Jesus: um péssimo evangelista? (parte 1)

imagem de Flávio Cardoso
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A meditação desta semana é inspirada no 6º capítulo do livro "O evangelho segundo Jesus", de John MacArthur, intitulado "Ele desafia uma pessoa muito interessada".

Leiamos Mateus 19:16-22

16  E eis que alguém, aproximando-se, lhe perguntou: Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna?
17  Respondeu-lhe Jesus: Por que me perguntas acerca do que é bom? Bom só existe um. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos.
18  E ele lhe perguntou: Quais? Respondeu Jesus: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho;
19  honra a teu pai e a tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo.
20  Replicou-lhe o jovem: Tudo isso tenho observado; que me falta ainda?
21  Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me.
22  Tendo, porém, o jovem ouvido esta palavra, retirou-se triste, por ser dono de muitas propriedades.

Há algumas preciosas lições a serem extraídas desse episódio. De cara, percebemos que o Senhor Jesus fez o jovem rico passar por um teste, no qual ele foi reprovado. Ele foi desafiado a escolher entre suas riquezas e Cristo. Como não estava disposto a abandonar tudo, não pôde tornar-se um discípulo de Cristo. Afinal, o próprio Jesus deixou claro em outro lugar: "Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo." (Lucas 14:33)

O que estava em jogo?

Um primeiro fato importante a ser notado: o que estava em jogo era a salvação do jovem. Para obter a vida eterna, ele deveria renunciar a tudo antes de iniciar sua caminhada cristã.

Note que isso é um pouco diferente do evangelismo contemporâneo, onde se prega que, para carimbar o passaporte para o céu, basta receber a Jesus no coração como salvador pessoal, ou só crer nos fatos do evangelho. Quanto à renúncia, negar-se a si mesmo etc., isso é tido como uma lição a ser aprendida posteriormente, num estágio mais avançado da caminhada cristã. E o resultado é o fracasso estarrecedor que se tem visto na vida de multidões que têm professado a fé em Cristo, sem que isso tenha um impacto real sobre seu comportamento. Quem pode contar quantos estão iludidos, pensando que são salvos, sem que na verdade o sejam?

O jovem tinha a motivação certa

O jovem sabia que, embora tivesse quase tudo, ainda não tinha a vida eterna. O texto original, no grego, parece revelar que ele, além de rico, talvez fosse um lider religioso judeu. Era um homem devoto, honesto, jovem, rico, proeminente, respeitado e influente. Porém, a sua religiosidade e riqueza não lhe davam a confiança, paz, alegria e esperança duradoura. Ele sentia a falta de segurança em seu coração. Buscou a Jesus por causa de uma necessidade que sentia profundamente, e que ele próprio identificara qual era: a vida eterna.

É perfeitamente lícito buscar a Jesus por causa dessa inquietação interior, dessa necessidade de ser participante do Reino onde habita Deus. Ninguém pode recriminar o jovem por sua motivação ao se dirigir ao Mestre.

O jovem teve a atitude correta

Muitos sabem que não têm a vida eterna mas não sentem a necessidade de obtê-la. Sabem que não conhecem a dimensão divina, porém isso não os perturba. Não era o caso desse jovem rico. Ele estava em desespero. Sem rodeios, despejou sua inquietação: "Mestre, que farei eu de bom para alcançar a vida eterna?"

Marcos 10:17 revela que ele correu para Jesus e se ajoelhou para fazer a pergunta, numa atitude de humildade. Não fez como Nicodemos, um líder religioso, que procurou Jesus na calada da noite. Ele teve muita coragem ao se expor diante da multidão, confessando que ainda não tinha a vida eterna. Desejava-a tanto que se arriscou a ficar desacreditado diante daqueles que já o viam como um gigante espiritual.

O que aconteceria, nos dias de hoje, se alguém como esse jovem, rico, inteligente e influente, ávido pela vida eterna, entrasse numa igreja e um evangelista lhe perguntasse: "Você gostaria de ter paz, alegria, felicidade e amor?" É óbvio que ele responderia afirmativamente. Ora, nenhum evangelista que pregue o evangelho contemporâneo deixaria essa alma escapar, como Jesus deixou. Acho que Jesus seria reprovado em qualquer curso moderno de evangelismo...

O jovem foi à fonte certa

Ele foi à própria fonte da vida eterna, ao único que poderia lhe dar o que ele realmente queria. Aliás, Jesus não é apenas a fonte: Ele é a própria vida eterna, como nos ensina o apóstolo João:

11  E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está no seu Filho. (...)
20  (...) Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.
(1 João 5:11,20)

O jovem fez a pergunta certa

Ao analisarem esse episódio, alguns censuram o jovem rico por ter perguntado: "Que farei eu de bom?". Dizem que, ao perguntar dessa forma, o jovem agia como os demais judeus, tentando alcançar a vida eterna por meio de seus próprios méritos, praticando boas obras, o que seria absurdo à luz da Bíblia, segundo a lição do apóstolo Paulo:

8  Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus;
9  não de obras, para que ninguém se glorie.
(Efésios 2:8-9)

Mas essa crítica é incorreta. O jovem era judeu; e os judeus dos dias de Cristo, ao contrário do que a maioria dos pastores e teólogos evangélicos imagina, NÃO buscavam a salvação por meio de boas obras. Aliás, eles não buscavam a salvação de maneira alguma. Isso é um terrível mal entendido inserido na teologia protestante por Martinho Lutero, e que só agora começa a ser revelado. Na verdade, eles já se consideravam salvos, por serem o povo escolhido por Deus. Na sua visão, para ser salvo, bastava ser judeu. Então, as "obras da lei" que eles eram obcecados em observar eram aquelas que os identificavam como judeus, separando-os de todos os outros povos, tais como a circuncisão, guarda do sábado e leis alimentares. Isso não tem nada a ver com se esforçar para ser "bonzinho", caridoso, bondoso, paciente etc., ao estilo dos kardecistas, por exemplo.

