O Pai Nosso

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Pai Nosso

O Pai Nosso é, certamente, a oração mais conhecida da cristandade. Tão recitada por todos os cristãos, a oração ensinada pelo Mestre é uma fonte inesgotável de ensinamentos úteis à vida cristã.

Em geral, qualquer criança cristã definiria oração simplesmente como "falar com Deus". Mas eu creio que o Pai Nosso é bem mais do que isso. Por meio dessa oração, Jesus nos ensina, entre outras coisas:

  • como deve ser a filosofia de vida do discípulo.
  • qual deve ser a atitude correta para com Deus e para com as coisas.
  • o que Deus espera dos seus filhinhos.

Vamos meditar um pouco sobre algo do que o Pai Nosso nos transmite.

Leitura: Mt 6:5-15

1ª Parte: o Pai Nosso nos fala de sacrifício

“Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu.”

Estamos próximos do ano novo e, certamente, todos fazemos planos para o ano vindouro. Se eu perguntasse: "Quantos querem que a vontade de Deus para as suas vidas se realize no próximo ano?", imagino que a maioria se manifestaria. Mas talvez a maior parte de nós não esteja muito a par das consequências desse desejo.

Há muitas ocasiões em que a vontade de Deus coincide com a nossa. Nesses casos, é maravilhoso dizer: “Seja feita a tua vontade”. Se a vontade de Deus é que troquemos de carro, ou saiamos do aluguel, ou que sejamos promovidos no emprego, prontamente diríamos: "seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu".

Mas há ocasiões em que a vontade de Deus não é igual à nossa. Nesses casos, a oração do Pai Nosso é bem difícil de ser feita. Afinal, o "seja feita a tua vontade" passa a significar que a nossa vontade não será feita.

Paulo nos dá um exemplo disso, em sua carta aos coríntios (II Co 12:1-10). Após ter sido arrebatado até o terceiro céu e recebido revelações maravilhosas, o apóstolo recebeu um espinho na carne, a saber, um mensageiro de Satanás enviado para esbofeteá-lo.

Paulo não gostava desse espinho. Sua vontade era que Deus o retirasse dele. Por isso, orou três vezes ao Senhor, pedindo livramento. Mas o Senhor não o atendeu. Ao contrário, disse-lhe que a graça divina lhe bastava, pois o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza. Em outras palavras, Deus disse: "OK, Paulo, eu já entendi qual é a sua vontade. Só tem um problema: a minha vontade é outra.

Qual foi a reação do apóstolo? Ira? Desânimo? Sentimento de rejeição ou de desprezo? Afinal, ele era Paulo, o apóstolo que trabalhava mais do que todos os outros, e que sofrera horrores por causa do evangelho. Será que não merecia um refresco?

Não. O apóstolo decidiu se render à vontade divina.

Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.

Que tremenda lição para todos nós.

Mas esse não é o exemplo mais contundente. Afinal, Paulo não tinha outra alternativa. Ou aceitava o espinho e se alegrava nas adversidades, ou aceitava o espinho e reclamava da vida. De qualquer forma, o espinho que ele não pediu estaria lá. Paulo não teve que fazer nada contra a sua vontade.

Mas há outro exemplo bem mais forte, dado pelo Senhor Jesus. Para cumprir a vontade de Deus, ele teve de fazer algo contrário à sua própria vontade:

Então, lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo. Adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres. (Mt 26:38-39)

Nessa oração, repetida três vezes, o Senhor Jesus nos mostra claramente que a sua vontade era não beber o cálice. Mas Ele se sujeitou à vontade do Pai.

Durante sua prisão, e enquanto era interrogado e torturado, Jesus teve várias ocasiões para se livrar do sofrimento.

  • Poderia ter pedido livramento ao Pai, que imediatamente lhe teria enviado legiões de anjos (Mt 26:53);
  • Poderia ter-se defendido perante o sinédrio ou perante Pilatos;
  • Poderia ter profetizado quem batia nele (Mt 26:68);
  • Poderia ter tomado o vinho com fel, de efeito embriagante, para amenizar seu sofrimento.

