adoração

imagem de Flávio Cardoso

A nuvem do crer

34 Enquanto assim falava, veio uma nuvem e os envolveu; e encheram-se de medo ao entrarem na nuvem. (Lucas 9:34)

A Bíblia nos traz alguns exemplos em que a manifestação de Deus é ocultada por uma nuvem. E essa nuvem causa medo nos homens. Veja o que aconteceu com os israelitas no Monte Sinai (Êxodo 20:18-21):

18  Todo o povo presenciou os trovões, e os relâmpagos, e o clangor da trombeta, e o monte fumegante; e o povo, observando, se estremeceu e ficou de longe.
19  Disseram a Moisés: Fala-nos tu, e te ouviremos; porém não fale Deus conosco, para que não morramos.
20  Respondeu Moisés ao povo: Não temais; Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis.
21  O povo estava de longe, em pé; Moisés, porém, se chegou à nuvem escura onde Deus estava.

Mas, que nuvem é essa? Por que ela incomoda tanto? Devemos evitá-la? Bem, meditemos sobre tais perguntas.

Que nuvem é essa?

A Bíblia deixa claro que Deus não pode ser visto pelos mortais. Por isso, quando se aproximava dos homens Ele providenciava essa nuvem que ocultava sua face, para os proteger. Então, os homens estavam na presença de Deus, mas completamente cegados pela nuvem.

Em minha última passagem pelo Rio de Janeiro, levei minha família para visitar o Cristo Redentor, com o intuito de apreciar aquela magnífica paisagem da capital carioca. Mas, quando nos aproximamos do Monumento, percebemos que as nuvens estavam tão baixas que o cobriam, impedindo completamente que enxergássemos a paisagem. Sabíamos que a paisagem estava lá, magnífica como sempre. Mas não podíamos contemplá-la.

O tipo de nuvem fisicamente visível que se manifesta em revelações divinas, mencionada em episódios bíblicos, muito raramente aparece em nossos dias. Mas ela é uma metáfora, um símbolo perfeito, de um outro tipo de "nuvem" que sempre envolve o nosso Deus. Não é uma nuvem física, e sim uma "nuvem do não-pensar, do não-saber, do não-entender". Talvez, pudéssemos apenas chamá-la de "nuvem do crer".

Nossa mente é incapaz de entender a essência de Deus. Não podemos defini-lo e nem descrevê-lo da maneira como Ele realmente é. Eventualmente, Ele se revela de alguma forma que possamos compreender: como uma luz, como um vento, como uma voz. Mas essas manifestações não correspondem à sua essência. Nosso Deus não pode ser descrito e nem pensado. Só pode ser amado.

Então, perdem tempo os que tentam se aproximar de Deus por meio do intelecto, estudando-o. Quem deseja conhecer a Deus precisa amá-lo.

Mas, como amar O que não se pode ver e nem compreender? Mediante a fé. Por meio da nossa fé, sabemos que Ele está diante de nós, esperando receber nosso amor, nossa adoração. Pela fé, o cristão sabe que faz parte Cristo, e que isso alegra o Seu coração. Pela fé, sabemos que chegamos "ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembléia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados, e a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores ao que fala o próprio Abel" (Hebreus 12:22-24). Pela fé, nos apropriamos dessa realidade. Fé é a apreensão da realidade que não pode ser vista, nem compreendida.

"Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem. (...) é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe..." (Hebreus 11:1,6)

Enquanto desfrutamos da presença de Deus, contemplando-o por meio da nossa fé e enviando a Ele nossos impulsos de amor, nossos 5 sentidos normalmente se tornam inúteis, e é exatamente assim que devem permanecer, se quisermos adorar a Deus em Espírito e em Verdade.

Nossos momentos de intimidade com o Pai dependem unicamente de nossa fé. Não devemos ficar frustrados por não podermos vê-lO com nossos olhos ou senti-lO com nossas emoções. Eventualmente, Ele até nos concede a graça de sentirmos sua presença. Mas isso não depende de nós. Nossa propósito deve ser apenas o de contemplá-lo por meio de nossa fé. Para tanto, basta estufar o peito e dizer: "eu não sei, eu não vejo, eu não sinto; mas EU CREIO".

Não apenas os sentidos são inúteis, mas também os pensamentos. Enquanto contemplamos a Deus, alguns pensamentos podem nos ocorrer. Fatos do dia a dia, lembranças de pessoas ou de coisas, ou até mesmo pensamentos acerca de Deus, sua sabedoria, sua misericórdia etc. Tais pensamentos, entretanto, retiram nossa atenção do Alvo da nossa adoração. São embaraços que nos impedem de olhar para Nosso Senhor

 

Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé. Ele, pela alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, desprezando a vergonha, e assentou-se à direita do trono de Deus.
(Hebreus 12:1-2)

Se quisermos amar a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma e de todo o nosso entendimento, precisamos entrar na "nuvem do não-pensar, do não-saber, do não-entender, do crer" e, de dentro dessa nuvem, enviarmos nossos impulsos de amor ao Deus Trino.