Além do mais, a pergunta do jovem é muito parecida com a que as multidões fizeram à Jesus, narrada em João 6:28-29. Porém, a resposta de Jesus, nesse outro episódio, foi muito diferente:

28  Dirigiram-se, pois, a ele, perguntando: Que faremos para realizar as obras de Deus?
29  Respondeu-lhes Jesus: A obra de Deus é esta: que creiais naquele que por ele foi enviado.

Para as multidões, Jesus disse que a obra a ser feita era crer nEle. Para o jovem, porém, a resposta foi: "guarde os mandamentos"! O Senhor nada falou sobre si mesmo ou sobre os fatos do evangelho. Não convidou o homem a crer. Não lhe pediu que fizesse uma decisão. Pelo contrário: erigiu uma barreira, que fez com que o interessado de repente parasse.

Por que Jesus fez isso? Se o rapaz veio com o motivo e atitude certos, à fonte certa e com a pergunta certa, por que Jesus simplesmente não lhe apontou o caminho da salvação?

A resposta completa você verá na próxima meditação. Mas, para não deixar a todos em suspense, vamos trazer apenas uma parte da resposta.

O jovem estava tomado pelo orgulho

Apesar de todas as suas qualidades, faltava ao jovem uma condição vital para alcançar a vida de Deus: o senso de sua própria pecaminosidade. Seu desejo de ser salvo baseava-se no vazio de sua alma, no desejo de se livrar da ansiedade e frustração e conseguir alegria, amor, paz e esperança. Bons desejos, todavia, não constituem motivo completo para que alguém se renda a Cristo.

Muito do evangelismo contemporâneo é lamentavelmente deficiente em confrontar as pessoas com a realidade do seu pecado pessoal. Os pregadores oferecem felicidade, alegria, satisfação e tantas outras coisas. Aos crentes de hoje se lhes ensina que tudo o que têm a fazer é descobrir quais as carências psicológicas das pessoas, e oferecer-lhes Jesus como panacéia para o problema, seja qual for. E é fácil conseguir-se "convertidos" pois as pessoas estão procurando solução rápida para as suas carências. Todavia, se isso for tudo o que fizermos, não estaremos realizando uma evangelização legítima.

O Senhor não ofereceu qualquer alívio para a necessidade sentida pelo jovem rico. Em vez disso, sua resposta confrontou o rapaz com o fato de que ele era, perante Deus, uma ofensa viva. Era fundamental que ele percebesse a sua pecaminosidade. O reconhecimento do pecado pessoal é um elemento necessário para que se compreenda a verdade da salvação. Não se pode vir a Jesus Cristo pedindo salvação tão-somente com base em carências psicológicas, ansiedade, falta de paz, sensação de desespero, falta de alegria, ou desejo de ser feliz. A salvação é para aqueles que odeiam o seu pecado e desejam dar as costas às coisas desta vida. É para pessoas que compreendem que têm vivido em rebeldia contra um Deus santo. É para os que querem dar meia volta e viver para a glória de Deus. A salvação não é um mero fenômeno psicológico.

O rapaz estava muito focado em suas necessidades interiores. Jesus tentou mudar-lhe o foco, levando-o de volta para Deus. "Bom, só existe um". Jesus o fez defrontar-se com o padrão divino, a Lei, não porque guardar a lei o faria merecer a vida eterna, mas para que ele pudesse perceber o quão longe ele estava de Deus.

"Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos". Diante dessa recomendação, qual seria a atitude certa? O jovem deveria ter dito algo como "Senhor, eu venho tentando. Mas guardar toda a Lei é impossível. O padrão de Deus é alto demais para mim. Que Deus tenha piedade de mim!". Se o rapaz tivesse algo semelhante a isso, teria sido salvo. Mas, ao contrário, ele ignorou e rejeitou a colocação do Mestre. Ele não tinha qualquer desejo de confessar seu próprio pecado.

Na evangelização, temos de tomar o pecador e medi-lo à luz da perfeita lei de Deus, a fim de que ele possa ver a sua deficiência. Um evangelho que trata tão-somente da necessidade humana, dos sentimentos humanos, dos problemas humanos, carece do verdadeiro equilíbrio. Essa é a razão porque há igrejas que estão cheias de pessoas cujas vidas continuam essencialmente inalteradas depois de uma suposta conversão. A maioria dessas pessoas, estou certo, não foram regeneradas, e estão tristemente mal orientadas.

Já escrevemos muito. Continuaremos o assunto na próxima semana.

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Jesus um péssimo evangelista

Como sempre, atual e brilhante!

Espero que os GVs aprofundem o tema.

Tenho pensado muito no fenômeno de evangelismo de massa das igrejas neo-pentencostais. Não sei o quanto de Deus tem nisso tudo, contudo penso que Deus usará isso tudo em benefício do Reino. Essas pessoas (pelo menos uma boa parte delas), uma vez que se saturem da teologia da prosperidade, buscarão alimento sólido e cura para suas feridas. Precisamos estar preparados para mostrar o amor e a cruz de Cristo. Penso que ainda temos muito a aprender e buscar misericórdia e sabedoria de Deus, pois os desafios são grandes. Temos nos deparado com pessoas, vindas dessas igrejas ou não, que tiveram todo tipo de envolvimento com ocultismo e os mais diversos tipos de perversão sexual. O processo de cura e libertação não é fácil. Mas, sem dúvida passa pela cruz.

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