igreja nas casas

imagem de Flávio Cardoso

Tradições

5  interpelaram-no os fariseus e os escribas: Por que não andam os teus discípulos de conformidade com a tradição dos anciãos, mas comem com as mãos por lavar?
6  Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.
7  E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.
8  Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens.
9  E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição.

(MARCOS 7:5-9)

Em matéria de religião, é impressionante a nossa tendência a sacralizarmos tradições. Afinal, todos somos iniciados na caminhada religiosa devido a influência de alguém que já estava nesta caminhada antes de nós. Então, nada mais natural que imitemos as práticas e assimilemos as ideias desse que nos apresentou à fé, o qual, por sua vez, também imita a conduta de seus antecessores, e assim por diante.

Por vezes, alguns desses antecessores introduziram novidades na religião, por sofrerem influências de diversas naturezas: culturais, sociais, filosóficas, científicas etc. Mas os seus descendentes na fé não percebem que são novidades; imaginam que a religião sempre foi desse jeito desde sua origem e continuam a propagá-la com as alterações impostas. Assim surgem as tradições. Podemos dizer que esse é um mecanismo natural de evolução das religiões, incluindo o cristianismo.

Muitas dessas tradições são inofensivas. Outras, porém, representam transgressão aos mandamentos do próprio Deus. Boa parte do ministério terreno de Jesus foi dedicado a questionar e combater o complexo sistema de tradições rabínicas que os judeus haviam construído para interpretar a Bíblia. O texto que transcrevemos no início mostra esse embate entre Deus e as tradições religiosas. As tradições dos judeus interpretavam as Escrituras de uma maneira ofensiva a Deus: enfatizavam as atitudes exteriores e negligenciavam as interiores, tais como o amor e a misericórdia. A Lei tornou-se mais importante que as intenções e a essência do Legislador: o próprio Deus.

As tradições são inevitáveis, mas não podem se tornar mais importantes do que o projeto de Deus para a Igreja. Quando isso acontece, o Espírito de Deus intervém na Igreja, forçando uma mudança nas tradições. E muitos resistem a essas mudanças, o que as torna traumáticas.

As Escrituras nos mostram um claro exemplo disso. A Igreja Primitiva, em Jerusalém, conservava muitas tradições judaicas. Por exemplo, eles entendiam que a porta da salvação estava aberta apenas para os judeus. Porém, no tempo certo o Espírito começou a modificar essa entendimento tradicional. Quando Jesus se revelou a Saulo de Tarso, já deixou claro que pretendia levar a salvação aos gentios. (Atos 9:15 e 22:21). Depois, Deus confrontou Pedro, fazendo-o ver que Ele não faz acepção de pessoas (Atos 10:34). Com isso, a Igreja de Jerusalém compreendeu que Deus havia concedido também aos gentios o arrependimento para vida (Atos 11:18). Depois do martírio de Estêvão, os discípulos foram dispersos e alguns
deles levaram o evangelho aos gregos, com grande poder (Atos 11:20-21).

Mas sempre existem aqueles que resistem à atuação do Espírito Santo, apegando-se às velhas tradições. De vez em quando, alguns dos cristãos judeus tentavam forçar a barra, dizendo aos gentios convertidos que só poderiam ser salvos se se tornassem judeus (Atos 15:1). Isso gerou uma polêmica tão grande que a Igreja foi forçada a fazer o primeiro Concílio, em Jerusalém, para bater o martelo sobre a questão, rechaçando as ideias judaizantes (Atos 15:1-31). E, ainda assim, essa tendência judaizante parece ter permanecido entre os cristãos judeus, como Paulo narra em sua carta aos Gálatas. Entre a direção do Espírito Santo e as tradições, eles preferiam as tradições.

Para nós, assim como para aqueles judeus, também é muito difícil abandonar algumas das tradições recebidas de nossos ancestrais na fé. Digo "algumas" porque nem todas devem ser abandonadas. Muitas foram estabelecidas a partir do direcionamento do Espírito Santo dado à Igreja em momentos cruciais, quando ela lutava contra heresias e outras ameaças. Tais "tradições do bem" devem ser cultivadas a amadas por todos nós. Os credos são um belo exemplo dessas "tradições do bem". Outro exemplo é a escolha dos livros que seriam incluídos na Bíblia Sagrada, que foi totalmente baseada na tradição.

Um claro exemplo de apego indevido a tradições é o daqueles cristãos que se opõem às manifestações carismáticas do Espírito Santo, por acreditarem que os dons do Espírito (curas, milagres, línguas, profecias etc.) só se manifestavam na época da igreja primitiva. Tapam os olhos para não enxergar que Deus continua fazendo tudo isso na igreja ao lado. Entre a direção do Espírito Santo e as tradições, eles preferem as tradições. Mas não poderão resistir ao Espírito Santo para sempre. Assim como as igrejas dos judaizantes praticamente desapareceram, as dos "anti-carismáticos" também tendem ao desaparecimento.

Tradições versus Grupos de Vida

Nós, que trabalhamos com pequenos grupos, vivenciamos a dificuldade de lutar contra tradições que se opõem silenciosamente aos pequenos grupos. Se convidarmos um irmão da igreja para ir ao cinema, à praia, ao clube ou ao shopping, ele prontamente atende. Mas, quando convidamos para a reunião do GV, as evasivas logo aparecem. O que será que está por trás dessa resistência? Na minha opinião, a tradição é uma grande responsável pela resistência.

