Humildade

imagem de Flávio Cardoso
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Vamos iniciar nossa meditação semanal com esses versículos:

... A este eu estimo: ao humilde e contrito de espírito, que treme diante da minha palavra. (Isaías 66:2b)

Pois assim diz o Alto e Sublime, que vive para sempre, e cujo nome é santo: `Habito num lugar alto e santo, mas habito também com o contrito e humilde de espírito, para dar novo ânimo ao espírito do humilde e novo alento ao coração do contrito'. (Isaías 57:15)

A humildade, por um lado, é um requisito indispensável para quem deseja aproximar-se de Deus. Como dizem as Escrituras, “Deus se opõe aos orgulhosos, mas concede graça aos humildes” (Tiago 4:6, 1 Pedro 5:5). Então, nossa jornada em direção ao coração de nosso Pai deve começar com a auto-humilhação. Caso contrário, a jornada será fracassada.

Por outro lado, a humildade é consequência inevitável de um encontro autêntico com Deus. Quando o homem realmente contempla a glória de Deus, percebe o tamanho de Deus, é tomado por uma sensação de insignificância.

Quero compartilhar com vocês a opinião de um adorador anônimo do século XIV acerca da humildade:

A humildade em si mesma nada mais é do que a verdadeira consciência de nós mesmos tal como somos. Não há dúvida: quem fosse capaz de se ver e sentir a si próprio tal como é, seria verdadeiramente humilde. E são duas as causas da humildade: uma é a impureza, miséria e fragilidade do ser humano, em que ele caiu pelo pecado (esta sempre a há de sentir em certo grau, enquanto permanecer nesta vida, por mais santo que seja); outra é a excelência de Deus em si mesmo e o seu amor superabundante. Vendo isso, toda a natureza treme, os sábios tornam-se loucos, e todos os anjos e santos ficam cegos. De tal maneira que, se a sabedoria da divindade não proporcionasse esta visão à medida da capacidade dos seres, no plano da natureza e da graça, eu seria incapaz de dizer o que lhes aconteceria.

Leu? Então leia de novo, lentamente. Esse texto é profundo e precisa ser ruminado.

O conceito de humildade

A humildade é “a verdadeira consciência de nós mesmos tal como somos”. Mas, como podemos adquirir essa consciência? Como podemos descobrir o que somos verdadeiramente? Se visitarmos uma livraria, encontremos inúmeros livros que ensinam sobre o auto-conhecimento. Será que eles podem nos ajudar nessa matéria?

Na verdade, o ser humano não tem condição de ter a exata visão de como ele é. Ele possui uma natureza pecaminosa que o torna totalmente alienado de Deus. Deus é luz. Os que estão separados dEle, estão na mais profunda treva. Então, nesse “quarto escuro” da ausência de Deus, de nada adianta ficarmos olhando para o espelho, tentando nos auto-conhecer, pois não enxergaremos o que realmente somos. No máximo, faremos uma avaliação baseados em nosso próprios padrões corrompidos.

Então, Deus é quem nos torna humildes. E ele o faz de duas formas.

A primeira causa da humildade

Como lemos no texto acima transcrito, a primeira causa da humildade “é a impureza, miséria e fragilidade do ser humano, em que ele caiu pelo pecado”. Ou seja, a causa primeira da humildade é a percepção de que somos maus. Quando percebemos o quanto somos impuros e maus, não conseguimos nos considerar melhores do que ninguém. Isso é humildade. Mas o homem só adquire essa percepção realista de si mesmo quando Deus o leva a ver. Deus ilumina a nossa consciência e nos capacita a enxergar nossa condição pecaminosa.

E essa percepção da própria pecaminosidade e do quanto somos dependentes da misericórdia e da graça divinas cresce à medida em que nos aproximamos mais e mais de Deus. É por isso que um homem da estatura espiritual do apóstolo Paulo disse:

Esta afirmação é fiel e digna de toda aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o pior. Mas, por isso mesmo alcancei misericórdia, para que em mim, o pior dos pecadores, Cristo Jesus demonstrasse toda a grandeza da sua paciência, usando-me como um exemplo para aqueles que nele haveriam de crer para a vida eterna. (1 Timóteo 1:15-16)

Orgulho, soberba, arrogância são frutos do auto-desconhecimento. Pessoas orgulhosas não são piores do que nós. Somos tão maus quanto elas. A única diferença é que Deus nos capacitou a enxergar nossa própria realidade. Oremos por elas, para que Deus também as capacite.

