O Reino de Deus já chegou?

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Temos assistido, nas últimas semanas, a uma investida promovida por setores minoritários da sociedade brasileira, em prol do homossexualismo. É o que vemos com o debate em torno do Projeto de Lei Complementar nº 122/2006 e do chamado "Kit Gay", que seria distribuído nas escolas.

A quase totalidade dos cristãos ficou estarrecida com a ousadia dessa investida, identificando-a claramente como algo maligno. Afinal, o objetivo escancaradamente revelado do PLC 122/06 e do "Kit Gay" é não apenas conceder certos direitos aos homossexuais, mas também estimular o comportamento homossexual. Isso é totalmente inaceitável para os cristãos, pois a prática do homossexualismo é claramente condenada na Bíblia: "Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus" (1 Coríntios 6:10).

Mas o que me chamou a atenção foram duas diferentes reações de cristãos ante tal acontecimento, e é sobre isso a nossa meditação.

Em geral, os cristãos, sempre que confrontados com o crescimento da maldade no mundo, tendem a reagir de duas formas diferentes, dependendo de como eles enxergam o mundo. É curioso notar que existem duas formas TOTALMENTE DIFERENTES de enxergar o mundo, embora ambas sejam cristãs. Para notar essas duas diferentes cosmovisões cristãs, leiam os dois textos abaixo:


TEXTO 1 (extraído da internet)

Um dos seguidores deste CRISTO, o apóstolo Pedro, escreveu: -"Queridos amigos, lembrem-se de que vocês são estrangeiros de passagem por este mundo. Peço, portanto, que evitem as paixões carnais que estão sempre em guerra contra a alma. A conduta de vocês entre os incrédulos deve ser boa, para que, quando eles os acusarem de malfeitores, tenham de reconhecer as boas ações de vocês. E assim eles louvarão a DEUS no Dia da Sua vinda." (I Pedro 2:11-12/BLH)

Portanto, como cristãos, sabemos que somos visitantes estrangeiros que estamos passando algum tempo em algum país, mas não vamos nos radicar para sempre nele.

Precisamos ser lembrados que a nossa pátria celestial nos espera. E lembrados disto, não podemos ser dominados pelos valores deste país estrangeiro onde estamos apenas disputando uma olimpíada de curta duração.

Como é fácil a gente se esquecer de nossa pátria e super valorizar aquela na qual vamos viver apenas um curto espaço de tempo.

Quando aprendemos a valorizar nosso "chão definitivo", então sentimos saudades dele e preservamos seus costumes.

É isto que precisamos fazer: - Lembrar que somos cidadãos do Reino de DEUS e é para lá que devemos desejar retornar um dia, se cremos em JESUS CRISTO. Por isso, ao terminar o jogo das olimpíadas da vida, estejamos preparados para voltar e com a cabeça erguida, por havermos competido com lealdade, com justiça e com o amor proveniente da fé. Que possamos voltar felizes, na certeza de que CRISTO, nos treinou convenientemente para atuarmos como 'peregrinos, forasteiros' neste mundo, que não é nossa pátria definitiva.

TEXTO 2 (uma parábola contada por Atanásio, bispo de Alexandria, no séc. IV DC)

Era uma vez um rei bondoso que tinha um grande reino. Numa das cidades desse reino, algumas pessoas se aproveitaram da liberdade dada pelo rei e começaram a fazer o que era mau. Temendo que o rei as punisse, passaram a odiá-lo. As pessoas rebeldes convenceram as demais que todos se dariam melhor sem o monarca. Assim, a cidade declarou sua independência do reino. Todos passaram a fazer o que queriam e a desordem imperou na cidade. Havia violência, ódio, mentira, opressão, assassinatos, estupros, escravidão e temor.

