Alguns cuidados necessários

imagem de Flávio Cardoso
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Temos estudado acerca da Palavra de Deus. Primeiramente, compreendemos que a crença na sua infalibilidade é a base da nossa fé. Em seguida, aprendemos algumas das muitas verdades que Ela revela a nosso respeito. Também vimos que saber as verdades contidas na Bíblia é o primeiro passo essencial para o sucesso de nossa caminhada cristã. Mas, logo depois do primeiro passo, vêm os demais. Não basta saber: é preciso crer e viver o que a Palavra nos ensina. Quanto mais vivemos, mas compreendemos.

Numa situação ideal, todos os cristãos conheceriam adequadamente a Bíblia e viveriam em comunhão uns com os outros e com o Espírito Santo. Nesse cenário maravilhoso, os problemas seriam facilmente resolvidos e a igreja avançaria a passos largos no terreno do inimigo. Porém, a realidade das igrejas nem sempre é essa. Quando observamos muitas congregações, é fácil encontrarmos igrejas divididas, crentes confusos, que não compreendem o que é a vida cristã, e a proliferação de doutrinas estranhas à Bíblia, que se alastram como epidemia. Nesta lição, aprenderemos algumas dicas úteis para evitarmos que tais infelicidades acometam nossos Grupo de Vidas.

As escrituras e o poder de Deus

Ouve uma ocasião em que os judeus religiosos, do partido dos saduceus, tentaram argumentar com Jesus, defendendo a sua crença de que os mortos não ressucitam. Jesus lhes disse:


"Vocês estão enganados!, pois não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus!" (Marcos 12:24)

Note: Jesus os criticou por não conhecerem as Escrituras e nem o poder de Deus. O conhecimento das escrituras vem pelo estudo e meditação na Bíblia. O conhecimento do poder de Deus vem pela comunhão, adoração, oração, enfim, pela intimidade com o Eterno. O que acontece se procurarmos apenas as Escrituras e negligenciarmos o poder de Deus? Ou se buscarmos um contato imediato com o Altíssimo, mas negligenciarmos os princípios do mundo espiritual apresentados na Bíblia? Em ambos os casos, erraremos!

Em nosso meio, é fácil identificarmos ambas as tendências ao erro. Há certos círculos de cristãos onde todos estão sempre prontos a participar de vigílias, reuniões de oração, em busca de experiências sobrenaturais, mas não têm tanta disposição para se debruçarem sobre as Escrituras. Querem sentir Deus a qualquer custo. Tendem a se tornar crentes governados pelo "sentir", quando o correto seria serem governados pelo "crer". Para tais, os cultos só são bons quando há tremores, risos, profecias, arrebatamentos. De fato, muitos de nós já sentimos essas manifestações extraordinárias da presença real de Deus e sabemos como são prazerosas. Deus concede tais experiências a nós, nos momentos em que lhe apraz, para crescimento de nossa fé. Entretanto, pergunto: a Bíblia nos ordena, recomenda ou, ao menos, sugere buscar tais êxtases? Não que eu me lembre. Por outro lado, por que queremos sentir Deus: para a glória dEle, ou para nosso próprio prazer? Quando Deus nos quiser mandar tais experiências, serão bem-vindas. Mas nós não devemos buscá-las. Devemos buscá-lo! "Caçadores de Deus", sim; caçadores de êxtases, não!

Também há outras rodas de cristãos que reduzem o cristianismo a uma mera experiência intelectual, sem nenhuma manifestação do divino. Formulam declarações de fé em busca da perfeição teológica. Mas, muitas vezes, não conhecem o Deus de quem tanto falam. Nunca sentiram seu mover, sua presença, nem ouviram sua doce voz. Sua vida torna-se totalmente diferente da vida dos santos do passado, descritos na Bíblia. Crêem na doutrina dos apóstolos, mas não vivem como eles. Por desprezarem os cristãos místicos (no bom sentido), acabam desenvolvendo uma enorme resistência ao sobrenatural. Por fim, não conseguem mais crer que tais experiências sejam possíveis de se vivenciar nos dias atuais. Seu evangelho se torna praticamente estéril. Sua pregação, ineficaz, é bem diferente da narrada em Atos dos Apóstolos (Atos 5:12-16) e, por isso, tais igrejas têm grande dificuldade em crescer. Para se defender, alegam que o importante é crescer em qualidade. Mas a igreja primitiva também crescia em quantidade.

Então, a dica é fugir dos extremos e caminhar no centro: estudo da Palavra e comunhão viva com nosso Amado, em oração e adoração.

Cuidado com as tradições

Boa parte dos erros cometidos na Igreja resultam da sacralização de tradições meramente humanas. Os crentes tendem a repetir o erro dos fariseus. Jesus lhes advertiu:


"Assim, vocês anulam a palavra de Deus, por meio da tradição que vocês mesmos transmitiram. E fazem muitas coisas como essa." (Marcos 7:13)

Sagrado é o que a Bíblia considera sagrado; e só! Todo o resto é tradição humana. Muitas dessas tradições são inofensivas e não precisam ser banidas, desde que os cristãos entendam que não são obrigatórias. Discuta com os irmãos do Grupo de Vida se as práticas abaixo são tradições meramente humanas ou bíblicas

  • celebrações de Natal (cantatas, árvores de natal, etc.);
  • pregação do evangelho;
  • liturgia do culto: leitura, oração, louvor, avisos, pregação, bênção apostólica;
  • imposição de mãos sobre os enfermos;
  • diáconos usarem paletó e gravata;
  • oração feita na segunda pessoa (tu, vós).

