vida cristã

imagem de Flávio Cardoso

Instrumentos de Deus

"Quem quer ser um instrumento nas mãos de Deus?" Se fizermos uma pergunta como esta no meio de uma igreja lotada, logo veremos que quase todas as mãos serão levantadas. Mas, será que nosso povo realmente entende o que está sendo perguntado? E por que muitos jamais nos tornamos tais instrumentos?

Imagine-se chegando numa escola de ensino médio e fazendo uma pergunta parecida a uma multidão de adolescentes: "Quem deseja ser, no futuro, um profissional de sucesso?" Acho que a maior parte levantará a mão. Creio que a motivação que leva esses adolescentes a acenarem é a mesma que leva os crentes a quererem ser instrumentos de Deus. Mas são coisas radicalmente diferentes.

As perguntas feitas na igreja e na escola têm a ver com o sucesso na vida espiritual e material, respectivamente. O sucesso espiritual e o material dependem de uma coisa em comum: o sacrifício. Mas são sacrifícios diferentes.

Para tornar-se um profissional bem sucedido, o estudante terá que estudar muito, sacrificando coisas que gosta: horas de lazer, esportes, sono, relacionamentos etc. Enfim, terá que dizer "não" para muitas coisas que deseja. Esse é o preço a ser pago pelo sucesso material. E os homens aceitam pagá-lo, por almejarem a própria glória, no futuro.

O cristão, por sua vez, só se tornará um instrumento útil nas mãos de Deus se, a cada dia, oferecer-se a si mesmo em sacrifício:

Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês. Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.
(Romanos 12:1-2)

Então, o Cristão não renunciará apenas certas coisas de que gosta, mas também os seus próprios gostos, sempre que eles forem contrários à vontade de Deus. Renunciará seu próprio ego, seus desejos naturais de ser admirado, de ser notado, de ser temido, de estar no controle das situações. Receberá com alegria as situações adversas que o retirem da zona de conforto, levando-o a reconhecer sua fraqueza e incapacidade.

O texto abaixo, de Watchman Nee, ilustra bem o que estamos dizendo:

Pela fé Jacó (...), apoiado sobre a extremidade do seu bordão, adorou. (Hebreus 11:21)

O fato de o escritor do Novo Testamento ter escolhido este sinal de visível fraqueza para descrever a fé de Jacó é algo que nos chama a atenção. Peniel, com seu divino toque que deixou Jacó coxo, de fato levara a cabo o suplantador com toda sua energia natural superabundante. Em seu lugar, surge agora este maravilhoso príncipe de Deus -- e adora.

Certo dia, enquanto jantava com um jovem irmão a quem o Senhor vinha falando sobre esta questão de nossa energia natural, ele me disse: "É uma bênção quando sabemos que o Senhor veio ao nosso encontro para tratar conosco de uma forma especial e que recebemos este toque que nos deixa incapacitados". Um prato de pãezinhos sobre a mesa separava-nos. Peguei um pãozinho e o parti ao meio, como se fosse comê-lo. Em seguida, tornei a juntar com cuidado as duas partes e disse: "Parece que ficou bom, mas ele jamais será o mesmo, não é? Uma vez dobrada nossa cerviz, sempre nos renderemos ao menor toque de Deus".

O sucesso espiritual do cristão depende desse "toque incapacitante" de Deus. Deus deseja fazer muitas coisas por nosso intermédio. Mas, para isso, Ele precisa impedir que nós mesmos tentemos fazer as coisas. É desse "toque incapacitante" que Paulo nos fala nesses versos:

Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte. (II Coríntios 12:10)

Talvez seja por isso que muitos não conseguimos ser instrumentos nas mãos de Deus. Quando lemos sobre os grandes homens de Deus do passado, imaginamos que eram como super-heróis, cheios de poderes sobrenaturais. Achamos que o poder de Deus neles era como o anel do Lanterna Verde: basta colocar o anel, que fica poderoso. Então, ficamos mostrando o dedinho pra Deus, pedindo que Ele seja como esse anel. Queremos que Deus acrescente o seu poder à nossa vida.

Mas o poder de Deus não é ACRESCENTADO À NOSSA VIDA humana. Ele é manifestado à medida em que abrimos mão do direito de viver nossa vida, para que Cristo viva em nós. Ele acompanha a natureza divina, da qual nos tornamos participantes, e que se manifesta à medida em que mortificamos nossa velha natureza humana. Então, podemos dizer que o poder de Deus se manifesta a medida em que "não mais vivemos nós, mas Cristo vive em nós" (Gálatas 2:20).

O verdadeiro instrumento nas mãos de Deus sempre sentirá sua total incapacidade, fraqueza, pecado e inutilidade. Os demais homens, que não conhecem a Deus, verão esse instrumento andando por sobre as águas, curando cegos, sendo teletransportado, ressuscitando mortos e imaginarão que ele se sente muito poderoso, quando na verdade ele se sente um traste. Por isso mesmo o homem de Deus jamais aceitará qualquer honra, pois sabe perfeitamente que não é nada.

Ao mesmo tempo em que sentirá cada vez mais a fraqueza de sua natureza humana, o instrumento de Deus não se entristecerá. Ao contrário, desejará aprofundar cada vez mais o processo, pois experimentará mais e mais do poder, do amor, da alegria e da paz de Deus, que jamais terão fim. Quando olha para si, ele só vê pecado, vergonha e fraqueza. Por isso é que ele gasta muito mais tempo olhado para Deus do que para si mesmo. Então, pode dizer, como Paulo:

Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo... (II Coríntios 2:14-15a)


Perguntas para reflexão nos GVs

  1. Você realmente quer ser um instrumento nas mãos de Deus? Existe algo que tem impedido esse processo na sua vida?
  2. O que é preciso fazer para experimentar o poder de Deus na sua vida?
  3. Talvez você tenha experimentado, ou esteja experimentando, na sua vida, uma situação que você possa classificar como um "toque incapacitante" de Deus. Como você reagiu a ela?

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