O objetivo da Lei

imagem de Flávio Cardoso
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Muitas vezes, em nossa caminhada cristã, nos deparamos com uma série de questionamentos sobre nossa conduta em relação ao que nos ensinam as Escrituras. Em uma de nossas lições anteriores, abordamos o tema Santificação, onde aprendemos que esse processo somente poderá ser conduzido com êxito em nossas vidas quando nos colocamos debaixo da graça do Senhor, que nos santifica.

Gostaria que tratássemos novamente desse tema, aprofundando um pouco mais o nosso entendimento sobre aquilo que a Palavra do Senhor nos orienta quanto a isso.

Em diversos momentos, a Bíblia nos aponta sobre a necessidade de sermos moldados ao caráter de Deus, vivendo em conformidade com a sua vontade. O próprio Jesus, diversas vezes, nos convoca a amarmos o nosso próximo como a nós mesmos (Mateus 22:39), amar nossos inimigos (Mateus 5:44), oferecermos a outra face quando alguém nos bate (Mateus 5:39) etc.

Sabemos que não temos em nós mesmos a menor condição de obedecermos a tais mandamentos e, se não entendermos o objetivo da lei, corremos o risco de jamais chegarmos ao ponto que o Senhor preparou para nós.

Um texto chave para compreendermos o objetivo dos mandamentos de Jesus e a lei como um todo está em Marcos 6:30-37. Vejamos:

"Voltaram os apóstolos à presença de Jesus e lhe relataram tudo quanto haviam feito e ensinado. E ele lhes disse: Vinde repousar um pouco, à parte, num lugar deserto; porque eles não tinham tempo nem para comer, visto serem numerosos os que iam e vinham. Então, foram sós no barco para um lugar solitário. Muitos, porém, os viram partir e, reconhecendo-os, correram para lá, a pé, de todas as cidades, e chegaram antes deles. Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor. E passou a ensinar-lhes muitas coisas. Em declinando a tarde, vieram os discípulos a Jesus e lhe disseram: É deserto este lugar, e já avançada a hora; despede-os para que, passando pelos campos ao redor e pelas aldeias, comprem para si o que comer. Porém ele lhes respondeu: Dai-lhes vós mesmos de comer. Disseram-lhe: Iremos comprar duzentos denários de pão para lhes dar de comer?’’

O verso 44 desse texto nos relata que, entre a multidão, havia algo em torno de 5 mil homens, sem contar mulheres e crianças. Assim, podemos estimar um público em torno de 10 mil pessoas. Ao fim do dia, os discípulos de Jesus chegam a ele com uma preocupação legítima (v. 35): o lugar era deserto, a hora já era avançada, e Jesus deveria despedir a multidão, para que as pessoas pudessem passar pelas aldeias vizinhas para comprar alimento para si. No entanto, ao invés de acolher essa sábia sugestão, Jesus lhes responde com uma ordem perturbadora, expressa no verso 37: "Dai-lhes vós mesmos de comer’’.

Não é difícil chegarmos à conclusão de que essa ordem de Jesus era simplesmente impossível de ser cumprida pelos discípulos. Então, qual seria sua real intenção? Será que Jesus esperava deles uma estratégia capaz de solucionar esse problema? Imaginemos se todos saíssem correndo de imediato às aldeias vizinhas para comprar ou pedir alimentos para toda aquela multidão. Após algumas horas, chegariam tristes e desanimados, pois o resultado de seu árduo trabalho não seria nada em relação ao tamanho da necessidade que estavam enfrentando, não tendo conseguido obedecer à clara ordem do Mestre.

Essa frustração e cansaço dos discípulos é muito parecida com o que nos acontece diante de nossa impotência perante as ordens de Jesus. Todo o nosso esforço e correria de nada adiantam diante de mandamentos tão importantes dados por Ele. Jesus nos falou que quando um homem apenas olha uma mulher com intenção impura, já adulterou (Mateus 5:28); em I João 3:15, a Bíblia nos ensina que aquele que odeia o seu próximo é tal como um assassino. Diante disso, por vezes nos sentimos iguais aos discípulos diante do "dai-lhes vós mesmos de comer’’.

Creio que a compreensão deste texto será uma verdadeira chave para abrir-nos o entendimento da santificação pela graça. Pois bem, é claro que Jesus sabia que seus discípulos não poderiam cumprir a sua ordem. Ao falar isso, ele tinha alguns objetivos em mente, e é isso que veremos a seguir.

1º objetivo: levá-los a avaliar sua responsabilidade

Jesus detectou nos seus discípulos, por trás da preocupação com o bem estar da multidão, uma tendência, qual seja, diante do desafio angustiante que os rodeava, deixar que cada pessoa se virasse à própria sorte. Os discípulos fingiam não perceber o problema que os cercava.

Eles sabiam que aquelas pessoas estavam distantes de suas casas, provavelmente não possuíam recursos para comprar alimentos, e, mesmo que o tivessem, dificilmente algum povoado mais próximo teria a estrutura necessária para atendê-los. Sua sugestão ao Mestre escondia essa constatação, e, se assim fosse feito, poderiam virar suas costas e se fazer indiferentes a tudo isso.

Entretanto, Jesus confrontou-os com o problema do qual tentavam fugir, e, hoje, também nos confronta: "Não é necessário despedi-los, encarem o problema como sendo de vocês, não tentem fugir’’.

