graça

imagem de Flávio Cardoso

Alegria com tremor?

Servi ao SENHOR com temor e alegrai-vos com tremor. (Salmo 2:11)

Servi ao SENHOR com alegria; e entrai diante dele com canto. (Salmo 100:2)

Esses dois versos nos revelam um aspecto paradoxal da relação entre o homem e Deus. Por um lado, nós devemos servi-lo com alegria. Por outro lado, devemos servi-lo com temor, que nada mais é do que medo acompanhado de respeito e reverência.

Em nossa sociedade atual, a ideia de "ter medo de Deus" parece absurda e antiquada. As pessoas pensam que somente o homem primitivo tinha medo dos deuses, que levavam a culpa pelas catástrofes naturais, pestes etc. Hoje em dia, os homens não mais têm medo de Deus. Quase todos acreditam na existência de Deus. Mas as pessoas decidiram que esse Deus, se realmente existe, tem que ser uma fonte inesgotável de amor, tolerância, bondade, misericórdia e graça. Ou seja, jamais pode inspirar temor. Ele jamais seria capaz de enviar o mal a quem o desobedecesse, castigando os homens. O senso comum considera que a visão de um Deus capaz de castigar é ultrapassada, coisa de ignorantes. Caso contrário, Ele seria mau.

Lembro-me de um colega de trabalho que me abordou com essa pergunta: se Deus é amor, então porque deveríamos temê-lo?

No fundo, o que existe por traz dessa visão distorcida de Deus é o antropocentrismo. Hoje em dia, a visão humanista domina a forma de pensar das pessoas. E o ideário humanista sempre coloca o ser humano no centro de tudo. O homem se assenta no trono, enquanto todo o resto, incluindo Deus, devem servi-lo.

Porém, a Bíblia não tem nenhum compromisso com os modismos intelectuais, sejam eles novos ou velhos. As ideias vêm e vão, as filosofias triunfam e depois naufragam. Mas as palavras do Senhor permanecem: "Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão." (Mateus 24:35)

A Bíblia, do início ao fim, coloca Deus no centro das atenções e tudo mais, incluindo o ser humano, orbita em torno dEle. Então, se o homem quiser se relacionar com Deus, deve se render aos termos dEle. Afinal, Ele é Deus; não nós.

De acordo com a Bíblia, Deus é amor. Ele amou tanto a humanidade que se tornou homem, apenas para possibilitar que os seres humanos se tornassem parte dEle. Mas esta é apenas parte da verdade revelada acerca de Deus.

De fato, Deus é amoroso, misericordioso e gracioso, e os homens devem sempre contar com isso. Mas Ele também é zeloso e disciplinador daqueles a quem ama (Hebreus 12:6). Ele envia o bem, mas também envia o mal quando acha necessário. Ele envia as bênçãos, mas também envia a destruição (Isaías 45:7). Ele faz a ferida, e também a cura (Oseias 6:1).

A Bíblia traz, para nossa inspiração, muitos exemplos de homens e mulheres que se relacionavam com Deus de modo muito íntimo. Mas, nesse relacionamento, eles não se comportavam como se estivessem lidando com um amigo de infância, e sim com um Rei glorioso e imenso, infinitamente maior do que eles: alguém para ser amado, mas também temido. Vejam:

  • Abraão era amigo de Deus. Mas, quando Deus mandou que ele sacrificasse Isaque, seu único filho, Abraão não regateou. Ele não ousou questionar a ordem aparentemente absurda dada por Deus.
  • Moisés falava com Deus face a face. Mas, apenas por ter batido na rocha em vez de falar a ela, Deus o proibiu de entrar na Terra Prometida. Moisés bem que tentou fazer Deus mudar de ideia, mas Deus se indignou e disse: "Basta! Não me fales mais nisto." (Deuteronômio 3:23-26)
  • O apóstolo João, ao ter a visão do Cristo glorificado, não correu para abraçar o seu Mestre e dar-lhe tapinhas nas costas. Ao contrário, tudo o que pôde fazer foi cair como morto (Apocalipse 1:17). Várias pessoas, em toda a Bíblia, tiveram reações parecidas ao terem visões de Deus e do céu.
  • Isaías, ao ter a visão do trono de Deus, não exclamou "Que alegria estar aqui com você, meu Deus!". Ele exclamou: "Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos!" (Isaías 6:5)

Poderíamos dar inúmeros outros exemplos nas Escrituras: Jó, Davi, Jonas, Daniel, Paulo, Pedro etc. A visão de um Deus "paz e amor", "boa praça", pronto para atender nossos desejos, infinitamente tolerante para com os nossos pecados, incapaz de se irar ou de castigar, é típica daqueles que só conhecem Deus à distância, que gostam de falar dEle mas sem jamais terem-no experienciado de perto.

