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imagem de Flávio Cardoso

Cuidado com os "chiboletes"

Chiboletes?

"5  Os gileaditas tomaram as passagens do Jordão que conduziam a Efraim. Sempre que um fugitivo de Efraim dizia: "Deixem-me atravessar", os homens de Gileade perguntavam: "Você é efraimita?" Se respondesse que não,
6  diziam "Então diga: ‘Chibolete’ ". Se ele dissesse: "Sibolete", sem conseguir pronunciar corretamente a palavra, prendiam-no e matavam-no no lugar de passagem do Jordão. Quarenta e dois mil efraimitas foram mortos naquela ocasião." (Juízes 12:5-6)

Essa é uma das passagens que considero mais tristes na Bíblia. Para entendê-la melhor, leiam os capítulos 11 e 12 do livro de Juízes.

As doze tribos de Israel haviam saído do Egito, passado 40 anos vagando no deserto e, finalmente, depois de muitas guerras, conseguiram tomar posse da Terra Prometida. Cada tribo ocupou seu território e, com o passar do tempo, elas foram perdendo o contato com as demais. Os sotaques tornaram-se diferentes. É como se cada tribo tivesse se tornado um país diferente e, em certas ocasiões, consideravam os israelitas das outras tribos como estrangeiros e até como inimigos. Eles passaram a realçar as diferenças entre eles, esquecendo-se de tudo o que tinham em comum: os ancestrais, a língua, os inimigos e, principalmente, o mesmo Deus.

A palavra "chibolete" significava, simplesmente, "ramo" ou "espiga". Não havia nada relevante ou ofensivo em seu significado. Ela foi usada apenas para identificar os da tribo de Efraim, simplesmente porque eles não conseguiam pronunciá-la da mesma forma que os gileaditas, da tribo de Manassés, devido ao sotaque. "Chibolete", uma palavra sem nenhuma importância, foi a senha utilizada para assassinar 42 mil irmãos. É como se nós, de Brasília, resolvêssemos matar os goianos que, ao tentar falar "porta", acabam falando "poita". Um absurdo!

Ao lermos essa história, ficamos estarrecidos. Mas, se pensarmos bem na realidade da Igreja cristã, veremos que muitos "chiboletes" vêm sendo usados para esquartejar o Corpo de Cristo. É só parar para contar quantas denominações evangélicas existem no mundo. Alguém já contou mais de duas mil. Curiosamente, sabem o que elas têm em comum? Cada qual considera que só ela sabe interpretar a Bíblia corretamente. Mas, quando paramos para analisar quais foram as interpretações bíblicas peculiares que levaram homens de Deus a criar essas denominações, percebemos que tudo não passa de "chiboletes": coisas irrelevantes, utilizadas apenas para separar. Por exemplo:

  • alguns acham que é certo batizar crianças, outros que é errado;
  • alguns acham que o certo é batizar por imersão, outros preferem aspersão;
  • alguns acham que, entre a morte e a ressurreição, a alma fica dormindo. Outros acham que ela vai para um paraíso;
  • alguns acham que o universo foi criado em 6 dias de 24 horas. Outros acham que esse período, citado na Bíblia, é uma linguagem figurada;
  • alguns acham que o arrebatamento é antes da grande tribulação. Outros acham que é depois. Boa parte acha que não haverá arrebatamento. Outros pensam que a tribulação já passou e que nós já estamos no milênio. E por aí vai...

Haja "chibolete"! Qualquer mínima divergência de interpretação bíblica, sem nenhuma importância vital, é motivo pra abandonar a comunhão e frustrar o sonho de Jesus Cristo:

Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. João 17:21

E o pior: não só as divergências doutrinárias fúteis são usadas como chiboletes, mas também uma futilidade ainda maior: a disputa pelo poder político e econômico. Talvez muitos líderes evangélicos discordem de mim; mas, na minha opinião, todas as divisões que aconteceram na Igreja cristã posteriores ao século VII DC podem ser atribuídas a "chiboletes" e disputas de poder; normalmente, uma combinação de ambos.

Talvez você me pergunte: mas, será que todas as divergências doutrinárias são meros "chiboletes"? Minha resposta é NÃO. Há certas doutrinas que realmente são fronteiras necessárias para distinguir entre cristãos e não-cristãos. Todavia, estou cada vez mais convencido que esse conjunto de doutrinas é muito, muito pequeno. Ao final dessa reflexão, apresento a minha resposta pessoal para essa pergunta.

Os "chiboletes" na Igreja Primitiva

Quando Paulo escreveu aos cristãos de Roma, ele alertou para alguns "chiboletes" doutrinários (Romanos 14). Havia cristãos que acreditavam ser pecado comer carne, pois elas eram sacrificadas aos ídolos antes mesmo de serem vendidas nos açougues. Outros, que eram mais fortes na fé, não estavam nem aí e "caíam de boca" na picanha. Os que não comiam julgavam os "carnívoros". Estes, por sua vez, desprezavam os "vegetarianos". Neste caso, o "chibolete" era comer carne.

