Misericordiosos

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"Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia." (Mateus 5:7)

Deus nos trata com duas mãos:

Graça:
que nos dá tudo que não merecemos, como salvação, perdão, vida.
Misericórdia:
que não nos dá o que mereçemos, ou seja, juízo, condenação, morte.

Deus não nos trata segundo os nossos pecados. Ele é compassivo e piedoso, lento para a cólera, longânimo e rico em misericórdia (Salmo 103:8-10). As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos porque as suas misericórdia não têm fim, elas se renovam a cada manhã (Lamentações 3:22).

Misericórdia é a compaixão pelas pessoas que sofrem, passam necessidade. A misericórdia trata da dor, miséria e desespero que resultam do pecado. Concede alívio, traz cura e ajuda.

Jesus não especificou quem seria o alvo dessa misericórdia. Não falou de um grupo seleto digno de ser tratado com tão grande dádiva, até mesmo porque a misericórdia, assim como o perdão, não é dada a quem a merece, mas a quem dela necessita. Então, não há uma pessoa sequer que não seja alvo desse favor.

Deus é misericordioso e dá provas disso continuamente; os cidadãos do seu reino devem fazer o mesmo.

O mundo não age dessa forma. Ao contrário, repele o necessitado e aflito. Não tem motivos para oferecer perdão, já que é doce o sabor da vingança, e o perdão, se comparado à vingança, é sem graça.

Mas os que oferecem misericórdia encontrarão misericórdia. Não que nossa atitude de misericórdia nos faça merecedores de misericórdia, ou merecedores de perdão quando somos perdoadores. A questão é que existe um ciclo infalível: nada prova mais claramente que fomos perdoados do que a nossa prontidão em perdoar.

Quando entendo que sou pecador e me arrependo, inevitavelmente eu entendo também a situação do outro, que ele é tão indigno da misericórdia quanto eu e ao mesmo tempo tão necessitado dela quanto eu. E a consciência de que fomos perdoados nos impulsiona ao perdão. A misericórdia que nos alcançou não pode ter como destino a nossa vida. Tem que fluir através de nós e alcançar quem passa pelo nosso caminho.

Perdoar e ser perdoado, exercer misericórdia e recebê-la acabam indissoluvelmente juntos. É isso que Jesus explicou na Parábola do Credor Incompassivo (Mateus 18:23-35).

A parábola fala de dois devedores que tiveram que acertar contas com seus credores. O primeiro devia ao rei uma quantia de dez mil talentos, quantia referente a quase 1 bilhão de reais. Uma quantia muito alta que ele não poderia pagar. A única saída era vender tudo o que ele tinha, inclusive seus filhos, esposa e ele mesmo. Seriam escravos e trabalhariam em pagamento da dívida. Mas ele não se conformou, prostrado reverenciava o rei e pedia misericórdia, que seu rei fosse generoso, desse mais um prazo ou um abatimento, pois ele tinha intenção de pagar. O rei, movido de grande compaixão dispensou aquele devedor perdoando-lhe a dívida. Aquela dívida enorme, impagável.

O segundo devedor era um caso fácil de se resolver, diante do primeiro que devia 60 milhões de denários, devia apenas 100 denários. E para sua sorte devia esse pequeno valor àquele servo que tinha sido perdoado de tão grande dívida. Mas, de modo surpreendente, o homem que fora perdoado, ao encontrar o seu devedor, lançou mão dele e o sufocava exigindo que lhe pagasse. E apesar da súplica do conservo ele foi preso e lá ficaria até que pagasse a dívida.

O caso chegou aos ouvidos do rei, que chamou o servo que não perdoou e lhe disse: "Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida porque me suplicaste. Não devias tu igualmente compadecer-te do teu companheiro, como também eu me compadeci de ti?" (Mateus 18:33). O rei entregou aquele homem aos carrascos para sofrer até que a dívida fosse paga. Vale salientar que ele não tinha jamais condições de saldar aquela dívida.

E Jesus termina a parábola dizendo: "Assim também vos fará meu Pai celeste, se de coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas" (Mateus 18:35).