Mas Jesus, resignadamente, rendeu-se à vontade do Pai. Nos ensinou, assim, até que ponto deve chegar o “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. Para fazer cumprir a vontade de Deus, Jesus se sacrificou. Ele se negou a si mesmo e tomou sua cruz.

Jesus nos manda fazer o mesmo:

Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. (Mt 16:24)

Embora o texto de Mateus nos leve a cogitar até mesmo a morte física, literal, creio que esse é um extremo exigido de bem poucos cristãos. Possivelmente, não será exigido de nós, embora devamos estar preparados até mesmo para o martírio.

Ao descrever essa mesma afirmação do Mestre, Lucas diz “tome cada dia a sua cruz”. Certamente, ele não está falando, aqui, de martírio, mas de uma atitude constante de mortificar o ego. Uma maneira eficiente de conseguirmos isso é, periodicamente, dizer não a nossas vontades. Por exemplo, podemos abrir mão de uma hora de sono, uma sobremesa, um cafezinho, uma refeição. Hoje, você já se negou algo?

Somente quando nos acostumamos com esses pequenos sacrifícios diários de nossas vontades é que temos a capacidade de fazer prevalecer a vontade de Deus sobre a nossa. Só assim conseguiremos orar o “Seja feita a tua vontade” quando a coisa aperta.

Provavelmente, todos se lembram de estar escrito, na Bíblia, que a vontade de Deus é boa, perfeita e agradável, não é mesmo? Talvez, a maior parte consiga se lembrar de que isso está escrito em Romanos 12. Mas, você consegue lembrar se essa passagem menciona algo sobre sacrifícios? Confiram:

Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês. Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (Rm 12:1-2, NVI)

O padrão deste mundo é exigir que Deus cumpra nossas vontades, pois achamos que as nossas vontades é que são “boas, perfeitas e agradáveis”. Mas o apóstolo nos exorta a que não nos amoldemos a esse padrão mundano. Ao contrário, é preciso transformar a nossa mente, pensar de forma diferente. A vontade que é boa, perfeita e agradável é a de Deus. Eu preciso sacrificar as minhas vontades, para experimentar a dEle.

Há quem pense que tudo o que acontece em nossa vida é resultado da boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Então, atribuem todas as desgraças da vida à "providência" divina. Mas, se assim fosse, não teria sentido o "seja feita a tua vontade". De fato, se estivesse certa essa teoria, o Pai Nosso diria: "É feita a tua vontade, assim na terra como no céu."

Mas Jesus ensina diferentemente, dando-nos um exemplo de que, diante da dureza do coração humano, Deus pode permitir que ocorram coisas diferentes das que Ele desejou. Certa vez, os saduceus e os fariseus, para prová-lo, perguntarem-lhe se era lícito ao homem repudiar sua mulher. O Senhor Jesus disse que não, pois "o que Deus ajuntou não o separe o homem" (Mt 19:6). Prontamente, os religiosos judaicos argumentaram: "Por que mandou, então, Moisés dar carta de divórcio e repudiar?" (Mt 19:7). Jesus respondeu:

Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio.

Em outras palavras, Deus permitiu o divórcio, devido a dureza dos corações humanos, mas não foi isso que Ele planejou desde o princípio. Não era essa a sua boa, perfeita e agradável vontade.

Portanto, se quisermos experimentar a boa, perfeita e agradável vontade de Deus, precisamos quebrantar nosso coração e nos render à sua vontade. Caso contrário, podemos permanecer apenas no campo da vontade permissiva de Deus, o que não é a situação ideal para a nossa vida e nem para os que nos rodeiam.

