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"E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações..."
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imagem de Flávio Cardoso

Paz como um rio

Este texto para reflexão é baseado em duas lembranças que marcaram minha vida. A primeira era uma canção bastante simples e repetitiva que cantava na igreja quando criança:

Eu tenho paz como um rio,
sim paz como um rio,
eu tenho paz como um rio em minh'alma

Eu tenho o gozo de uma fonte
sim gozo de uma fonte
eu tenho gozo de uma fonte em minh'alma"

Nós sempre cantamos acerca dessa paz maravilhosa que o Senhor nos dá, como Ele mesmo assegura:

Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize. (João 14:27)

Mas percebo que cantar sobre essa paz, recitar versículos acerca dela e afirmar nossa fé nela é bem mais fácil, em algumas ocasiões, do que efetivamente desfrutar dela. Há muitos de nós que cantam sobre a paz mas, no seu interior, estão tomados pela angústia, ansiedade, medo etc. Cadê a paz que tanto cantam?

Essa pergunta me leva à segunda lembrança que inspira esse texto: a do meu saudoso avô, nos últimos anos de sua vida.

Aquele velho pastor passou seus últimos 10 anos completamente cego, por causa de coágulos que se formaram em suas retinas. Durante esse período, sempre acalentou a esperança de ser milagrosamente curado, mas a cura nunca veio. Passava quase o dia inteiro sentado na poltrona de sua sala, meditando nas Escrituras que estavam gravadas em seu coração, após anos e anos de leitura da Bíblia. Por vezes, cantarolava um hino. Ele, que era conhecido como "poeta dos púpitos", gostava muito de falar sobre a beleza dos pássaros, das flores e de tudo mais que ele sempre apreciara, mas que agora já não podia contemplar. Isso cortava meu coração. E assim foi, até que faleceu aos 93 anos.

Como ele morava no Rio de Janeiro, eu não o encontrava muito. Mas sempre que eu o visitava ou telefonava, ouvia suas doces palavras que diziam: "A paz que sinto é como a das profundezas de um lago. Na superfície, pode haver ventanias, tempestades e toda sorte de perturbação. Mas nas profundezas, tudo permanece absolutamente sereno".

Esse é o exemplo de alguém que aprendeu algo mais do que simplesmente cantar sobre a paz que Cristo nos dá. Ele aprendeu a encontrá-la, mesmo em meio a grandes lutas.

Encontrar a paz de Cristo é, na realidade, encontrar o próprio Cristo dentro de nós. Nós transcrevemos, acima, o verso de João 14:27, em que Ele afirmou que nos deixava a sua paz. Mas, se você ler apenas 4 versos antes, compreenderá a razão dessa paz:

Jesus respondeu, e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada. (João 14:23)

É isso: a paz que excede a todo entendimento decorre da Sua presença em nós. Quando conseguimos experimentar essa Presença, desfrutamos da paz. Mas não adianta apenas entender e crer que Deus mora em nós. É preciso experimentá-lo, contemplá-lo reinando absoluto, sobre toda a criação, assentado no Trono do nosso coração.

No dia a dia, é fácil esquecermos dAquele que vive em nós. As demandas desta vida nos distraem, levando-nos a esquecer da verdade mais importante do Universo: Nosso Senhor vive em nós.

Na verdade, nossa tendência ao esquecimento de Deus é muito mais profunda do que apenas distração. Tem a ver com nossa natureza caída, corrompida pelo pecado. Por mais que tentemos permanecer nas "profundezas do lago", na presença magnífica de Deus, sempre voltamos à superfície turbulenta. Não há nada que possamos fazer, enquanto presos à nossa carne, para mudar definitivamente essa situação. Se algum pregador fizer um apelo do tipo: "quem quiser permanecer o tempo todo consciente da presença de Deus venha a frente para receber oração", não vá! Não há nenhuma oração que possa curar nossa natureza decaída.

Então, já que é impossível permanecermos o tempo todo ligados na presença de Deus, o que devemos fazer?

Ora, amado irmão, se você não pode ficar no "fundo do lago" o tempo todo, devido à sua natureza caída, que importa? Assim que perceber que está na superfície, volte imediatamente ao fundo. Isso pode acontecer enquanto ora trancado no quarto, enquanto dirige seu carro, enquanto trabalha. Lembrou-se de Deus? Ótimo: você só precisa de alguns segundos para se reconectar com Ele, agradecendo por ser templo dEle, participante da natureza dEle, eternamente ligado a Ele.

Frequente a Sala do Trono do Altíssimo tanto quanto puder. Medite nas Escrituras, cante louvores, fale em línguas, pratique a adoração espiritual, também chamada de contemplação. Essas são as atividades que nos levam ao "fundo do lago", à Presença. Quanto mais tempo investimos nisso, mais facilmente nos lembramos dEle e mais rapidamente nos reconectamos ao Senhor.

Esse é o segredo daqueles que parecem jamais deixar de experimentar a "paz que excede todo entendimento". Não é que eles nunca venham "à superfície turbulenta". É que passam pouco tempo nela, voltando rapidamente para o fundo; para o esconderijo do Altíssimo. Como estão acostumados à Presença de Deus, eles rapidamente percebem que se desconectaram e logo se reconectam.

Diferentemente, os irmãos que raramente frequentam a "Sala do Trono", ficam na superfície do lago e não percebem que há algo errado. Em vez de voltar às profundezas da comunhão com Deus, ficam tentando entender porque há tanta turbulência em suas vidas, tanta ventania, tanta agonia.

Encerro esta reflexão com um texto escrito por um adorador anônimo do século XIV, acerca da contemplação. Embora ele fale especificamente da pratica contemplativa, aplica-se perfeitamente à nossa vida como um todo.

Por conseguinte, presta atenção ao trabalho de que falo [oração contemplativa] e ao seu modo de atuar maravilhoso no interior da alma. De fato, concebido corretamente, ele não passa de um impulso [de amor] súbito e como que imprevisto, que salta de repente para Deus, como uma centelha do carvão. E é maravilhoso observar a quantidade de impulsos [de amor] que se podem operar numa só hora, na alma que se dispõe para tal trabalho. Numa única moção destas poderá esquecer todas as coisas criadas, súbita e perfeitamente. Mas depressa, depois de cada impulso, por causa da corrupção da carne, recai novamente em algum pensamento ou na lembrança de qualquer ação feita ou por fazer. Que importa, no entanto? Logo de novo se ergue, tão subitamente quanto antes.

Extraído de "A Nuvem do Não-Saber".


Perguntas para reflexão

  1. Você tem o hábito de adorar a Deus sozinho, ou apenas O adora nas reuniões da Igreja? Com que frequência você vai "ao fundo do lago"?
  2. O texto mostra dois tipos de cristão: o que parece viver sempre em paz inabalável, e o que parece que só consegue falar dessa paz, mas raramente a experimenta. Qual a explicação para isso?
  3. Que atividades devemos praticar para nos tornarmos frequentadores assíduos da Sala do Trono?
  4. Como as pessoas do Grupo de Vida podem se ajudar, para que todos pratiquem as atividades da pergunta anterior?

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