Salvos para atrair pessoas ao Reino

imagem de Flávio Cardoso
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Nesta lição, continuaremos a meditar sobre os motivos pelos quais fomos salvos. Um deles, certamente, é pregarmos o evangelho do Reino de Deus a todos, cumprindo a "grande comissão" descrita em Marcos 16:15-18 e em Mateus 28:19-20. Nosso objetivo, nesta lição, é meditar acerca de duas questões:

  1. A mensagem que usamos em nossa pregação está correta? É a mesma que Jesus anunciou?
  2. Os métodos que usamos para levar a mensagem são adequados à nossa época?

Um dos lemas dos reformadores era este: Ecclesia Reformata, Semper Reformanda (Igreja Reformada, sempre se reformando). A cada momento, precisamos procurar se há algo em nosso meio que precise ser reformado, melhorado. Como disse um irmão nosso: "Temos que ser reformadores de nossos tempos e, quando tivermos reformado as coisas que precisam de reforma, temos que começar a reformar de novo. Então, precisamos continuar vigiando, sendo críticos e reformando. Isso tem que ser um processo sem fim" (frase de Samuel C. Lee, extraída de http://www.samlee.org/ -- tradução livre).

O fenômeno da emergência

A palavra "emergência", aqui, vem de "emergir", ou seja, significa "vir a superfície", "vir à tona".

O livro de Atos dos Apóstolos nos conta a maravilhosa história de como os primeiros discípulos de Cristo cumpriram a "grande comissão", atraindo milhares de pessoas para o Reino de nosso Senhor.

É interessante observar que, desde os primeiros anos da Igreja, ela sofreu importantes mudanças, as quais continuaram ocorrendo posteriormente. Em cada lugar e em cada época, parece que uma nova Igreja "emerge" da anterior, mantendo algumas características antigas, boas e más, e removendo e acrescentando outras, boas e más.

Inicialmente, os discípulos de Cristo eram apenas judeus. Eles não pensavam que um dia haveria conversão de não-judeus. Eles próprios viram como Jesus relutou em anunciar as boas novas de salvação a não-judeus (Mateus 15:21-28). Continuavam observando a Torah (Lei judaica), guardando o sábado, indo à sinagoga e celebrando as festas religiosas. Não se aproximavam de não-judeus, pois consideravam que isso era pecado.

Foi assim até o dia em que o Espírito Santo provocou uma emergência na Igreja, mostrando a Pedro que também os não-judeus poderiam ser salvos e cheios do Espírito Santo (Atos 10). Em princípio, os judeus convertidos não quiseram aceitar isso. Mas acabaram compreendendo ser essa a vontade de Deus e "... louvaram a Deus, dizendo: 'Então, Deus concedeu arrependimento para a vida até mesmo aos gentios!' " (Atos 11:18).

A partir daí, surgiu a Igreja dos gentios, que se espalhou entre os povos de língua grega e que possuía características diferentes da Igreja entre os judeus: hábitos diferentes, forma de pensar diferente. Ao contrário da Igreja da qual emergiu, a Igreja dos gentios sempre foi, desde o princípio, fortemente influenciada pela filosofia grega ocidental. Afinal, seus participantes tinham cultura totalmente diversa da cultura judaica. Da mesma forma, igrejas emergiram na direção do oriente, chegando até ao Japão, cada qual com características próprias.

É importante perceber que a emergência de uma nova Igreja não precisa destruir as anteriores, das quais ela emergiu. A nova Igreja dos gentios, descrita em Atos, não destruiu a Igreja judia. Ambas conviveram na mesma época.

Do ponto de vista de Deus, há uma só Igreja, formada pela comunhão dos santos, ou seja, dos salvos que viveram, vivem e viverão, em todas as épocas e em todos os lugares. Portanto, o fenômeno da emergência deve ser entendido como adaptações da Igreja a condições diferentes que aparecem em lugares e épocas diferentes.

Os cenários sociais e históricos não permanecem os mesmos. Ao longo dos séculos, temos visto inúmeras transições. O mundo do império romano deu lugar ao mundo da idade média. Por sua vez, o período renascentista sucedeu a idade média. Depois, o mundo passou a respirar os ideais do iluminismo. Em todas essas transições, a expressão do pensamento cristão foi bastante alterada, adaptando-se às mudanças.

