Salvos para quê?

imagem de Flávio Cardoso
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Sem sombra de dúvida, a nossa salvação é um evento misterioso e maravilhoso, que precisa ser continuamente cantado em verso e em prosa. Cada vez que nos voltamos à Bíblia, descobrimos uma nova faceta da nossa salvação. Por um lado, ela representa nossa libertação da culpa do pecado. De outro lado, é o renascimento de nosso espírito, agora habitado pelo Espírito de Deus. Ainda, ela marca o momento em que passamos a ser participantes da natureza divina. E muito mais poderia ser dito...

A salvação do homem é um assunto tão tremendo, que necessita ser muitas vezes estudado e meditado. Por isso, já tivemos tantas lições tratando desse assunto. E talvez ainda tenhamos outras com esse tema.

Mas, por ora, tentaremos explorar um outro assunto também relacionado à nossa salvação. Tentaremos responder perguntas do tipo: o que Deus planejava ao salvar o homem? O que Ele espera que os salvos façam? Para que fomos salvos? Esse tipo de pergunta será abordado nesta e nas próximas lições.

O dilema de Lutero

Como aprendemos em nossas lições anteriores, nossa salvação é pela graça, por meio da fé, e não por meio das boas obras que pratiquemos (Efésios 2:8-9). Os reformadores protestantes, tais como Lutero, trataram de exaltar essa doutrina bíblica, como forma de combater os ensinos católico-romanos que pregavam a salvação pela prática de boas obras. Tanto é que o lema da reforma protestante tornou-se este: "sola gratia, sola fide, sola scriptura" (do latim: "só a graça, só a fé, só a escritura").

Em razão da necessidade de defender com tanta ênfase a doutrina da salvação pela graça, mediante a fé, Lutero acabou tendo dificuldades em entender certas passagens bíblicas, tais como Tiago 2:14-26:

"14 Que proveito há, meus irmãos se alguém disser que tem fé e não tiver obras? Porventura essa fé pode salvá-lo?

15 Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e tiverem falta de mantimento cotidiano.

16 e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito há nisso?

17 Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma.

18 Mas dirá alguém: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me a tua fé sem as obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras.

19 Crês tu que Deus é um só? Fazes bem; os demônios também o crêem, e estremecem.

20 Mas queres saber, ó homem vão, que a fé sem as obras é estéril?

21 Porventura não foi pelas obras que nosso pai Abraão foi justificado quando ofereceu sobre o altar seu filho Isaque?

22 Vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada;

23 e se cumpriu a escritura que diz: E creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça, e foi chamado amigo de Deus.

24 Vedes então que é pelas obras que o homem é justificado, e não somente pela fé.

25 E de igual modo não foi a meretriz Raabe também justificada pelas obras, quando acolheu os espias, e os fez sair por outro caminho?

26 Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta."

Quem lê esses versos sem muita atenção pode ser levado a acreditar que se trata de uma defesa da salvação pelas obras. De fato, o próprio Lutero pensou assim no princípio de sua carreira de reformador, quando chegou a dizer que a carta de Tiago era uma "epístola de palha". Na verdade, esse entendimento incorreto de Lutero ainda permanece na mente de muitas pessoas.

Mais tarde, o reformador alemão compreendeu melhor as palavras do Tiago e modificou sua opinião anteriormente expressa. Disse Lutero: "Quando S. Tiago e Paulo dizem que um homem é justificado pelas obras, eles estão combatendo a noção errônea daqueles que pensam que a fé sem obras é suficiente" (citação extraída de
desse site).

Então, não há contradição entre Tiago e Paulo. A salvação é pela graça, mediante a fé. Mas, quem é salvo pela graça deve produzir frutos dignos de quem se arrependeu (Mateus 3:8). De nada adianta festejar a salvação pela graça e mostrar ao mundo uma vida vazia de obras. Não somos salvos PELAS boas obras, mas somos salvos PARA as boas obras. Quem se considera salvo e não as pratica, deve ficar realmente preocupado e procurar saber se Deus o considera salvo.

Luz e sal

Nosso Deus poderia ter-nos arrebatado no momento em que nascemos de novo. Mas Ele não fez isso, pois o seu plano sempre foi o de que permanecêssemos no mundo (João 17:15). E nossa função aqui foi claramente apresentada pelo mestre: devemos ser o sal da terra e a luz do mundo (Mateus 5:13-16). Preste especial atenção ao que está escrito no verso 16:

"Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus."

Sempre fui levado a entender que ser a luz do mundo significaria pregar o evangelho da salvação aos perdidos. Mas o que Jesus está falando aqui é algo bem mais amplo. A luz que o mundo precisa enxergar são as nossas boas obras. Note que esse trecho de Mateus 5:13-16, que fala do sal da terra e da luz do mundo, vem imediatamente após o texto das bem-aventuranças. Leiam-no (Mateus 5:1-12).

Obviamente, anunciar as boas novas da salvação pela graça é uma das muitas boas obras que devemos praticar, porquanto recebemos essa ordem do mestre (Marcos 16:15). Mas o mundo também precisa ver algo além de nossa pregação. Precisa ver nossa humildade de espírito, nossa fome e sede de justiça, nossa misericórdia, nossa pureza de coração, nosso trabalho como pacificadores.

