Gaiatos no navio

imagem de Flávio Cardoso
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Certa feita, encontrei-me com um amigo que passava por tremendas tribulações. Ele já se encontrava bastante triste por causa de um parente próximo que vegetava por vários meses numa cama de hospital, sofrendo com infecções e tantos outros males. Então, veio a morte inesperada de um outro parente próximo, agravando ainda mais a sua tristeza. Passei alguns minutos com ele, ouvindo-o e deixando que chorasse, desabafando.

Esse encontro se deu no ambiente de trabalho. Sugeri-o que fosse para casa, mas ele preferia ficar no trabalho, pois o clima em casa era pior. De fato, não tinha um lugar aonde ir para descansar o espírito. Ao final da conversa, sugeri-o que visitasse a reunião de nossa igreja local no culto dominical daquela semana e ele gostou da ideia. Mas teve problemas e não conseguiu ir à reunião.

Enquanto estava na reunião da igreja, ainda na expectativa da vinda do meu amigo, fiquei imaginando como ele se sentiria se ali estivesse. Certas coisas me deixaram preocupado. Por isso, compartilho com vocês este texto.

Igreja: um grande hospital

Lembro-me das palavras de um pastor que dizia: “a Igreja não é um hotel 5 estrelas. É um hospital de emergência”. Existe muita sabedoria nestas palavras. Assim disse o nosso Mestre:

28 Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. (Mateus 11:28)

Tente resgatar, em sua memória dos evangelhos, quais eram as características das pessoas que vinham até Jesus? Como eram, em sua maioria? Ricos, bem sucedidos, saudáveis e de bem com a vida? Não! Eram cegos, surdos, coxos, pobres, endemoninhados, rejeitados pela sociedade, pessoas sem esperança e sem prestígio. Esse era o público alvo de Cristo.

Ainda hoje, creio que a maior parte das pessoas que procuram as igrejas, tanto nos templos quanto nas casas, é composta por aflitos, endividados, angustiados, doentes, deprimidos, carentes etc. Mas tenho a impressão de que nossas reuniões nem sempre consideram esta realidade. Muitas vezes conduzimos nossas reuniões como se só houvesse irmãos nela, ignorando completamente a realidade dos aflitos. Temos que decidir o tipo de reunião que queremos ter em nossas igrejas: uma voltada apenas para os crentes ou uma que considere também os não crentes que ali adentraram. Acho que não é uma decisão difícil, considerando nossa missão enquanto discípulos do Senhor.

Vinagre na ferida

Nós, que tivemos nossa vida restaurada pelo poder de Deus, temos uma imensa vontade de nos encontrar para nos alegrarmos juntos, cantando, dançando, pulando e gritando em nossas reuniões. Depois de alguns dias desde a última reunião, é maravilhoso nos encontrarmos com nossos irmãos para celebrarmos nossa salvação e nossa nova vida em Cristo. De fato, é uma bênção fazermos isso; é algo que renova nossas forças. Cantamos sobre as bênçãos recebidas, a vitória em Cristo, a derrota de nossos inimigos etc.

Mas, como ficam os “cansados e sobrecarregados” que, em busca de alívio para suas dores, acabam “entrando de gaiatos nesse navio” de celebração? Salomão responde:

Tirar a capa num dia de frio, derramar vinagre numa ferida: isso faz aquele que canta canções a um coração atribulado. (Provérbios 25:20, versão católica)

É claro que nossos louvores não precisam deixar de ser alegres. Ao contrário, a alegria do Espírito é contagiante e pode até mesmo trazer grande alívio para os angustiados. Mas essas pessoas não podem ser simplesmente ignoradas. Não devemos simplesmente começar a cantar e festejar sem ANTES dar uma palavra de ânimo, de esperança e preparar esses corações para que o Senhor os cure.