2ª Parte: o Pai Nosso nos fala de dependência

Um segundo ponto que a oração do Pai Nosso nos ensina é que devemos ser totalmente dependentes de Deus. Quem ora o Pai Nosso com o coração contrito, expressa sua total dependência de Deus:

  • quanto à vontade do Pai (já falamos);
  • para a satisfação até mesmo das necessidades mais básicas ("o pão nosso de cada dia nos dá hoje);
  • para obter o perdão das dívidas (pecados) que jamais poderíamos pagar ("perdoa nossas dívidas"). Quem ora o Pai Nosso está plenamente consciente de que é devedor a Deus e que depende da misericórdia divina para o perdão imerecido de seus pecados. Ele nem tenta pagar a sua dívida com suas próprias forças: simplesmente se regozija na graça divina.
  • para não pecar ("não nos deixe cair em tentação"). Se você conseguir vencer o pecado, saiba que a força para isso veio de Deus. É impossível vencermos o pecado sem a operação da graça divina.
  • para proteção ("livra-nos do mal").

Nesse sentido, a oração nos transforma em crianças inocentes. As crianças:

  • não sabem o que é trabalhar, dinheiro, prestação, juros, crédito etc.
  • dormem despreocupadas com o que comerão, o que vestirão e onde dormirão no dia seguinte.
  • vivem cada dia alegremente, sem jamais duvidar da capacidade de seus pais de sustentá-las plenamente.
  • não têm a noção de mérito e recompensa.

Ao orarmos o Pai Nosso, com coração contrito e espírito quebrantado, reconhecemos que somos apenas filhinhos de nosso Papai celestial. O Pai Nosso incute em nós exatamente a atitude de crianças que Deus de nós espera

Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus. (Mt 18:3, NVI)

Quantas tristezas seriam evitadas entre os cristãos se eles tão somente se comportassem como crianças diante do Papai. Muitos dos nossos problemas espirituais resultam de nossa “independência”. Quando o Senhor nos faz prosperar, nos esquecemos de que tudo vem dEle e o colocamos em segundo plano. Parece-me que a fartura causa mais problemas à saúde da alma do que a escassez!!!

Outros problemas resultam de nossa noção de mérito e recompensa. Dizemos: “Puxa, me esforcei tanto, orei tanto, jejuei, e não consegui o que queria”. Nos sentimos injustiçados por Deus. Talvez até invoquemos o famoso "verso bíblico" que só existe na imaginação popular: “Faça a sua parte, que Deus fará a dele...”.

Mas as coisas não são assim. Deus não nos abençoa porque nós merecemos. A Bíblia deixa muito claro que a única coisa que nós realmente merecemos é a ira de Deus (Ef 2:3). Na realidade, Ele nos abençoa por graça, porque tem prazer nisso. Ele tem prazer em alimentar os pardais, em vestir os lírios do campo e em cuidar de nós.

Tenha prazer em depender de Deus. Confie em sua maravilhosa graça. Como criança, entregue-se à sua vontade, provisão, perdão e proteção. Ele jamais te abandonará.

Conclusão

Talvez você ainda não tenha entregue sua vida ao senhorio de Cristo e, ao ouvir essa mensagem, tenha ficado pensativo. Talvez você esteja pensando: "puxa vida, que proposta indecente! Eu, que sou dono do meu nariz, vou passar a depender de Deus para tudo?"

Ilusão sua. Seu nariz não é seu. Sua sensação de independência e liberdade é enganosa. Você depende de Deus até para respirar. Só que nunca reconheceu isso. Creio que hoje os seus olhos foram abertos pelo Espírito Santo. Se você desejar, pode se entregar à Deus, dizendo: “Eu quero depender do Senhor”. Procure uma igreja e manifeste sua decisão de se tornar um discípulo de Jesus Cristo.

Talvez você já seja um cristão, mas está com dificuldades em se render à vontade de Deus. Está difícil abrir mão de certas coisas ou pessoas. Talvez, você se sinta amedrontado pela possibilidade de Deus te mandar fazer algo que você não queira. A possibilidade de que a vontade de Deus seja diferente da sua tem deixado você apreensivo.

Ore a Deus pedindo que Ele lhe dê forças para entregar-lhe tudo, de uma vez por todas. Se necessário, peça ajuda a algum irmão, ou ao líder de seu Grupo de Vida. Certamente, você sentirá a paz de Deus encher seu coração, e poderá orar, sem medo algum:

Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal. Pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém!

 

Brasília, 27/12/2009

Pr. Flávio Cardoso

Igreja de Nova Vida do Guará

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