Quando consideramos sagrada uma prática que não está descrita na Bíblia, podemos causar divisão no Corpo de Cristo. Afinal, outros irmãos podem não considerá-la sagrada e, portanto, abandoná-la, provocando a nossa reprovação. Mas, nesse caso, os errados seremos nós! Então, fiquemos alertas para evitar esse tipo de erro.

A verdade tem duas asas

Como disse A. W. Tozer, um notável pregador do século XX, no seu livro Esse cristão incrível (Editora Mundo Cristão, cap. 17):

"A VERDADE é como um pássaro: não pode voar com uma asa só. Contudo, estamos sempre tentando alçar vôo batendo uma asa furiosamente, com a outra dobrada com cuidado e oculta.

... a verdade completa não está em 'Está escrito', mas em 'Está escrito' e 'Também está escrito'. O segundo texto deve ser defrontado com o primeiro para estabelecer equilíbrio como a asa direita precisa trabalhar junto com a esquerda para dar equilíbrio ao pássaro e capacitá-lo a voar.

Muitas divisões doutrinárias entre as igrejas são resultado de uma cega e obstinada insistência em que a verdade tem apenas uma asa. Cada parte se apega tenazmente a um texto, recusando-se com horror a reconhecer a validade do outro. Este é um erro entre as igrejas, mas é uma verdadeira tragédia quando ele penetra o coração dos cristãos individuais e começa a afetar-lhes a vida devota."

Vejamos um exemplo de como isso ocorre. Um grupo de cristãos começa a enfatizar o fato de que Deus ama a prosperidade de seus filhos (Salmo 35:27), que tudo quanto o justo fizer prosperará (Salmo 1:3), que bem algum faltará aos que andam na retidão (Salmo 34:9-10) etc. Logo, qualquer infortúnio que acometa o crente passa a ser encarado como uma atividade do Diabo, contra a qual se deva lutar, ou como resultado de pecado (brecha) na vida do crente. O crente sofredor passa a se sentir um fracassado na vida espiritual, um crente de segunda categoria.

Afinal, que erro esses cristãos cometeram? Apegaram-se demais a algumas verdades bíblicas e se esqueceram das outras. Viraram os olhos, por exemplo, para os sofrimentos que perseguiram Jó, para as dificuldades, privações e martírios que afligiram os apóstolos e da vida simples vivida pelo próprio Jesus encarnado. Esse tipo de desequilíbrio produz extrema infelicidade e paralisia nos cristãos. Não podemos desprezar os textos que não entendemos. Devemos crer que os textos da Bíblia nunca se contradizem: sempre se completam. E precisamos buscar sabedoria do Eterno, em oração, com humildade, para unir as duas asas e conseguir alçar o vôo do equilíbrio.

Certas revelações devem ser guardadas

Quando era adolescente, admirava muito um evangelista que era poderosamente usado por Deus na pregação e na expulsão de demônios. Em razão da sua intimidade com Deus, o Pai lhe revelara muitas coisas, na Palavra, acerca do mundo espiritual. De vez em quando ele deixava escapar um pouquinho aqui e outro ali. Eu ficava curioso, vasculhava os textos bíblicos que ele citava, mas não achava nada. Até que um dia não agüentei: fui na casa dele e pedi que me ensinasse tudo o que sabia sobre o assunto. Depois de muito me enrolar, disse: "rapaz, você está querendo mexer com bomba atômica!" Fiquei frustrado.

Hoje, entretanto, entendo a relutância daquele servo de Deus. Há certas coisas que o Pai nos ensina, mas não nos autoriza a falar aos outros. Foi o que aconteceu com Paulo:


"Conheço um homem em Cristo que há catorze anos foi arrebatado ao terceiro céu. ... foi arrebatado ao paraíso e ouviu coisas indizíveis, coisas que ao homem não é permitido falar." (II Coríntios 12:2-4)

Então, não se apresse a compartilhar tudo o que Deus lhe diz. Talvez, nem todos estejam preparados para ouvir. Não se pode oferecer feijoada espiritual a quem ainda precisa de leite. Os que se apressam a revelar seus pontos de vista são tolos (Provérbios 18:2) e, muitas vezes, buscam apenas a admiração dos homens. Mas o nosso propósito maior deve ser o de não confundir ou escandalizar o irmão. O progresso do irmão é mais importante do que nosso conhecimento.


"O conhecimento traz orgulho, mas o amor edifica. Quem pensa conhecer alguma coisa, ainda não conhece como deveria. Mas quem ama a Deus, este é conhecido por Deus"
(I Coríntios 8:1b-2)

"Aceitem o que é fraco na fé, sem discutir assuntos controvertidos.

... Portanto, deixemos de julgar uns aos outros. Em vez disso, façamos o propósito de não colocar pedra no caminho do irmão.

... Assim, seja qual for o seu modo de crer a respeito destas coisas, que isso permaneça entre você e Deus. Feliz é o homem que não se condena naquilo que aprova." (Romanos 14:1, 13, 22)

Evidentemente, os erros doutrinários podem ocorrer e precisam ser corrigidos, mas sempre com amor e mansidão. Se atentarmos para as recomendações desta lição, teremos boas chances de ter um Grupo de Vida saudável.

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