Algumas observações precisam ser feitas:

  • A dívida do servo para com o rei era gigantesca, enquanto a do conservo para com seu companheiro era muito pequena. A nossa dívida com Deus é impagável!
  • "E a vós outros que estáveis mortos nos vossos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-nos todos os nossos delitos, havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário, tirou-o do meio de nós, cravando-o na cruz. E, tendo despojado os principados e as potestade, os expôs publicamente ao desprezo, e deles triunfou na cruz." (Colossenses 2:13-15);

  • O primeiro servo foi perdoado a partir de uma súplica sincera e não por ter qualquer atitude que realçasse suas virtudes.
  • Ele recebeu muito mais do que pediu.
  • Por não perdoar uma dívida de 100 denários ficaria preso até que pagasse 10.000 talentos.

Quando deixamos de oferecer compaixão ficamos entregues à tortura. Torturados pela ira, sufocados pela amargura e consumidos pela vingança. Essa é a punição daquele que experimenta a graça de Deus, mas se recusa a compatilhá-la.

Infelizmente é muito fácil nos identificarmos com o primeiro servo. Quem de nós não compreende facilmente o motivo de Jonas ter fugido para Társis? Compreendemos também a sua indignação por Deus ter ouvido o clamor de um povo conhecido por sua crueldade, mas que agora estava arrependido.

Somos na maioria das vezes duros e implacáveis com os pecados do nosso próximo por não fazermos uma avaliação devida do quanto somos perdoados por Deus. Isso exige uma avaliação honesta do quanto somos pecadores. É por isso que Jesus nos ensina a tirar a trave do nosso olho antes de tirar o cisco do olho do nosso irmão. Achar defeitos nos outros é muito fácil, difícil é olhar para nós mesmos e oferecer misericórdia na medida em que gostaríamos de recebê-la quando fracassamos.

O Sermão do Monte nos propõe diversos princípios que vão de encontro à nossa natureza, mas que suscitam em nós um interior conforme a natureza de Deus demonstrada em Jesus.

Quem oferece misericórdia e perdão é longânimo e compassivo e será abençoado com a longanimidadde de Deus.

Alguém disse que "O perdoador será sempre alguém quebrantado, que não se acha superior aos outros e, por isso, não é implacável com os erros que outros cometem". Quando se perdoa, um nível mais profundo de intimidade é alcançado por meio de uma aceitação mútua, sincera, sem máscaras. Isso se manifesta em comunhão, ao ponto de podermos lavar os pés uns dos outros.

Perdoar é um grande desafio que chega a ser impossível para o homem natural. Mas para nós, que tivemos uma nova chance por meio do perdão de Deus, perdoar é um princípio de vida que não pode ser negligenciado. Com certeza, nada disso se opera em nós por força ou violência, mas pelo Espírito Santo de Deus. O que nos cabe é caminhar na direção do agir de Deus, ouvir seu ensinamento, desejar cumprir sua vontade, orar nesse sentido e praticar crendo que Deus é quem nos capacita.

O assunto é sério. Na oração modelo que Jesus nos ensinou diz assim: "... e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores... Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas" (Mateus 6:12,14-15).

Jesus condiciona o perdão que Deus nos dá ao perdão que damos ao nosso semelhante. Quando não perdoamos, quebramos um princípio do Reino de Deus, do qual só fazemos parte por causa do perdão. Esse reino é pra mim e pra você, não porque merecemos, ou porque não cometemos esse ou aquele pecado, mas porque o perdão nos alcançou. Só o perdão é solução para nós.

Não perdoar é fazer do próprio coração uma masmorra onde se tortura o devedor, apesar de ele mesmo, muitas vezes, nem tomar conhecimento disso. Mas o ressentido vive ali naquele ambiente sombrio, regado pelas lembranças dolorosas que se faz questão de trazer à memória. O ressentimento espesso e profundo impede seus passos. Não há saltos alegres pelos prados. Não há escalada saudável de montanhas. Apenas um dia após outro, andando na tempestade, de ombros curvados contra o vento, e os pés se arrastando pelas cinzas que a vida produziu. O ressentimento é a decisão deliberada de nutrir a ofensa até que ela se torne um furioso e amargo rancor.
Como a droga que vicia e pode matar, a raiva também pode matar o irado. O ressentimento crônico está associado a altos níveis de colesterol, hipertensão e outras condições patológicas. Pode matar emocionalmente, no sentido de aumentar o nível de ansiedade e levar à depressão. Alguém já disse que:

"O ódio é o cão raivoso que se volta contra o próprio dono.

A vingança é o fogo incontrolável que consome o incendiário.

A amargura é o laço que prende o caçador.

E a misericórdia é a escolha que pode tornar todos livres."

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