salvação

imagem de Flávio Cardoso

O advento

Existe um conjunto muito pequeno de crenças que considero essenciais aos cristãos. São aquelas acerca das quais podemos dizer: quem não crê nisso, não é cristão.

Uma delas é a crença no advento da segunda vinda de Cristo. Ela foi registrada, por exemplo, no chamado "Credo dos Apóstolos", cujas raízes remontam à igreja de Roma no século II:

(...)
Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor.
Ele foi concebido pelo poder do Espírito Santo
e nasceu da Virgem Maria.
Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto e sepultado.
Desceu aos mortos.
Ressuscitou no terceiro dia.
Subiu ao céu,
e está sentado ao lado do Pai.
Voltará para julgar os vivos e os mortos.
(...)

Mais tarde, no século IV, a Igreja produziu o belíssimo Credo Niceno-Constantinopolitano, no qual a crença na vinda de Cristo também foi insculpida:

(...)
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não criado, consubstancial ao Pai. Por Ele todas as coisas foram feitas. E, por nós, homens, e para a nossa salvação, desceu dos céus: e encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem. Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as escrituras; E subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim.
(...)

No evangelho de Mateus, do capítulo 24:29 até 25:46, Nosso Senhor nos fala de sua próxima vinda, por meio de 5 parábolas: da figueira (24:32-36), do pai de família (24:43-44), do servo bom e do mau (24:45-51), das dez virgens (25:1-13) e dos talentos (25:14-30). Além disso, compara sua vinda ao que aconteceu nos dias do dilúvio (24:37-42) e nos fala de como será o grande julgamento (25:31-46). Meditando nesses versos, extraí algumas lições, que agora compartilho com vocês. Mantenha sua Bíblia aberta em Mateus 24, enquanto lê esse texto.

A surpresa será inevitável

42   Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor.
43   Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que hora viria o ladrão, vigiaria e não deixaria que fosse arrombada a sua casa.
44   Por isso, ficai também vós apercebidos; porque, à hora em que não cuidais, o Filho do Homem virá.
(Mateus 24:42-44)

Sempre que lia esses versos, eu os interpretava mais ou menos assim: "Se eu não vigiar, a vinda do Senhor vai me pagar de surpresa. Mas, se eu vigiar, não serei surpreendido. Noé não foi surpreendido, mas apenas os que não lhe deram ouvidos. Serei como as virgens prudentes e como o servo fiel". No fundo, eu imaginava que Deus não surpreenderia os seus servos fieis. Versos como esse alimentavam a minha crença:

Certamente, o SENHOR Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas. (Amós 3:7)

Mas, analisando melhor as Palavras de Jesus, percebi que eu estava errado. Independentemente de nossa conduta, a surpresa da Vinda será inevitável. O pai de família não sabe a que hora virá o ladrão. Em Mt 25:13, o Senhor diz: "Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora". Não sabemos e nem saberemos.

Portanto, o problema não é ser surpreendido pela Vinda de Cristo, pois todos seremos. O problema é ser surpreendido fazendo a coisa errada, como o servo mau, que espancava seus companheiros e se embriagava com ébrios. O problema é ser surpreendido com pouco azeite nas lâmpadas, como as virgens néscias. O problema é ser surpreendido deixando de fazer a coisa certa, como os que ficarem à esquerda do Rei, no dia do julgamento.

Portanto, as advertências do Senhor não são para que fiquemos preocupados em advinhar o dia de sua vinda, como tantos que vivem escrevendo livros sobre isso, num esforço inútil. Ao contrário, o Mestre nos conclama a perseverarmos na atitude correta. Se assim procedermos, a Vinda será uma agradável surpresa. Mas, qual é a atitude correta?

Muitos talvez pensem que a atitude correta é permanecer na igreja, frequentando os cultos. Deveriam, antes, prestar atenção ao que o próprio Jesus nos ensina no seu sermão profético.

A parábola do servo bom e o mau

O servo fiel e prudente é aquele que cumpre a missão recebida de seu Senhor, de cuidar dos seus conservos, sustentando-lhes a seu tempo.

Ora, a Bíblia nos traz uma grande relação de mandamentos recíprocos, como listamos no texto "Afinal, o que é a igreja? (parte 2)". Todos os cristãos receberam a ordem de cuidar uns dos outros, consolando-se, edificando-se, amando-se fraternalmente, suportando-se em amor, perdoando-se, confessando-se, estimulando-se às boas obras, exortando-se, admoestando-se, servindo-se, instruindo-se, aconselhando-se, levando as cargas etc.

Então, essa parábola nos ensina que os cristãos devem se ocupar em cuidar dos demais cristãos. Quem assim proceder, terá uma agradável surpresa no naquele Dia. Quem, por outro lado, negligencia os mandamentos recíprocos, terá uma triste surpresa.