De um lado, essa capacidade de adaptação da teologia cristã é importante, pois auxilia a Igreja a estender a mensagem do evangelho em uma ampla variedade de contextos. Por outro lado, "a história teológica também fornece inúmeros exemplos de acomodação inapropriada da fé cristã a várias ideologias e normas culturais. Esse passado quadriculado confirma a vitalidade da teologia cristã, ao mesmo tempo em que adverte sobre os perigos de sua associação muito próxima a qualquer forma particular de expressão cultural" (Excerto de Uma ortodoxia generosa, de Brian McLaren -- Editora Palavra, pág. 212).

O processo de emergência é imperfeito. Em razão das transformações pelas quais passa a nossa teologia, nossa pregação pode ter sido indevidamente modificada. Por isso é tão necessário sermos auto-críticos. Será que estamos pregando o evangelho do Reino de Deus? Ou será que o temos transformado em algum outro evangelho?

O evangelho na pós-modernidade

Essa discussão se torna ainda mais importante quando ocorrem grandes mudanças na forma de pensar das pessoas, como na transição entre a Idade Média e a Renascença, quando emergiu a Igreja Protestante, com suas virtudes e defeitos. Pois bem, muitos sociólogos e cientistas sociais têm defendido que o mundo de hoje está passando por uma fase de transição desse tipo, que se iniciou a partir da segunda metade do século XX. Estamos saindo da era da modernidade para a da pós-modernidade. A forma de pensar de nossos avós é muito diferente da nossa, em razão das grandes transformações que o mundo vem sofrendo. Como será que isso afeta a nossa pregação das boas novas do evangelho? Será que está na hora de uma nova Igreja emergir?

Gostaria de narrar aqui alguns trechos de uma entrevista com o influente pastor Brian McLaren, publicada nesse site da revista Christianity Today. Alguns trechos se referem à realidade americana, mas descrevem bem a nossa. Mesmo que você não concorde com tudo o que o pastor Brian diz, vale a pena refletir. Discuta essa entrevista no seu Grupo de Vida. Espero que minha tradução não impeça a compreensão do texto e nem faça injustiça ao autor. Com vocês, Brian McLaren:

Pergunta: Como podemos evangelizar as pessoas hoje? É diferente de como evangelizávamos as gerações anteriores?

Resposta: Muito do nosso evangelismo aqui nos EUA era desenvolvido num contexto de cristandade, no qual quase todos conheciam as informações básicas sobre o cristianismo e eram favoráveis a ele. O Evangelismo levava as pessoas a agirem conforme eles já sabiam e, de certa forma, acreditavam passivamente. Você podia, rapidamente, chamar as pessoas a se engajarem. Você também podia usar técnicas de persuasão bem vigorosas. Na relação com pós-modernos, você lida com pessoas que não conhecem o básico do cristianismo. Quando muito, eles têm uma idéia negativa do que é o cristianismo. Então, não faz sentido, para eles, quando você, rápida e vigorosamente, pede o seu engajamento. Deveríamos considerar "conversações" mais do que conversões. Não porque eu não acredite em conversões, mas porque eu acho que não teremos muitas conversões, caso permaneçamos enfatizando-as.

Pergunta: Então, como se deve evangelizar os pós-modernos?

Resposta: Para muitos, a palavra "argumentos" vem à mente quando pensam em evangelismo: argumentos para a existência de Deus, para a singularidade de Cristo, para a inspiração da Bíblia. Para pessoas pós-modernas, qualquer coisa apresentada como argumento é menos persuasivo, porque argumentos sugerem uma mensagem de conquista ao invés de uma mensagem de paz. Pós-modernos são tão assediados por anúncios e mensagens políticas que, para uma mensagem ser considerada importante e verdadeira, ela deve vir em outra forma, que não seja argumentos.