Ao invés de levar seus exércitos para reconquistar a cidade à força, o que causaria mortes e revolta, o rei fez algo surpreendente. Tirou suas vestes e, disfarçado como uma pessoa humilde, passou a morar na cidade, onde consertava vasos e móveis quebrados. Sempre que as pessoas vinham até ele, sua bondade, ternura, justiça e respeito eram tão impactantes que elas retardavam suas partidas só para ficarem em sua presença. Contavam a ele seus temores e questionamentos, pedindo seus conselhos. Ele dizia a elas que os rebeldes as haviam enganado e que o verdadeiro rei tinha uma melhor maneira de viver, a qual ele exemplificava e ensinava. Um a um, e depois de dois a dois, e então às centenas, as pessoas começaram a ter confiança nele e viver de seu modo.

O movimento cresceu até que toda a cidade lamentou sua rebelião e quis voltar a ser parte do reino novamente. Porém, temiam aproximar-se do rei, achando que ele iria puni-las. Então, o rei revelou sua identidade e contou que as amava. Recebeu-as de braços abertos em seu reino. Por meio de sua presença calma e sutil, ele conseguiu reaver a cidade, o que jamais conseguiria com a força bruta.


Percebem a diferença no enfoque de ambos os textos? Qual dos dois enfoques é o correto? Qual é o mais bíblico? Qual é o mais cristão?

O autor do texto 1, claramente considera que o destino final dos cristãos é fora desta Terra, num lugar ao qual ele chama de "Céu". A vida do cristão, na visão desse autor, é uma grande espera pelo retorno ao seu lar extraterrestre.

Já o autor do texto 2, bem mais antigo, enxergava o mundo de uma forma diferente. Pare ele, Deus não está interessado em destruir este mundo e levar os seus santos para um outro lugar. Ao contrário: Deus deseja trazer a sua cura para este mundo.

Quando estudamos a história da Igreja Cristã, desde as origens até nossos dias, percebemos que os fieis costumam oscilar entre essas duas visões. Quando um grupo de cristãos é exposto a perseguições e dificuldades, tende a abraçar uma visão mais apocalíptica do mundo, mais parecida com a do Texto 1, que considera que o Reino de Deus ainda não chegou: vai chegar só no futuro e, de preferência, não será aqui. Note as palavras do autor do texto 1: "somos cidadãos do Reino de DEUS e é para lá que devemos desejar retornar um dia". Veja só! O autor considera que o Reino de Deus é um lugar, e que este lugar não é aqui.

Por outro lado, quando as perseguições cessam, os cristãos passam a
enxergar o mundo de uma maneira mais otimista, crendo que o Reino de Deus já chegou e que essa é a razão do conforto no presente.

Os evangélicos, como nós, surgiram, no Brasil, em meio a perseguições. Até o século XIX, não tinham sequer o direito de se casar, pois não existia o casamento civil, e o Estado só reconhecia o casamento realizado por sacerdotes católicos. E mesmo depois, no século XX, os "crentes" eram discriminados como pessoas de baixa condição social e intelectual. Então, é natural que nossos ancestrais na fé nutrissem muito mais a visão do texto 1, que ainda é a mais popular entre nós. Creio que a maior parte de nós pensa de forma parecida com o autor do texto 1. Mas isso é um desequilíbrio que precisa ser corrigido!

Afinal, qual das duas visões é a certa? O Reino de Deus já chegou OU ainda vai chegar?

A resposta correta é: tanto um quanto outro. O Reino de Deus já chegou E ainda vai chegar. Para termos uma visão teológica saudável e nos relacionarmos corretamente com este mundo e com Deus, precisamos nos equilibrar entre essas duas verdades.

VERDADE 1: O Reino de Deus vai chegar!

Toda a criação foi amaldiçoada pelo pecado humano (Gênesis 3:17). Os sofrimentos, catástrofes, destruições, injustiças, violência, fome e todos os outros males são consequência do mal maior, que entrou no mundo e dele se apoderou. Mas Deus não abandonou a sua boa criação. O propósito de Deus ao se fazer carne e andar entre nós é exatamente reconciliar o mundo consigo mesmo (2 Coríntios 5:19).