É interessante notar que um dia, quando estivermos na glória, livres de nossa natureza pecaminosa, a primeira causa da humildade desaparecerá. Mas a segunda causa continuará por toda a eternidade; explico a seguir.

A segunda causa da humildade

A segunda causa da humildade, como disse o autor do texto acima, é “a excelência de Deus em si mesmo e o seu amor superabundante”. Ou seja, a segunda causa da humildade é a percepção do quanto somos pequenos. Quando nos aproximamos de Deus, não apenas sentimos o quanto somos maus, mas também percebemos o quanto somos pequenos. Então, quanto maior a intimidade do homem com Deus, menor ele se sente; mais humilde ele se torna.

Na verdade, nosso Deus é tão grande, que Ele não nos permite perceber toda a sua grandeza. Ao contrário, conhecendo nossa insignificância, Ele se revela na medida de nossa capacidade. Foi isso que o autor do texto quis dizer com as palavras “De tal maneira que, se a sabedoria da divindade não proporcionasse esta visão à medida da capacidade dos seres, no plano da natureza e da graça, eu seria incapaz de dizer o que lhes aconteceria”.

Humildade em excesso?

Para finalizar essa meditação, gostaria de alertar para uma cilada que aprisiona muitos cristãos. Ao mesmo tempo em que reconhecemos nossa total pecaminosidade, precisamos confiar na graça de Deus. Caso contrário, nossa humildade nos afastará de Deus, em vez de nos aproximar dEle.

É o que nos ensina o texto abaixo, de Watchman Nee. A exemplo do texto anterior, é muito profundo e deve ser lido com calma, degustando cada palavra:

Foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus (Apocalipse 12:10)

Satanás é um assassino e um enganador, que tenta e ataca; contudo, hoje, ele é especialista em acusar. O céu reconhece este fato, e o mesmo deve fazer todo cristão. Ele nos acusa de dia e de noite, e suas acusações, que não são infundadas, estão voltadas para nossa consciência -- o ponto em que, na maioria das vezes, perdemos a força para combatê-las. Seu objetivo é levar-nos a pensar com desespero: “Sou um caso sem esperança! Deus não pode fazer nada comigo!”. A consciência é algo preciso; no entanto, repetir constantemente as palavras: “Não tenho jeito! Não tenho jeito!” não é a humildade cristã. Confessar nossos pecados é uma atitude saudável; no entanto, que nunca levemos a confissão ao ponto em que nossa pecaminosidade pareça para nós maior do que a obra de Cristo. O diabo sabe que não existe arma mais eficaz contra você e contra mim do que a criação dessa ilusão. Qual é a solução? Confessar-se culpado para Deus. Confesse para Ele: “Senhor, eu não tenho jeito!”, mas, em seguida, lembre-se do precioso sangue e, contemplando Sua glória, acrescente: “Mas, Senhor, permaneço em Ti!”

Aleluia! O reconhecimento do quanto somos pecadores não nos impede de nos aproximar do nosso Deus. Ao contrário, a humildade nos leva ao arrependimento e ao perdão. Entramos na sala do Trono sabedores de que não merecemos estar ali, mas confiados no sacrifício de Cristo. E podemos, com uma reverente ousadia, fixar os olhos no Altíssimo, nosso Papai, e dizer-lhe o quanto o amamos. É sobre isso que fala o autor da carta aos Hebreus:

“16  Esta é a aliança que farei com eles, depois daqueles dias, diz o Senhor. Porei as minhas leis em seus corações e as escreverei em suas mentes”; 17  e acrescenta: “Dos seus pecados e iniqüidades não me lembrarei mais”.
18  Onde essas coisas foram perdoadas, não há mais necessidade de sacrifício pelo pecado.
19  Portanto, irmãos, temos plena confiança para entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus, 20  por um novo e vivo caminho que ele nos abriu por meio do véu, isto é, do seu corpo.
21  Temos, pois, um grande sacerdote sobre a casa de Deus.
22  Sendo assim, aproximemo-nos de Deus com um coração sincero e com plena convicção de fé, tendo os corações aspergidos para nos purificar de uma consciência culpada e tendo os nossos corpos lavados com água pura.

(Hebreus 10:16-22)

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