Por que a nuvem incomoda?

Por causa da opção feita por nosso primeiro pai. Adão tinha, diante de si, duas opções. A primeira era comer da árvore da vida e passar a viver eternamente conectado a Deus, dependente de Deus, participante de Sua natureza divina. A segunda era comer da árvore do conhecimento, a qual o tornaria o seu próprio deus, independente do Eterno. Adão escolheu a segunda opção.

Desde então, a sede de conhecimento, de compreensão, de entendimento, seduz o homem. Ele deseja explicar tudo. Essa sede faz parte de nossa natureza humana decaída. Por isso, a "nuvem do crer" é desconfortável. Nossa velha natureza não aceita parar de pensar para simplesmente amar o Impensável.

Portanto, permanecer na "nuvem do crer" é um exercício de auto-negação. É tomar a cruz e fazer morrer nossa velha natureza.

"38  todavia, o meu justo viverá pela fé; e: Se retroceder, nele não se compraz a minha alma.
39  Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma."
(Hebreus 10:38-39)

Corra para a nuvem!

Como lemos no início dessa reflexão, a nuvem de Deus faz os homens temerem. Mas nós não devemos temer a "nuvem do crer". Ao contrário, devemos entrar nela diariamente, com ousadia, contemplando e amando nosso Senhor. Fora da nuvem, não podemos adorá-lo em espírito e em verdade.

Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno. (2 Coríntios 4:18, NVI)

Este modesto artigo representa o cerne da rica tradição cristã contemplativa, muito pouco conhecida da maioria dos evangélicos, infelizmente. Temos abordado esse assunto em alguns dos textos publicados nesse site porque entendemos que a Igreja Evangélica precisa despertar para a realidade da contemplação.

É preciso que nos dediquemos diariamente à prática da contemplação. Deus procura por homens e mulheres que o adorem em espírito e em verdade. O apóstolo Paulo afirmou

E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito. (2 Coríntios 3:18)

O apóstolo não estava usando linguagem figurada. Os filhos de Deus podem e devem contemplá-lo. Evidentemente, essa contemplação acontece "como por espelho", espiritualmente, ou seja, pela fé, sem imagens ou pensamentos. Contemplamo-lo a partir da "nuvem do crer".

Experimente introduzir a contemplação em sua rotina devocional. Existem várias maneiras de fazer isso. Vou compartilhar com vocês a minha maneira, construída a partir da sugestão de alguns autores cristãos e da prática.

  1. Sento-me confortavelmente, com as costas eretas, no meu quarto de oração e coloco o alarme do celular para despertar dentro de 25 minutos.
  2. Peço ao Espírito Santo que me conduza ao coração do Pai pois, sem a atuação do Espírito, é impossível chegar lá.
  3. Faço uma oração a Deus me "posicionando" nas regiões celestiais. Ou seja, confessando as coisas importantes em que creio:
    * que sou pecador e indigno mas, pela graça e pelo sangue de Cristo, tenho acesso às regiões celestiais (Hebreus 12);
    * que crucifiquei a carne com suas paixões e desejos (Gálatas 5:24);
    * que estou em Cristo (João 15);
    * que, com o rosto descoberto, estou contemplando a glória de Deus; etc.
  4. A partir desse momento, fico absolutamente imóvel e silencio meus pensamentos. O corpo quieto é necessário para que a mente se aquiete também. Dirijo meu amor a Deus, fazendo com que esse amor irradie do meu coração, do centro do meu ser.
  5. De vez em quando, falo mentalmente uma palavra de amor bem simples, como "Abba", "Deus" ou "Jesus". Você tem liberdade para escolher a sua. O importante é que, ao pronunciá-la mentalmente, você dirija um impulso de amor a Deus, que você não vê, mas crê que está bem diante de você.
  6. Muitas vezes me distraio e começo a pensar em várias coisas. Isso é natural e não deve nos abater. Simplesmente, volte a falar a palavra de amor e disparar impulsos de amor ao Deus que você não vê, mas crê que está bem diante de você. Não permita que nenhuma visão ou imagem permaneça em sua mente. Lembre-se: você está na "nuvem do crer".
  7. Tomo um baita susto quando o celular desperta :(

Depois disso, calmamente pego a Bíblia e medito nas Escrituras. Depois oro pelos irmãos, igreja, família etc.

Sugiro que cada membro do GV faça isso na próxima semana e compartilhe com seus irmãos suas experiências. Com o tempo, você naturalmente modificará o método do Flávio e criará o seu.

E guarde essa dica: só se aprende a contemplar, contemplando.

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