Chegará o dia em que "O lobo e o cordeiro comerão juntos, e o leão comerá feno, como o boi, mas o pó será a comida da serpente. Não farão nem mal nem destruição em todo o meu santo monte, diz o Senhor." (Isaías 65:25). Chegará o dia em que o Senhor Jesus governará sobre todas as nações (Apocalipse 19:15) e trará a luz e justiça a toda a Terra (Apocalipse 21:24). "Naquela época, chamarão Jerusalém ‘O Trono do Senhor’, e todas as nações
se reunirão para honrar o nome do Senhor em Jerusalém. Não mais viverão
segundo a obstinação de seus corações para fazer o mal"
(Jeremias 3:17).
De uma lua nova a outra e de um sábado a outro, toda a humanidade virá e se inclinará diante do Senhor (Isaías 66:23). Nunca mais haverá uma criança que viva poucos dias, e um idoso que não complete os seus anos de idade; quem morrer aos cem anos ainda será jovem, e quem não chegar aos cem será maldito (Isaías 65:20).

Todos nós, discípulos de Cristo, cremos que um dia o nosso Senhor virá para reinar sobre toda a Terra e devemos nos consolar com essas palavras. Nesse sentido, sabemos que o Reino de Deus virá, no futuro, de uma maneira completa, visível. O "lugar" da habitação de Deus, a que chamamos "céu", vai se unir definitivamente ao nosso mundo físico, que será totalmente restaurado por essa união. Deus, na pessoa de Jesus Cristo, estará para sempre com os homens.

E, nosso Senhor nos advertiu, talvez as coisas ainda piorem muito antes que esse grande e glorioso dia chegue (Mateus 24). Portanto, sempre que virmos as coisas piorando, não nos assustemos. Deus está no controle. É necessário que Jesus "...permaneça no céu até que chegue o tempo em que Deus restaurará todas as coisas, como falou há muito tempo, por meio dos seus santos profetas" (Atos 3:21).

Verdade 2: O Reino de Deus já chegou!

Quando o Deus encarnado andava pelas ruas empoeiradas da Judeia e da Galileia, a sua mensagem era exatamente esta: "Arrependam-se, pois o Reino de Deus chegou!".

Lucas 10 nos conta como Ele enviou 72 discípulos para pregarem em todas as cidades por onde Ele passaria, curando os enfermos e proclamando a mesma boa notícia: "O Reino de Deus chegou!". Quando os enviou, deu-lhes autoridade para pisarem serpentes e escorpiões, e todo o poder do Maligno, e nada lhes faria dano algum. Quando os discípulos voltaram, comemorando que até os demônios se lhes submetiam em nome de Jesus, o Senhor disse: "Eu vi Satanás caindo do céu como relâmpago."

Quando fundou sua Igreja, Jesus disse que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela. Quem afirma que está em Cristo, deve andar como Ele andou: fazendo o bem por toda parte e curando todos os oprimidos do Diabo (1 João 2:6 e Atos 10:38).

Deus não abandonou a sua bela criação, corrompida pelo pecado. Ao contrário, Ele próprio se tornou parte dessa criação, fazendo-se homem. A Luz brilhou nas trevas. Satanás era o governante desse mundo. Mas, com a ressurreição de Cristo, o mundo passou a ter um novo dono: o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Na cruz, o Senhor destronou os principados e potestados deste mundo tenebroso (Colossenses 2:15). Por isso o Senhor nos disse, depois de ressuscitar: "Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos." (Mateus 28:18-20).

Por um lado, é verdade que Jesus está no Céu. Por outro lado, também é verdade que Ele continua na Terra, tocando as pessoas, abraçando-as, rindo e chorando com elas, amando-as, curando-as, libertando-as. O Corpo dEle continua aqui, nesta boa Terra, fazendo tudo isso; antecipando a nova criação. Eu e você fazemos parte desse Corpo de Cristo. Nós somos Cristo. Nós somos a Igreja, "a plenitude daquele que enche todas as coisas, em toda e qualquer circunstância" (Efésios 1:23).

