comunhão

Comunhão dos santos

Texto para Leitura: I Coríntios 12:4-27

Temos discutido nas últimas semanas sobre o que seja a Igreja, trazendo conceitos novos para alguns, mas verdadeiros desde os primórdios de nossa história e esquecidos pela maioria dos cristãos atuais. Em nossas reflexões, afirmamos que a Igreja “não existe à parte dos irmãos. Ela é um organismo vivo: o Corpo místico de Cristo, formado por bilhões de membros espalhados por toda parte e por todas as épocas”.

Em nossa reflexão de hoje, vamos ampliar esse conceito, discutindo a aplicação prática do que seja a Comunhão dos Santos, a estratégia criada por Deus para preservação de sua Igreja ao longo dos muitos períodos de tribulação, perseguição e apostasia por que passou, como o que vivemos nos dias atuais.

O Espírito é o mesmo

O texto indicado para leitura é a principal referência nas escrituras a respeitos dos dons espirituais. Quantas vezes já não ouvimos pregações e estudos sobre esse ensinamento do Apóstolo Paulo, principalmente os que congregam em denominações pentecostais, como a nossa. E sempre tendemos a lê-lo sob o aspecto da dádiva de Deus para o cristão individual; focamos nossa atenção no versículo 30, em que Paulo exorta: “busquem com dedicação os melhores dons”, e nos colocamos a almejar receber de Deus um dom especial, que nos confira posição de destaque na Igreja: palavra de conhecimento, muito valorizado por aqueles irmãos que não vivem sem um prognóstico sobre a benção especial que está para chegar em sua vida; dons de curar, essenciais para quem deseja ministério evangelístico de impacto, e por aí vai. Enfim, tendemos a olhar esse texto sob a ótica da operação divina em nossa individualidade, em como devemos proceder para sermos cristãos melhores, mais operantes e usados no seio da Igreja.

Essa visão, embora não de todo incorreta, não representa adequadamente o verdadeiro ensinamento que o Senhor quis trazer à Igreja de Corinto através de Paulo. Uma leitura mais atenta e perceberemos que os Cristãos de Corinto já conheciam as diversas formas de manifestação do Espírito e já a praticavam à sua maneira. Paulo enfatiza, no entanto, que a operação dos dons espirituais só faz sentido se ocorrer no exercício da vida cotidiana da Igreja. Notem quantas vezes Paulo repete a expressão “o Espírito é o mesmo”, ou similares:

  • Versículo 4: “o Espírito é o mesmo”;
  • Versículo 5: “o Senhor é o mesmo”;
  • Versículo 6: “é o mesmo Deus”;
  • Versículo 8: “Pelo Espírito” e “pelo mesmo Espírito”;
  • Versículo 9: “pelo mesmo Espírito” e “pelo único Espírito”;
  • Versículo 11: “pelo mesmo e único Espírito”;
  • Versículo 13: “em um único Espírito” e “um único Espírito”.

Como se vê, a ênfase deve ser concentrada não nos dons em si, e seu uso pelos cristãos, mas na poderosa verdade de que todos compartilhamos um único Espírito, o Espírito Santo que dá vida ao corpo místico de Cristo. A operação das manifestações do Espírito está para Igreja, assim como os diversos processos orgânicos estão para o nosso corpo físico, tais como a digestão, a circulação sanguínea, a sudorese, etc. Em síntese, são vitais para manutenção da vida, mas nada significam fora do contexto de corpo.

Uma estratégia para Igreja dos dias de hoje

Vemos exemplos claros da Igreja em operação por intermédio da Comunhão dos Santos nos primórdios de sua história. No livro de Atos, destacamos dois exemplos esclarecedores. O primeiro em Atos 2:42-44:

“Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum.”

Outra passagem de grande relevância, em Atos 12:5-7. Pedro acabara de ser levado preso e sua execução era iminente, haja vista que Tiago já havia sido executado:

“Pedro, então, ficou detido na prisão, mas a Igreja orava intensamente a Deus por ele. Na noite anterior ao dia em que Herodes iria submetê-lo a julgamento, Pedro estava dormindo entre dois soldados, preso com duas algemas, e sentinelas montavam guarda à entrada do cárcere. Repentinamente apareceu um anjo do Senhor, e uma luz brilhou na cela. Ele tocou no lado de Pedro e o acordou. ‘Depressa, levante-se!’, disse ele. Então as algemas Caíram dos punhos de Pedro.”

Notem que a Igreja entendia perfeitamente seu papel, a estratégia para fazer mover a situação no mundo espiritual. Eles não se mobilizaram para exigir seus direitos de um julgamento justo para Pedro, não se organizaram para tentar eleger um senador que os representasse no Senado Romano, nada disso. “Apenas” utilizaram a estratégia que Deus lhes havia dado para auto-defesa, preservação e expansão do Corpo de Cristo: praticaram a Comunhão dos Santos.