Quanto mais nos aproximamos dEle, mais sentimos o paradoxo: amor e temor. Por um lado, somos envolvidos em um amor indescritível. Por outro lado, mais nos tornamos conscientes de nossa pecaminosidade e do quanto merecemos ser castigados por causa dela. É aí que os sentimentos se fundem: amor, alegria, perplexidade, temor. O resultado são rios de lágrimas inexplicáveis.

A visão distorcida do "Deus bonzinho" é predominante fora da Igreja. Mas também há muitos dentro da Igreja contaminados por essa visão. O pior é que, no seio da Igreja, ela se torna ainda mais perigosa. Fora da Igreja, as opiniões acerca de Deus se baseiam no senso comum e todos sabem, no fundo, que o senso comum nem sempre é correto. Então, os que se baseiam no senso comum são normalmente mais maleáveis e sujeitos a mudarem de opinião.

Dentro da Igreja, por outro lado, as pessoas se baseiam nas Escrituras. Isso as torna convictas de suas posições e muito resistentes a mudarem de opinião. Se cometem erro ao interpretar as Escrituras, ou se apegam apenas a certos versículos, esquecendo-se dos demais, dificilmente conseguem enxergar que estão errados. É assim que nascem as graves heresias. Por isso, não sei o que é pior: não saber nada da Bíblia ou saber apenas uma parte dela.

A falsa alegria

Essa visão distorcida de Deus leva os crentes a uma falsa alegria, uma falsa sensação de segurança. É a alegria sem tremor. Vivem se regozijando por causa de uma salvação da qual, talvez, eles nem sejam participantes. É a alegria sem temor. Pode ser que estejam cantando enquanto caminham para o abismo!

Essa perigosa alegria está estampada em frases que povoam orações e canções, tais como:

  • "Sou filho do Rei! Comerei o melhor desta Terra."
  • "Sou salvo pela graça, sem as boas obras."
  • "Agora sou livre!"
  • "Nada vai me separar do amor de Deus..."

É fácil notar que essas frases não são mentiras completas. Mas são meias verdades.

  • De fato, somos filhos do Rei. Mas isso não significa boa vida. Muitos outros filhos do Rei, melhores do que nós, padeceram muitas tribulações, incluindo pobreza e morte.
  • De fato, somos salvos pela graça. Não somos salvos POR boas obras. Mas somos salvos PARA boas obras. Se nossas obras não forem boas, isso é sinal de que não fomos salvos. Nossa fé é morta. A graça não é uma desculpa para pecar.
  • A salvação significa libertação da escravidão do pecado. Antes, não tínhamos poder para vencê-lo. Agora, auxiliados pela presença de Deus em nós, temos. É nesse contexto que podemos cantar que somos livres. Não é liberdade para pecar: é liberdade para não pecar.
  • Com efeito, nada pode nos separar do amor de Deus. Por isso o Senhor Jesus disse ser a Videira e nós os ramos dessa Videira. Somos parte dEle. Mas o próprio Senhor disse: "Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam." (João 15:6). Portanto, apesar do imenso amor de Deus por nós, temos a responsabilidade de permanecermos nEle. Caso contrário, seremos definitivamente cortados de Cristo.

A genuína alegria do cristão

Se estamos em Cristo, então alegremo-nos em Deus. Desfrutemos da presença magnífica dEle, todos os dias. Quando nos aproximarmos dEle em adoração, Ele perceberá que somos ramos da Videira. Ele nos amará, simplesmente porque ama a Videira, com todos os seus ramos.

Mas, quando a alegria estiver jorrando, jamais nos esqueçamos, nem por um minuto, que não é por causa de nossos belos olhos, de nossas virtudes, de nossas qualidades ou de nossa devoção, que Deus nos ama. Nós continuamos sendo pecadores miseráveis e dignos da punição eterna. É só por causa de Cristo que podemos confiadamente entrar na Sala do Trono.

A alegria de se relacionar com Deus deve ser sempre acompanhada de um reverente frio na espinha: se não fosse por Cristo, eu seria fulminado ao me aproximar do Eterno. Essa é a autêntica "alegria com tremor".

Um exercício simples

Se você ainda não conseguiu diferenciar bem a falsa alegria da genuína, acho que esse exercício vai ajudá-lo(a). Primeiro, leia o texto abaixo, de Efésios 1:3-9. Depois, leia-o retirando as palavras negritadas. Os cristãos dominados pela alegria sem temor não conseguem ver a importância das palavras negritadas. Você consegue?

3  Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo,
4  assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor
5  nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade,
6  para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado,
no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça,
8  que Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência,
9  desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo,(...)

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