Jesus: um péssimo evangelista? (parte 2)

imagem de Flávio Cardoso
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Continuemos nossa meditação anterior, acerca do episódio do jovem rico, narrado em Mateus 19:16-22. Na semana passada, mostramos que aquele rapaz tinha muitas qualidades. Aparentemente, seria bem fácil para ele alcançar a vida eterna. Afinal, o jovem:

  • tinha a motivação certa: ele sabia que, apesar de tudo o que possuía, ainda não tinha alcançado a vida de Deus, eterna;
  • teve a atitude correta: não se importou com o que outros iriam dizer dele. Reconheceu publicamente sua angústia interior.
  • foi à fonte certa: ninguém mais no mundo, além de Jesus Cristo, poderia mostrar-lhe o caminho para a vida eterna.
  • fez a pergunta certa: ele quis saber o que deveria fazer para alcançar a vida eterna. Outras pessoas também fizeram essa pergunta a Cristo, que lhes indicou um caminho bem mais fácil do que o indicado ao jovem: bastariam crer nAquele que foi enviado por Deus, ou seja, no próprio Jesus. Então, o problema não estava na pergunta do jovem.

Apesar de tudo isso, o Senhor Jesus aparentemente erigiu uma barreira que o rapaz não poderia transpor. Mas por que?

Começamos a responder essa pergunta na semana passada e hoje prosseguiremos com a resposta.

O jovem estava tomado pelo orgulho

Mostramos que o jovem estava tomado pelo orgulho. Ele era incapaz de reconhecer sua própria pecaminosidade. Ora, a Bíblia afirma claramente que ninguém é capaz de cumprir todos os mandamentos da Lei de Moisés, a qual estabelece um padrão de perfeição impossível de ser alcançado pelos homens sem o auxílio do Espírito Santo. Jesus tentou mostrar isso ao jovem, declarando que ele deveria observar os mandamentos. Ele, porém, não deu atenção, afirmando que já os observava.

Essa grave limitação do jovem rico o tornava uma ofensa viva a Deus, distanciando-o por completo da vida eterna, que ele tanto desejava. Jesus Cristo não veio ao mundo para livrar os homens da angústia e do vazio interior de suas almas. Ele veio para livrar os homens da sua condição pecaminosa, que os torna alienados de Deus. Quem não reconhece essa condição pecaminosa não tem acesso à salvação.

A Bíblia expõe claramente a necessidade de os homens reconhecerem sua própria pecaminosidade. Em sua carta aos Romanos, Paulo gasta três capítulos inteiros declarando a pecaminosidade do homem, antes mesmo de falar sobre o caminho da salvação. João 1:17 diz: "A Lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo". A Lei sempre precede a graça. É a nossa total incapacidade de cumpri-la que nos leva desesperados a Cristo, clamando por misericórdia e por graça. Misericórdia para não recebermos o que merecemos: a justa punição por nossa pecaminosidade. Graça para recebermos o que não merecemos: a salvação.

É preciso que reajustemos a nossa apresentação do evangelho. Não podemos negar o fato de que Deus odeia o pecado e castiga os pecadores com o tormento eterno. O próprio Jesus não ocultou de ninguém essa verdade:

8  Se a sua mão ou o seu pé o fizerem tropeçar, corte-os e jogue-os fora. É melhor entrar na vida mutilado ou aleijado do que, tendo as duas mãos ou os dois pés, ser lançado no fogo eterno.
9  E se o seu olho o fizer tropeçar, arranque-o e jogue-o fora. É melhor entrar na vida com um só olho do que, tendo os dois olhos, ser lançado no fogo do inferno.
MATEUS 18:8-9

Como podemos iniciar uma apresentação do evangelho dizendo às pessoas que estão a caminho do inferno que Deus tem um plano maravilhoso para as suas vidas? As Escrituras dizem:

11  Deus é um juiz justo, um Deus que manifesta cada dia o seu furor.
12  Se o homem não se arrepende, Deus afia a sua espada, arma o seu arco e o aponta,
13  prepara as suas armas mortais e faz de suas setas flechas flamejantes.
SALMOS 7:11-13

Um Deus justo, santo e puro não pode tolerar o mal. Ele não salvará aqueles que tentarem vir a Ele abrigando pecado no coração.

Não devemos pregar a graça a pessoas que não compreendem as implicações da lei de Deus. Não há sentido em se expor a graça a alguém que não conheça a exigência divina de que sejamos justos. A misericórdia não pode ser compreendida sem a compreensão correspondente da culpa pessoal. O evangelho da graça não pode ser pregado a quem não ouviu que Deus exige obediência e castiga a desobediência. As palavras de Jesus deveriam ter despertado no jovem rico a compreensão de que ele estava longe. Essa era a intenção. Mas, ele a rejeitou totalmente.