Ao longo do tempo, entretanto, esse poderoso entendimento da forma de manifestação do Espírito Santo em sua Igreja foi sendo distorcido. Ao considerar que o Corpo Místico de Cristo é formado por irmãos de todas as épocas, mesmo aqueles já mortos em Cristo, o que é uma verdade, considerou a Igreja que esses irmãos possuem posição privilegiada, mais perto de Deus e, portanto, com melhores possibilidades de intercederem pelos vivos. Dessa forma, a Igreja modificou e reduziu o conceito original, traduzindo-o pela súplica aos santos mortos em Cristo que atuariam como intermediários entre os vivos e Deus, o que contraria as Escrituras (vide I Timóteo 2:5).

Reagindo a essa modificação do conceito original, nossos irmãos reformadores jogaram o bebê fora junto com a água do banho: reduziram ainda mais o conceito de Comunhão dos Santos, passando a ser apenas um sinônimo de igreja local. Passou-se então a privilegiar uma postura mais individualista no trato com Deus, fortalecendo-se o conceito de “Igreja pessoa jurídica”, explorada nas reflexões anteriores.

Mas a Comunhão dos Santos é muito mais do que apenas um outro nome para Igreja. É a Igreja em movimento. É a Igreja em operação. É por intermédio dessa Comunhão que a Igreja prevalece contra o inferno. É por meio dela que o Espírito Santo se manifesta em sua multiforme sabedoria. É por meio dela que nos lembramos de nossos irmãos, e sentimos urgência de orarmos por eles justamente no momento de sua maior dificuldade ou perigo. É por meio dela que podemos mudar situações impossíveis no mundo espiritual, como aquelas que ameaçam a Igreja nos dias de hoje, com riscos de perseguição e, pior ainda, apostasia e conformidade com o pecado.

Irmãos, não se enganem: Deus escolheu se relacionar com seus filhos por meio da Igreja em comunhão. Não tenho uma explicação do porquê Ele não preferiu se relacionar individualmente com cada um de nós, mas o fato é que Ele, em sua infinita sabedoria, decidiu que assim seria. Por essa razão não é admissível situação cada vez mais corriqueira, em que cristãos parecem crer que a igreja não é mais que um grupo de apoio opcional para quem precisa dela, ou uma ferramenta de evangelismo para ganhar pessoas para Cristo. Não, a Comunhão dos Santos não é opcional. É a única forma de nos mantermos parte integrante do Corpo de Cristo e fora dessa comunhão não há possibilidade de relacionamento com Deus, em primeiro plano, e de salvação num enfoque mais amplo.

Por outro lado, essa é a estratégia que Deus nos deu para sobrevivência e crescimento. Precisamos ter em mente que, ao longo de nossa história passamos por momentos terríveis de declínio espiritual – mesmo em situações de crescimento numérico – quando decidimos utilizar outras estratégias para auto-defesa:

  • no passado, após conversão do cristianismo em religião oficial do Império Romano e conseqüente politização da Igreja, experimentamos a maior decadência espiritual de nossa história, com prostituição da Igreja com idolatria, comércio de indulgências, assassinatos na inquisição, etc.
  • no presente, quando buscamos utilizar ferramentas de marketing empresarial, contratação de consultorias para alavancar crescimento numérico, ou nos mobilizamos para elegermos representantes políticos para defenderem nossos interesses nas esferas seculares de poder.

Seja como for, ao abdicarmos das ferramentas que Deus nos deu para nosso sustento e crescimento, estaremos assinando nossa sentença de morte espiritual; ao nos dedicarmos “ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações”, estaremos caminhando para o nosso alvo estabelecido por Deus, e poderemos resistir a todas as crises, perseguições e tribulações que se colocarem em nosso caminho.

Perguntas para reflexão

  1. Diante das ameaças recentes por que a Igreja atual vem passando, como o projeto de lei contra homofobia, por exemplo, o que você acha que seria mais eficaz: reunir um milhão de assinaturas para tentar barrar tais iniciativas no Congresso Nacional, ou reunir um milhão de pares de joelhos dispostos a se dobrarem clamarem pela intervenção divina?
  2. Em sua opinião, quais as chances de sobrevivência de uma igreja local que, ao identificar que passa por uma grave crise e declínio numérico sem precedentes, decide contratar uma consultoria para rever seu planejamento estratégico, realinhar e otimizar os potenciais de recursos humanos e logísticos, simplificar as agendas dos líderes, implementar uma reengenharia (com ou sem downsizing e outsourcing) entre outras estratégias aplicáveis a qualquer organização civil, com ou sem fins lucrativos, ao invés de conclamar seus membros remanescentes a orarem, jejuarem e se consagrarem, e de fortalecer o ensino da Palavra a tempo e fora de tempo?
  3. Como você acha que pode praticar a Comunhão dos Santos durante a semana, nos momentos em que não estiver reunido com os irmãos do Grupo de Vida?

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