Ora, essa pessoa se converteu assim: alguém a convidou para uma reunião no templo e ali ela entregou sua vida a Jesus. Da mesma forma, a pessoa que a convidou também havia se convertido num templo. Todos os ancestrais na fé se converteram assim e, desde sempre, o templo é adotado como local de adoração. Então, as pessoas, conscientemente ou não, acabam se perguntando: se o cristianismo sempre caminhou assim, por meio de reuniões no templo, por que vou aderir a essa novidade de igreja nas casas?

Minha resposta curta e grossa: porque a tradição humana de reuniões apenas no templo é que é inovação, e é contrária ao projeto de Deus para a sua Igreja. Então, não devemos resistir ao Espírito Santo mantendo nossas tradições.

Nos primeiros 6 anos da Igreja primitiva, os cristãos se reuniam todos os dias no pátio do templo dos judeus E de casa em casa:

Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, (Atos 2:46)

Todos os dias, no templo e de casa em casa, não deixavam de ensinar e proclamar que Jesus é o Cristo. (Atos 5:42)

Mas essa tendência ao agrupamento no pátio do templo durou pouco. Depois da perseguição desencadeada com a morte de Estêvão, TODOS, exceto os apóstolos, foram dispersos. Assim terminou a curta era bíblia das reuniões no pátio do templo. Ou seja, o único tipo de reunião da igreja passou a ser nas casas. Poucos anos depois, em 70DC, os romanos destruíram definitivamente aquele templo. Mas isso não afetou em nada a Igreja, pois ela não dependia dele.

E assim foi até o ano 327DC, quando o imperador Constantino, após a sua conversão ao cristianismo, construiu o primeiro templo cristão, às custas de recursos públicos e seguindo o mesmo padrão arquitetônico dos templos pagãos e das basílicas gregas e romanas. De la para cá, os cristãos se acostumaram com os templos. A adoração em templos, que era tradição restrita aos pagãos, tornou-se também uma tradição cristã. Quem se converte hoje, imagina que isso sempre foi assim e resiste a qualquer mudança de paradigma.

Será este um exemplo de "tradição do bem", inofensiva? 

Penso que não, pois o aquartelamento da igreja em templos traz muitas consequências indesejáveis:

  • reduz o ímpeto missionário: o crente acha que sua obrigação é apenas frequentar os cultos. Ganhar almas, curar enfermos, expulsar demônios etc. é trabalho apenas para os pastores;
  • dificulta o desenvolvimento dos ministérios: um fenômeno comum em igrejas aquarteladas é que só 10% a 15% dos membros se envolvem em alguma atividade na igreja. Os demais, esquentam banco;
  • adoece o Corpo de Cristo: se a maior parte dos membros do Corpo não desempenha nenhuma função, é óbvio que o Corpo está doente;
  • impede a comunhão: as reuniões nos templos não permitem que os cristãos se conheçam, se amem, se ajudem, se exortem, se consolem, chorem e sorriam juntos, orem uns pelos outros. Não há como cumprir os mandamentos recíprocos.

Então, a conclusão é óbvia. Essa a tradição do aquartelamento da igreja é contrário aos propósitos de Deus para sua Igreja.

O problema não está em nos reunirmos nos templos. O problema está em nos reunirmos SOMENTE nos templos. Enquanto tivermos templos para nos reunir, reunâmo-nos! Mas JAMAIS nos conformemos com apenas isso. É fundamental que nos envolvamos com pequenos grupos se quisermos experimentar um outro nível de vida cristã.

Então, se você faz parte de um Grupo de Vida, não desanime! Você faz parte de um movimento santo, divino, de resgate do projeto original de Igreja. Fique firme, deixe sua pequena luz brilhar. Desenvolva plenamente seu ministério, desempenhando sua função no Corpo de Cristo. Traga seus vizinhos, amigos e familiares para Cristo. Cumpra a grande comissão.

Por outro lado, se você ainda não faz parte de um pequeno grupo, sugiro que você dobre seus joelhos na presença de Deus e reavalie sua vida cristã. É muito provável que esteja "jeitosamente rejeitando o preceito de Deus para guardar a sua própria tradição".

 


 

Temas para debate

  1. Como vimos no texto, os cristãos nutrem certas tradições religiosas que parecem militar contra o Espírito Santo. Falamos de duas delas: a dos “anti-carismáticos” e a do “aquartelamento da igreja”. Mas há outras. Por exemplo os usos e costumes, a rigidez litúrgica, a ideia de que os pastores detêm algum tipo de acesso privilegiado a Deus etc. Discuta sobre os efeitos que essas tradições provocam sobre a Igreja, para tentar identificar se elas são boas ou más.
  2. Falamos sobre a tradição do aquartelamento, que se opõe ao desenvolvimento dos pequenos grupos. De que maneiras o Grupo de Vida poderia tentar quebrar essa tradição? Que maneiras criativas podem ser utilizadas para atrair os cristãos que evitam os pequenos grupos?

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