Quantas vezes vemos pessoas assoladas por Satanás, com suas famílias destruídas, sua saúde precária, suas finanças arruinadas. Então, pensamos: "como essa pessoa precisa de Deus... Se ela conhecesse a Jesus, tudo seria diferente em sua vida". Esse pensamento é correto. Mas não basta ficar pensando isso. É preciso que nos aproximemos de tais pessoas. Afinal, o Espírito que passou a habitar em nós, a partir de nosso novo nascimento, é o mesmo que habita em Cristo, acerca do qual Ele disse:

"O Espírito do Senhor está sobre mim, porquanto me ungiu para anunciar boas novas aos pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos, e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e para proclamar o ano aceitável do Senhor." (Lucas 4:18-19)

Se meu próximo precisa de Jesus, e se Ele habita em mim, então meu próximo precisa de mim! Jesus não apenas habita em nós mas nos ordena que façamos o bem em seu nome. A Palavra de Deus é clara: "Pensem nisto, pois: Quem sabe que deve fazer o bem e não o faz, comete pecado." (Tiago 4:17 -- NVI).

A encarnação do verbo

O apóstolo João nos conta que Jesus é o verbo eterno ("a Palavra") que se fez carne e andou entre nós. Uma visão muito interessante da encarnação nos foi dada por meio de uma parábola contada por Atanásio, que foi bispo de Alexandria no século IV e um dos mais importantes teólogos da Igreja oriental. O teor dessa parábola que passamos a narrar foi extraído do livro Uma ortodoxia generosa, de Brian McLaren (Editora Palavra).

Era uma vez um rei bondoso que tinha um grande reino. Numa das cidades desse reino, algumas pessoas se aproveitaram da liberdade dada pelo rei e começaram a fazer o que era mau. Temendo que o rei as punisse, passaram a odiá-lo. As pessoas rebeldes convenceram as demais que todos se dariam melhor sem o monarca. Assim, a cidade declarou sua independência do reino. Todos passaram a fazer o que queriam e a desordem imperou na cidade. Havia violência, ódio, mentira, opressão, assassinatos, estupros, escravidão e temor.

Ao invés de levar seus exércitos para reconquistar a cidade à força, o que causaria mortes e revolta, o rei fez algo surpreendente. Tirou suas vestes e, disfarçado como uma pessoa humilde, passou a morar na cidade, onde consertava vasos e móveis quebrados. Sempre que as pessoas vinham até ele, sua bondade, ternura, justiça e respeito eram tão impactantes que elas retardavam suas partidas só para ficarem em sua presença. Contavam a ele seus temores e questionamentos, pedindo seus conselhos. Ele dizia a elas que os rebeldes as haviam enganado e que o verdadeiro rei tinha uma melhor maneira de viver, a qual ele exemplificava e ensinava. Um a um, e depois de dois a dois, e então às centenas, as pessoas começaram a ter confiança nele e viver de seu modo.

O movimento cresceu até que toda a cidade lamentou sua rebelião e quis voltar a ser parte do reino novamente. Porém, temiam aproximar-se do rei, achando que ele iria puni-las. Então, o rei revelou sua identidade e contou que as amava. Recebeu-as de braços abertos em seu reino. Por meio de sua presença calma e sutil, ele conseguiu reaver a cidade, o que jamais conseguiria com a força bruta.

Essa bela parábola no revela a maneira pela qual "... Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões" (II Coríntios 5:19).

Na realidade, o propósito divino é o de que nós continuemos a fazer, neste mundo, o que Jesus fez enquanto andou por aqui. Nós temos nos concentrado bastante do que Jesus fez pela humanidade com sua morte e ressurreição. Mas também precisamos nos atentar para o que Ele fez em sua caminhada terrena. Ele trouxe alívio para muitos, alguns dos quais nem chegaram a crer nEle. Prova disso é o episódio em que dez leprosos foram curados, mas apenas um foi declarado salvo pelo Senhor (Lucas 17:11-19).

"Então, enquanto temos oportunidade, façamos bem a todos, mas principamente aos domésticos da fé" (Gálatas 6:10). Quando fazemos o bem a todos, os homens vêem nossas boas obras e dão glórias a Deus. Nossa luz resplandecerá quando, por meio do Espírito Santo que em nós habita: curarmos enfermos ou expulsarmos demônios em nome de Jesus; abrigarmos órfãos em nome de Jesus; alimentarmos pobres em nome de Jesus; alfabetizarmos adultos em nome de Jesus. Por tudo isso, os homens darão glórias a Deus. Assim, estaremos reestabelecendo o reino de Deus no mundo, como agentes da reconciliação, mostrando ao mundo nossa fé, por meio de nossas boas obras.

Para encerrar, discutamos essa questão: que igreja tem o evangelismo mais eficaz: uma que prioriza a pregação do evangelho mas não pratica o sermão do monte, ou uma que inclui a pregação entre as muitas boas obras a serem praticadas?

"Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus antes preparou para que andássemos nelas" (Efésios 2:10)

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