Se Jesus ainda está entre nós, como podemos dizer que o Reino de Deus ainda não chegou? Como Nosso Senhor nos disse: "o Reino de Deus está no meio de nós" (Lucas 17:21). Portanto, a Igreja tem a missão de antecipar a manifestação do Reino de Deus já nesta era. Um dia, Deus restaurará TODAS as coisas. Mas enquanto esse dia não chegar, eu e você podemos começar a restaurar ALGUMAS coisas, declarando que, mesmo que não pareça, Jesus Cristo já é o Senhor deste mundo e que nós estamos aqui para provar isso. A luz da nova criação já começou a brilhar, por meio de nós.

Cada vez que eu e você levamos a luz da salvação a alguém, trazemos o céu à terra. Cada vez que a Igreja se levanta para curar os enfermos, expulsar os demônios, alimentar os pobres, alfabetizar os iletrados, cuidar dos órfãos e fazer justiça aos oprimidos, o Reino de Deus se expande sobre a Terra e o inferno recua. Como disse o Senhor: "Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso demônios, então chegou a vocês o Reino de Deus." (Mateus 12:28).

O caminho do equilíbrio

É preciso que nos equilibremos nessas duas verdades. Caso foquemos exageradamente alguma delas, esquecendo-nos da outra, cairemos em erro.

Aqueles que só conseguem enxergar a primeira verdade, tendem a se tornar crentes alienados, insensíveis aos problemas do mundo. Para eles, não há nada a fazer: o mundo jaz no maligno e tudo o que podemos fazer é esperar pelo momento em que seremos arrebatados do mundo para que Deus possa destruí-lo. Enquanto isso não acontecer, só nos resta "pregar o evangelho", ou seja, ensinar as pessoas como podem escapar desse mundo condenado. É como se o mundo fosse um navio prestes a naufragar e nossa missão fosse apenas a de mostrar às pessoas onde estão os botes salva-vidas, para que não pereçam quando o barco afundar. Para essas pessoas, textos como Mateus 25:34-36 não têm o menor sentido, pois elas não conseguem compreender que "pregar o evangelho" é muito mais do que ensinar as pessoas sobre como podem escapar do inferno.

  • "Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo. Pois eu tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês me vestiram; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês me visitaram’."

Pregar o evangelho é contar a boa notícia de que o Reino de Deus já chegou, já está entre nós, trazendo cura para os doentes, esperança para os pobres, liberdade para os cativos.

Por outro lado, os que só enxergam a segunda verdade tendem a humanizar a mensagem do evangelho, esquecendo-se que ele "...é o poder de Deus para salvação de todo o que crê" (Romanos 1:16). Transformam a dura mensagem da cruz numa suave mensagem de paz e boa vontade entre os homens. Acreditam que poderão, com suas próprias forças, tornar o mundo um lugar melhor, mais fraterno. Dedicam-se às obras sociais e às causas políticas, como se pudessem apagar o mal que está no centro de cada um de nós. Nada é mais falso! O mal, que assola o mundo, não está fora de nós, mas dentro. E só a cruz de Cristo pode vencer esse poder maligno que escraviza a humanidade: o pecado. Só a morte e a ressurreição de Cristo, experimentadas em nossa própria vida, podem nos transformar verdadeiramente. "Jesus dizia a todos: 'Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me'." (Lucas 9:23). Essa é a única mensagem capaz de transformar as pessoas, capacitando-as a praticar o bem e a transformar o mundo.


Perguntas para debate em grupo

  1. Qual das duas Verdades, expostas no texto acima, têm influenciado mais a sua vida: a de que o Reino de Deus vai chegar, ou a de que o Reino de Deus já chegou?
  2. Muitos evangélicos se reunirão amanhã, dia 01/06/2011, na Esplanada dos Ministérios em Brasília, para protestar contra os termos do PLC nº 122/2006. Tendo em conta o texto que acabou de ler, como você analisa o comportamento desses irmãos?
  3. Você acha que o seu Grupo de Vida tem mostrado, com suas ações coletivas, que vem se equilibrando bem nas duas verdades? Vocês têm apenas olhado para o céu, esperando a Vinda do Senhor, ou têm olhado também para Terra, considerando que Ele já está aqui? Se houver algum desequilíbrio, o que poderia ser feito, pelo Grupo, para buscar esse equilíbrio?

Pr. Flávio Cardoso.

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