolas bíblicas resolvem o problema?

Bem, não tenho nada contra escolas bíblicas. Acho que elas até podem ajudar. Mas, naquela igreja doente, da qual falei, a qual tinha a melhor escola bíblica que eu já vi, a maior parte dos irmãos não sabia a Bíblia. Outros até sabiam, mas não viviam. Conhecimento intelectual da Bíblia não implica vida espiritual. Escolas bíblicas só podem garantir o conhecimento intelectual, mas não a vida. E, é bom lembrar, a igreja de Atos dos Apóstolos, na qual sempre nos espelhamos, não tinha escola bíblica. Aliás, a maior parte das igrejas primitivas só tinha o Velho Testamento e alguns livros do Novo.

Primeiramente, é preciso que os cristãos desenvolvam a atitude correta perante a Bíblia. Precisamos nos alimentar das palavras de Deus de forma lenta e constante, como as ovelhas comem o pasto. Meditar em algum trecho da Bíblia todos os dias, mesmo que pequeno, é mais importante do que fazer um curso que apresente a teologia bíblica de forma sistemática. As palavras de Deus nos transformam sem que percebamos.

Em segundo lugar, é preciso que guardemos as Escrituras em nossas mentes, memorizando-as. Depois de um tempo na nossa memória, as palavras de Deus descem ao nosso espírito. E, no momento da necessidade, essas palavras voltam à nossa mente, aflorando de maneira maravilhosa.

Conheço uma irmã que adota uma estratégia interessante. Recém convertida e sedenta das palavras de Deus, ela passou a memorizar salmos e outras passagens bíblicas. Não poderíamos também passar a memorizar um salmo por semana?

O curioso é que essa estratégia não é nada nova. Desde o século IV da era cristã, os antigos monges memorizavam os salmos. Com um detalhe: boa parte deles não sabia nem ler! A memorização era feita por meio do canto coletivo, nos monastérios, realizado várias vezes ao dia.

Além da leitura bíblica, a vida de oração também é muito importante para o crescimento espiritual. Temos falado bastante sobre ela em várias reflexões. No momento apropriado, voltaremos a falar disso, se Deus permitir.

Sugestões para reflexão em grupo

  1. Como vimos, cada irmão é um membro do Corpo de Cristo e tem uma função a desempenhar. Será que todos do grupo já sabem a função que devem desempenhar? Debatam sobre isso. Talvez seja necessário iniciar uma campanha de oração e jejum, no Grupo, para que Deus designe cada um para o seu ministério.
  2. Quantos versos bíblicos você sabe de cor? Cada pessoa do Grupo deve recitar os versos que sabe de cor.
  3. Que tal memorizar mais passagens bíblicas? Se você sentir no coração, comprometa-se, perante o Grupo, a memorizar uma passagem por semana. Na reunião seguinte, cada qual deve recitar a passagem memorizada, dizendo a localização.

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