Vou dar um exemplo para aclarar o que estou dizendo. Ponha-se no lugar de uma pessoa aflita que, pela primeira vez, entrou no templo. O culto começa e o ministro de louvor diz: “Você, que entrou nesta noite em nossa casa aflito, saiba que Jesus é o seu alívio. Eu te convido a, por alguns minutos, tentar esquecer o seu problema e pensar nEle. Experimente adorar a Deus, apesar de suas lutas, e você verá como Ele vai te encher de paz e alegria”. Em seguida, ele começa a cantar uma canção como a adorável “Esta noite é uma noite de um encontro com Deus...”.

Que maravilha! Certamente aquele visitante já se sentirá agasalhado pelo Senhor desde a primeira canção. Quando ele olhar para as pessoas cantando com alegria, saberá que talvez elas também tenham problemas. Porém, estão deixando-os de lado para adorarem a Deus.

Agora imagine que o ministro de louvor começe logo gritando algo como: “Quem está feliz com Jesus dê um brado de alegriiiiiaaaaaa!”. Logo depois, começa a cantar a enigmática “Vem com Josué lutar em Jericó”. Depois de tanto vinagre na ferida, acho que nosso visitante talvez prefira sair de fininho, antes que essa tal muralha de Jericó caia em cima dele!

Todos somos responsáveis

Antes que os ministros de louvor me crucifiquem, quero enfatizar que a responsabilidade não é apenas deles, de maneira alguma. O “vinagre na ferida” não é apenas o das canções: é o do aperto de mãos negligente dado pelo introdutor, o da indiferença dos irmãos que nem notaram a presença de visitantes no culto, o da piada infeliz lançada pelo pregador, o dos que ficam rindo e conversando durante a pregação etc.

É preciso que todos estejamos atentos à possibilidade de que vidas destruídas possam estar do nosso lado, suspirando por cura. Deus as ama e as atraiu até nós para curá-las. É por causa delas que a Igreja ainda está nesta Terra. Nossa missão, em que precisamos estar focados, é a de sermos agente da cura divina para o mundo.

15 Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram. (Romanos 12:15)

Aprendendo onde é mais improvável

Em várias ocasiões, não apenas neste site mas também nos púlpitos, eu tenho atacado o falso evangelho pregado nas igrejas que esposaram a chamada "teologia da prosperidade".

O grande problema com essas igrejas é que levam os cristãos a se tornarem "caçadores de bênçãos", materialistas e sem nenhum compromisso com os aspectos mais essenciais da doutrina cristã, tais como a necessidade de mortificar o ego, auto-negação etc. Esses cristãos, em vez de servos de Deus, tornam-se usuários de Deus.

Porém, é preciso reconhecer que essas igrejas têm uma virtude: estão lotadas de pessoas aflitas, em busca do auxílio divino para suas almas. A multidão que ali adentra é muito parecida com a que seguia Jesus nas estradas empoeiradas da Judeia e da Galileia. Já tive a oportunidade de visitar algumas reuniões nesses locais e pude notar que, do início ao fim, tudo é voltado para esse tipo de gente. A mensagem do evangelho ali pregada é distorcida; mas as reuniões mostram grande preocupação com os feridos, tanto nos cânticos quanto nas pregações e, principalmente, nas orações.

Certamente, isso é um convite à nossa reflexão. Precisamos estar atentos aos feridos. Não acho que precisemos de ajustes radicais, mas sutis. Se não nos preocuparmos com esse assunto, correremos o risco de que nossa igreja local se torne um lugar aonde as pessoas irão apenas quando estiverem felizes. Mas, quando o cinto apertar, correrão para outras pastagens. Na verdade, já vi isso acontecer...


Para reflexão nos Grupos de Vida

  1. Alguma vez você se sentiu deslocado na Igreja, como se todos estivesse felizes menos você?
  2. Você, ou alguém que você conhece, já procurou outras pastagens quando o cinto apertou? Por que?
  3. Em nosso texto, mencionamos muitas ocasiões em que, nas reuniões do templo, nos comportamos como se não houvesse ninguém aflito em nosso meio. Nas reuniões dos GVs isso também pode acontecer? Em caso afirmativo, como podemos evitar?

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