Também, nós nos tornamos bons em reduzir o evangelho às simples quatro leis para a salvação. Pessoas modernas amam diagramas; é tudo uma questão de engenharia. Mas pessoas pós-modernas acham que a verdade vem como um mistério, uma história, uma obra de arte; a verdade é mais compreendida como poesia do que como engenharia. Com isso, precisamos nos perguntar se temos uma clara compreensão do que o evangelho realmente é. Se, por séculos, nós temos visto o evangelho como um conjunto de argumentos ou o temos abordado como "problema-solução", devemos perguntar como isso pode ter distorcido nosso entendimento do evangelho. De muitas maneiras, o evangelho dos evangélicos modernos acaba sendo uma mensagem de como não ir para o inferno. Quando você volta no tempo e se pergunta se esse era o evangelho, do ponto de vista de Jesus, é muito difícil dizer que sim. Quando Jesus falou do evangelho, ele falou do Reino de Deus. Isso abre todo um leque de assuntos que são mais importantes.

Pergunta: Como você treina pessoas para serem testemunhas autênticas do evangelho?

Resposta: Nós não falamos de ter um departamento de missões em nossa igreja. Ao invés disso, nós dizemos às pessoas que o que fazemos é missões. Quando nos tornamos seguidores de Cristo, estamos nos alistando para sua missão. Isso envolve fazer o bem, cuidar dos pobres e dar copos de água em nome de Cristo, contando aos outros a história do evangelho e o que Deus fez em nossa vida. Falamos de ser e fazer discípulos numa comunidade autêntica, para o bem do mundo. Falamos assim porque, de acordo com Jesus, uma das coisas que discípulos fazem é ajudar outros a se tornarem discípulos.

Pergunta: Além de mostrar bondade, como vocês atraem pessoas sem serem desagradáveis?

Resposta: Nós enfatizamos que, para ser um bom membro de nossa igreja, você deve conhecer nossos vizinhos. Por exemplo, fazendo festas. Tenham pessoas ao seu redor. Sejam agradáveis com as crianças em sua vizinhança. Sejam boas pessoas e bons vizinhos. Isso facilita o diálogo com os outros acerca da sua fé. Você conhece aquele verso em I Pedro 3 acerca de sempre estar preparado para dar uma resposta? Bem, isso significa que as pessoas fazem perguntas. Para mim, uma questão importante é como podemos ajudar cristãos a viverem uma vida tão feliz que as pessoas queiram perguntá-las sobre isso. Se as pessoas não estiverem nos perguntando nada e, ainda assim, nós ficarmos ensinando cristãos sobre como falarem, ao invés de como andarem, estaremos apenas os encorajando a serem ofensivos, odiados.

Pergunta: Como as igrejas podem ser mais receptivas aos pós-modernos não-cristãos ou aos novos crentes?

Resposta: Para nos tornarmos esse tipo de igreja, precisamos aceitar pessoas que não se vestem adequadamente, não andam, não cheiram e não pensam adequadamente. Se nós não os deixarmos a vontade antes que creiam, nunca crerão em nossa igreja. Porque se um grupo diz: "só o aceitaremos se você concordar conosco", isso soa como qualquer outro grupo mundano. As pessoas estão procurando grupos que os aceitem independentemente de sua condição. Isso se torna um dos certificados de autenticidade do evangelho.

Conclusão

Apenas para finalizar, gostaria de apresentar duas maneiras diferentes de pensar o cristianismo, também propostas por Brian McLaren no seu livro Uma ortodoxia generosa (Editora Palavra, pág. 246). Discuta-as em seu Grupo de Vida.

Abordagem 1
"Olhem aqui, pessoal. Estamos certos, e vocês estão errados. Temos a linhagem correta dos apóstolos originais e vocês não. Lamentamos, mas, nós estamos dentro e vocês estão fora. Há bênçãos para os que estão andando direito e estão dentro e conseqüências para os que estão errados e fora. Portanto, se vocês querem estar do lado das bênçãos e longe das conseqüências é melhor se juntarem a nós, uma vez que somente nós podemos estabelecer nossa linhagem até os apóstolos."
Abordagem 2
"Estamos aqui em uma missão para juntar forças com Deus e trazer bênção ao nosso mundo tão necessitado. Esperamos trazer a bênção divina a você, quem quer que você seja, e seja no que for que você acredite e, se você quiser se juntar a nós nessa missão e à fé que a cria e sustenta, você será bem-vindo. Se você tem sido parte do problema, nós o convidamos a mudar de lado, a se tornar parte da solução de Deus. Essa é a missão que recebemos dos apóstolos. Buscamos seguir o exemplo deles, que foi o de viver radical, corajosa e generosamente."

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