Prosseguindo, Paulo fala de outro "chibolete": considerar que alguns dias eram mais sagrados do que outros. Os que consideravam que todos os dias são iguais desprezavam os achavam certos dias mais sagrados. Já estes julgavam os que não guardavam dias sagrados.

Vejam a solução que Paulo deu para o problema, no capítulo 14 de Romanos:

  1. ninguém deveria tentar convencer o outro de que a sua opinião era a certa. "Cada um deve estar plenamente convicto em sua própria mente." (v. 5);
  2. ninguém deveria julgar ou desprezar o seu irmão em função de seu "sotaque doutrinário", pois "cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus" (v. 12);
  3. cada um deveria fazer "o propósito de não colocar pedra de tropeço ou obstáculo no caminho do irmão" (v. 13);
  4. para preservar a unidade do Corpo de Cristo, todos deveriam estar dispostos a abrir mão de convicções irrelevantes ("chiboletes"): "seja qual for o seu modo de crer a respeito destas coisas, que isso permaneça entre você e Deus" (v. 22).

A Bíblia nos mostra que havia, na vida da Igreja do tempo dos apóstolos, relevantes divergências doutrinárias. Os cristãos judeus, da palestina, criam na salvação pela fé (Gálatas 2:15-16). Mas, mesmo assim, insistiam em permanecer fieis às leis alimentares e religiosas do judaísmo. Isso incomodou muito o apóstolo Paulo, pois ele entendeu que a atitude dos irmãos judeus era um grave atentado à doutrina da justificação pela fé, tão cara ao apóstolo dos gentios. Essa divergência acabou levando Paulo a discutir com Pedro (Gálatas 2:11-14).

Embora a Bíblia relate o protesto de Paulo contra o comportamento dos irmãos judeus, ela não diz se esse protesto levou a mudanças nos hábitos desses irmãos. Penso que não levou. Mesmo assim, ainda que entendesse que os judeus estavam enfraquecendo a crença na justificação pela fé, Paulo não desistiu de comungar com eles. Ao contrário, as Escrituras nos mostram o apóstolo recolhendo donativos entre os gentios para levá-los aos irmãos de Israel. Apesar das divergências Paulo ainda considerava que os gentios eram devedores aos judeus, por terem participado das bênçãos espirituais deles (Romanos 15:27). Afinal, talvez o apóstolo raciocinasse como o notável teólogo anglicano Richard Hooker (1554-1600):

o homem não é justificado por crer na justificação pela fé, mas por crer em Jesus Cristo.

Há outros exemplos das Escrituras que nos mostram que havia cristãos com crenças bem defeituosas. Apolo era um judeu convertido que pregava o evangelho com grande autoridade, embora não fosse batizado, pois só conhecia o batismo de João (Atos 18:24-28). Os discípulos de Cristo que Paulo encontrou em Éfeso, que, além de não serem batizados, também não sabiam da existência do Espírito Santo (Atos 19:1-6). Mas, nesses dois casos, os cristãos que possuíam mais entendimento trataram de se aproximar, abençoar e esclarecer os mais fracos, que acabaram se tornando bênção para o Corpo de Cristo. Hoje, muitos optariam por excluí-los da comunhão.

Os "chiboletes" e os Grupos de Vida

Os Grupos de Vida são a linha de frente da Igreja. Nas suas reuniões, é comum aparecerem cristãos de diferentes confissões, com diferentes "sotaques doutrinários", com suas próprias manias. Tenham cuidado para não transformar essas peculiaridades em "chiboletes" que acabarão afastando esses irmãos da comunhão. Tenham sempre em mente o lema proposto pelo teólogo luterano Rupertus Meldenius (1582-1651):

"Nas coisas essenciais, unidade. Nas não-essenciais (duvidosas), liberdade. Em tudo, o amor."

Mas, quais são as coisas realmente essenciais? Essa não é uma pergunta fácil. Há muitas respostas possíveis. Quanto mais estudo sobre o assunto, mais me convenço de que as coisas essenciais são bem poucas. Querem saber a minha resposta atual para esta pergunta? Leiam a página "Em que cremos", do nosso site.

 


Para refletirmos

  1. Em 1 Coríntios 3:1-6, vemos Paulo tratando o problema dos "chiboletes" na igreja em Corinto. Leiam o texto e conversem sobre o assunto.
  2. Para nos dedicarmos à comunhão com outros cristãos, precisamos nos esforçar para minimizar as diferenças doutrinárias. Isso quer dizer que precisamos abrir mão de nossas próprias convicções doutrinárias? Ou seja, temos que desistir de nossa própria interpretação das Escrituras?
  3. Com base em 1 Coríntios 11:18-20, que tipo de Igreja é a melhor: aquela em que todos concordam com tudo, ou aquela em que há discordância?
  4. Infelizmente, por mais tolerantes que sejamos, não podemos comungar com todas as pessoas que se declaram "cristãs". Nem todas aceitam o credo Niceno-Constantinopolitano, que mencionamos na página "Em que cremos". Com base nesse credo, você consegue ver quais desses "cristãos" somos obrigados a excluir da comunhão?

Se tiverem dúvidas, usem os comentários abaixo. Terei prazer em responder.

 

Flávio Cardoso
Pastor da Igreja de Nova Vida do Guará

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