Não confessou sua culpa

Ao afirmar "Tudo isso tenho observado; que me falta ainda?" (Mt 19:20), o jovem revela a visão distorcida que ele tinha da Lei. Certamente, ele nunca havia matado, adulterado ou roubado. Exteriormente, ele era um perfeito cumpridor da Lei. Mas isso, para Deus, não é o bastante.

Jesus, desde o início de sua pregação, sempre mostrou que o padrão divino vai muito além das condutas exteriores. Deus observa o coração. Para Deus, o ódio é o equivalente moral do homicídio; a lascívia equivale ao adultério; odiar o inimigo é tão errado quanto odiar um vizinho. É no nosso interior, no nosso coração, que se manifesta a nossa real condição pecaminosa. Quando enxergamos a nossa real condição interior, percebemos o quanto estamos distantes de atender às exigências do padrão divino.

A salvação não é para aqueles que desejam uma melhoria em suas condições emocionais, mas para pecadores que vêm a Deus buscando perdão. A não ser que a pessoa tenha vergonha do seu pecado, não há salvação.

A narrativa desse episódio feita por Marcos nos diz: "Mas Jesus, fitando-o, o amou" (Marcos 10:21). Esta frase pinta um quadro tocante. O jovem era sincero e, sua busca espiritual, genuína. Ele realmente era uma pessoa religiosa. E Jesus o amou. Não era o seu desejo que alguém perecesse, mas que todos chegassem ao arrependimento. Todavia, isso era exatamente o que aquele homem não faria. O Senhor Jesus não aceita os pecadores sob as condições que eles mesmos impõem. Embora amasse aquele jovem, Jesus não concedeu a vida eterna que ele pedira.

Não quis submeter-se a Cristo

Finalmente, Jesus o submeteu ao último teste: "Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me". Isso desafiava a afirmação daquele homem de que guardava toda a Lei. Na verdade, o que Jesus lhe disse foi o seguinte: "Você diz que ama ao seu próximo como a si mesmo. Então, dê-lhe tudo o que tem. Se você realmente o ama como a si mesmo, não terá dificuldade em fazê-lo".

Jesus não está ensinando a salvação pela filantropia. Não está dizendo que é possível comprar a vida eterna com caridade. O que ele está dizendo é: "Você vai fazer o que eu quero que faça? Quem irá mandar na sua vida: você ou eu? A não ser que eu seja a autoridade máxima da sua vida, não haverá salvação para você!"

Será que temos, literalmente, que dar tudo o que possuímos para que nos tornemos cristãos? Não. Mas devemos estar prontos a abandonar tudo (Lucas 14:33), mostrando que não nos apegamos à coisa alguma que queira preceder ao Senhor. Temos de estar prontos a fazer seja o que for que Ele mandar. A exigência do Senhor com relação a esse homem tinha tão-somente o propósito de determinar se ele estava pronto a submeter-se à soberania de Cristo sobre a sua vida. As Escrituras não registram outra ocasião em que se exigiu de alguém que se desfizesse de tudo. O Senhor fez um ataque frontal ao ponto fraco daquele homem: o pecado da ganância, da indulgência e do materialismo. O jovem não se importava com os pobres. Ele amava suas propriedades, e o Senhor desafiou essa situação.

Conclusão

A salvação é pela graça, por meio da fé (Efésios 2:8-10). Este é o ensino constante e inequívoco das Escrituras. Mas as pessoas que têm essa fé genuína, salvadora, não se recusam a reconhecer a sua pecaminosidade pessoal. Elas sentem que ofenderam a santidade de Deus, e não rejeitam o senhorio de Cristo. Não se apegam às coisas deste mundo. A fé verdadeira não tem falta de nenhum desses atributos. A fé salvadora é um compromisso de se abandonar o pecado e seguir Jesus Cristo, custe o que custar. Jesus não salva quem não deseja vir a Ele sob essas condições.

Uma mensagem que ofereça mero alívio psicológico, mas que não exija abandono do pecado e aceitação do senhorio de Jesus Cristo, é um evangelho falso, que não salva. Para vir a Jesus, a pessoa precisa dizer "sim" a Ele. Isso significa que Jesus tem prioridade e torna-se o Senhor supremo de nossas vidas.

Se aprendemos alguma coisa da narração sobre o jovem rico é que, apesar de a salvação ser um abençoado dom de Deus, Cristo não a dará a quem estiver com as mãos cheias de outras coisas. Quem não está disposto a abandonar o pecado, possessões, religião falsa, ou egoísmo, descobrirá que não pode voltar-se a Cristo pela fé.


Temas para debate

  1. Discutam sobre as semelhanças e diferenças entre as histórias do jovem rico, que não alcançou a salvação, e o publicano Zaqueu, narrada em Lucas 19:2-10.
  2. À luz deste texto, como você avalia a maneira que você tem utilizado para falar de Jesus às pessoas? Qual seria a estratégia correta para anunciar a mensagem de salvação?

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