Podemos retirar desse acontecimento a lição de que o primeiro propósito de Jesus com os seus mandamentos é eliminar a alienação e estabelecer um padrão de excelência. Devemos ter muito claro em nossa mente que Deus tem a intenção de que sejamos santos como Ele é santo: "Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste’’ (Mateus 5:48); e "sede santos, porque eu sou santo’’ (I Pedro 1:16). Ele não quer que nós, diante de nossa impossibilidade humana de chegar a esse patamar, ignoremos esse mandamento, como se ele não existisse.

A questão chave aqui é a nossa reação diante do mandamento do Senhor. Quando somos confrontados com o padrão de excelência do Reino, podemos reagir de quatro maneiras diferentes:

  1. Indiferença ("Isso é um padrão utópico!’’)
  2. Hipocrisia ("Tudo isso eu pratico!’’)
  3. Desistência ("Isso não dá para mim!’’)
  4. Perplexidade ("O que o Senhor espera de mim?’’)

Infelizmente, nem todos os seguidores de Cristo têm reagido da maneira mais adequada, e isso tem levado a igreja a um patamar muito aquém daquele esperado pelo Senhor. Naquele fim de tarde, Jesus constatou a perplexidade em seus discípulos. Então, fez a eles uma segunda pergunta (v. 38): "Quantos pães tendes? Ide ver!’’. E isso nos mostra o seu segundo objetivo.

2º objetivo: levá-los a avaliar sua disponibilidade

Os discípulos saíram em busca dos seus recursos. Foram avaliar o quanto dispunham, ou o que poderiam fazer. Mas, a realidade era cruel, pois, no meio de toda aquela multidão, somente conseguiram cinco pães e dois peixes.

É certo que isso não representava nada diante do desafio que enfrentavam, mas era tudo o que tinham. Em nossa luta contra o pecado, também não dispomos de forças suficientes para vencer, mas também temos cinco pães e dois peixes para apresentar. Em Romanos 7:18, Paulo afirma que "o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo’’. Todo genuíno cristão tem, dentro de si, colocado pelo próprio Deus, o querer obedecê-lo, o querer agradá-lo e fazer a sua vontade. Essa genuína vontade é gerada no homem pela atuação do Espírito Santo.

Muitos crentes têm deixado essa vontade se apagar em suas vidas, em vista da sensação de impotência ante a tremenda demanda da lei, abandonando a corrida e ficando à margem do que Deus tem sonhado para eles. Mas, de fato, o que representavam aqueles cinco pães e dois peixes para alimentar tantas pessoas? O que é o querer diante das tremendas exigências da santidade de Deus? O querer não me dá forças. Ele apenas evidencia minha impotência. Essa descoberta era, na realidade, o grande objetivo de Jesus naquele dia. Essa era a porta pela qual o impossível viria a acontecer.

3º objetivo: levá-los a avaliar sua total impossibilidade

Diante da fria realidade de que nada poderiam fazer, os discípulos voltaram seus olhos para o Mestre, que os esperava de braços estendidos, disposto a fazer do pouco que dispunham um grande milagre que saciaria a fome de toda aquela multidão.

Temos nesse texto um princípio, e não apenas um acontecimento isolado. Diante de nossa total impossibilidade, constatamos: que o nosso querer não nos dá forças para obedecer; que a demanda da lei é elevadíssima; que o padrão de excelência de Jesus está totalmente fora do nosso alcance; que precisamos voltar nossos olhos para Ele, pois estará de mãos estendidas a dizer: "dêem-me o seu nada, pois através de mim, vocês poderão amar os não amáveis; perdoar os que lhe ofendem; ser puros de coração e ser santos como o Pai’’.

Que verdade fantástica! Foi exatamente isso que o apóstolo Paulo descobriu ao declarar: "Tudo posso naquele que me fortalece’’ (Filipenses 4:13). E isso é confirmado pelo próprio próprio Jesus, que nos afirmou em João 15:5: "Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer’’.

Sem Cristo, nada, mas, com ele, podemos todas as coisas. Sem Cristo, nossa corrida pela santidade somente nos levará à frustração, mas, com Ele, mediante sua vida em nós, podemos brilhar mais e mais, até sermos dia perfeito (Provérbios 4:28). E assim, estaremos sendo salvos do domínio do pecado pela vida de Jesus em nós. Aleluia!

Finalmente, podemos concluir que toda a lei e os mandamentos deixados por Jesus não nos foram deixados para que os cumpríssemos com nossas próprias forças e, assim, pudéssemos ser santificados ao Senhor. Não. A Bíblia é clara ao afirmar que "qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos’’ (Tiago 2:10). Eventualmente, podemos até conseguir algum mérito em determinada área de nossa vida, mas, certamente, existem pontos, por menores que sejam, onde sempre tropeçamos e nos fazemos condenáveis. A lei não é um meio para ser santos, mas um check-up a nos mostrar que, sem Jesus, jamais alcançaremos isso. O mesmo Deus que nos deixa a responsabilidade de sermos santos, também nos mostra que não temos condições de cumprir essa ordenança; mas, por sua graça, mediante o viver de Cristo em nós, nos transforma para a sua honra e glória.

Para se aprofundar nesse assunto, recomendamos a leitura do Capítulo 2 do livro Santidade ao Seu Alcance, de Ivênio dos Santos (Ed. Palavra, Brasília, 2007).

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