A parábola das dez virgens

A parábola das virgens tem como pano de fundo os casamentos orientais daquela época. Quando aconteciam à noite, os convidados levavam suas lamparinas, para iluminar a festa. Depois que os convidados chegavam, as portas se fechavam e começava a festa, que podia durar dias.

As dez virgens eram convidadas. Todas tinham lamparinas com azeite. Como o noivo demorou a chegar, todas adormeceram. Tanto as prudentes quanto as néscias acordaram assustadas com o grito: "Eis o noivo! Saí ao seu encontro!". Mas, ao pegarem suas lâmpadas, as virgens néscias perceberam que estavam-se apagando e que não tinham azeite reserva. E, com relação a isso, as virgens prudentes não poderiam ajudar.

O azeite representa o Espírito Santo em nós. Cada um tem a responsabilidade de se encher do Espírito e, nesse mister, ninguém pode ajudar.

18  E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito, 19  falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, 20  dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, 21  sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo.
(Efésios 5:18-21)

Essa parábola, de certa forma, complementa a anterior. Como vimos, temos a tarefa de fazer o que estiver ao nosso alcance para ajudar nossos irmãos. Mas, por outro lado, existe uma responsabilidade individual que não pode ser transferida. Eu posso pegar no pé do meu irmão para que ele ore e medite nas Escrituras. Posso perguntar, a cada encontro, se ele tem feito isso ou não. Mas não posso ler ou orar por ele. O azeite reserva é resultado de uma vida devocional individual. Cultive essa vida, e alegre-se quando for surpreendido pelo grito "Eis o noivo!".

O grande julgamento

Como vimos, devemos zelar por nossos irmãos e pela nossa própria vida espiritual. Mas, isso não é tudo. O Senhor Jesus também exige que sua Igreja mantenha a atitude correta para com todas as pessoas, independentemente de suas crenças. O Mestre é categórico: devemos alimentar os famintos, matar a sede dos sedentos, hospedar os forasteiros, vestir os desnudos, visitar os enfermos e os presos.

A Igreja evangélica atual tende a espiritualizar essa missão, interpretando a passagem de forma alegórica: matar a fome e a sede espirituais, curar as enfermidades da alma, libertar os aprisionados por Satanás etc. Ou seja, tudo se resolve com pregação. Para isso, abrem-se cada vez mais pontos de pregação, rádios, canais de TV etc. Todos os anos, uma imensa quantia é gasta para manter e ampliar a indústria da pregação. Enquanto isso, parcos são os recursos investidos pelas igrejas em obras sociais, creches, orfanatos, asilos, escolas. Parafraseando Jesus, "...devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!".

Mas, "não foi assim desde o princípio" da Igreja. Os cristãos antigos eram conhecidos por sua generosidade em cuidar dos pobres e enfermos. Eram eles que adotavam os bebês das prostitutas, que eram jogados fora das cidades para serem comidos por abutres. Como não temiam a morte, eram os cristãos que cuidavam dos doentes durante as pestes que assolavam a antiguidade. Foi essa atitude, muito mais do que pregações, que fez o cristianismo crescer tanto.

Portanto, está na hora de revermos nossas prioridades. Caso contrário, não adiantará protestar no Tribunal celestial: "Peraê, Senhor! Eu sou salvo pela fé somente! Eu acredito nas coisas certas!". Diante desse protesto, talvez Tiago se levante como testemunha de acusação, para lembrar o réu: "...mostra-me essa tua fé sem as obras, e eu, com as obras, te mostrarei a minha fé." (Tiago 2:18). Depois disso, virá a dura sentença:

41  Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos.
42  Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber;
43  sendo forasteiro, não me hospedastes; estando nu, não me vestistes; achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me.
44  E eles lhe perguntarão: Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, forasteiro, nu, enfermo ou preso e não te assistimos?
45  Então, lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer.
46  E irão estes para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna.
(Mateus 25:41-46)

Talvez alguém retruque que foi o próprio Jesus que fôssemos por todo o mundo, pregando o evangelho a toda a criatura (Marcos 16:15). Mas, diante da dura sentença transcrita acima, eu responderia com uma pergunta: o que Jesus entende por "pregação" é o mesmo que nós entendemos?

Questões para reflexão

  1. No que se refere ao cumprimento dos mandamentos recíprocos, como o seu Grupo de Vida tem se saído?
  2. A vida devocional é responsabilidade individual. Mas, ainda assim, os membros do Grupo de Vida podem ajudar uns aos outros nesse sentido. De que maneiras?
  3. Você acha que a igreja evangélica tem mantido a atitude correta para com os necessitados?
  4. Você acha que o seu Grupo de Vida poderia/deveria fazer algo pelos necessitados? O que o Grupo poderia fazer nesse sentido?
  5. Diante dessa meditação, como você aguarda a vinda de Cristo: com alegria ou com apreensão?

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