cruz

imagem de Flávio Cardoso

Rendição bendita

É possível resistir a Deus?

Uma das questões que divide os pensadores cristãos é a seguinte: o homem pode resistir à vontade de Deus, ou não?

Alguns defendem que não. Como Deus é Todo-Poderoso e soberano, Ele sempre faz prevalecer a sua vontade. Ou seja, o homem não teria o livre-arbítrio para decidir entre fazer ou não fazer a vontade de Deus. Para esses cristãos, tudo o que acontece é determinado por Deus, desde o lugar onde cai cada gota de chuva até o arrependimento de um pecador. Se o pecador não se arrepende, é porque Deus não determinou que Ele se arrependesse.

Entretanto, a maioria dos cristãos, entre os quais me incluo, não acredita nisso. Entendemos que o homem pode, sim, resistir à vontade perfeita de Deus. Caso contrário, versos como esses perderiam o sentido:

Povo rebelde, obstinado de coração e de ouvidos! Vocês são iguais aos seus antepassados: sempre resistem ao Espírito Santo! (Atos 7:51)

Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram. (Mateus 23:37)

É evidente que Deus é poderoso para fazer prevalecer a sua vontade sobre a do ser humano. Mas, ao fazer isso, Ele violaria sua natureza, que é amor (1 João 4:8). Ao decidir soberanamente criar o homem à sua imagem e semelhança, Deus concedeu-lhe o livre-arbítrio: a capacidade de aceitar ou de rejeitar a vontade perfeita de Deus. Por exemplo, a vontade perfeita de Deus é que todos os pecadores se arrependam (veja os versos abaixo). Mas, como vários pecadores resistem a essa vontade, Deus permite que Eles se percam.

Isso é bom e agradável perante Deus, nosso Salvador, que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. (1 Timóteo 2:3-4)

Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens. (Tito 2:11)

Ou seja, nem tudo o que acontece em nossa vida é determinado por Deus. Ele determina algumas coisas, mas permite outras. Aquilo que Deus deseja para a nossa vida é chamado de "vontade perfeita de Deus". Aquilo que Ele não deseja, mas permite que aconteça por causa da nossa resistência, é chamado de "vontade permissiva".

Essa breve introdução nos leva a refletir sobre qual vontade de Deus temos experimentado em nossa vida: a boa, perfeita e agradável vontade de Deus, ou apenas a sua vontade permissiva?

De acordo com as Escrituras, a vontade perfeita de Deus só é experimentada por aqueles que tomam certas providências.

Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas misericórdias de Deus que se ofereçam em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus; este é o culto racional de vocês. Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (Romanos 12:1-2)

Então, aqueles que (i) não se oferecem em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, (ii) se amoldam ao padrão deste mundo e (iii) não se transformam pela renovação de sua mente, são incapazes de experimentar a perfeita vontade de Deus.

Paulo falava dessas coisas com conhecimento de causa. Vamos lembrar um pouquinho da história do apóstolo.

O preço de resistir a Deus

A Bíblia nos conta o episódio em que Jesus Cristo, numa visão, se revelou a Saulo, enquanto ele estava viajando a Damasco para prender os cristãos que ali encontrasse:

E, caindo todos nós por terra, ouvi uma voz que me falava em língua hebraica: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões. (Atos 26:14)

A NVI traz “resistir ao aguilhão só lhe trará dor”. “Aguilhão” era um instrumento semelhante a um chicote, com arroelas de ferro na ponta, utilizado para tanger bois ou para fustigar escravos. Se o boi entende para onde você o quer levar, apanha pouco. Mas se não entende, ou seja, se “resiste ao aguilhão”, apanha muito. As palavras do Senhor Jesus indicam que Ele estava tentando conduzir Saulo a um destino, mas o jovem estava resistindo, e isso lhe causava imensa dor.

A perfeita vontade de Deus, para Saulo, era que ele abandonasse a tradição religiosa de seus ancestrais e é fácil entender o quanto isso custaria a Saulo. Isso implicava terríveis consequências externas. Significava abandonar o conforto e o prestígio social para tornar-se desprezado por seus familiares e conhecidos. Significava abraçar uma vida de humilhações e privações.

Paulo fora um judeu educado no maior rigor das tradições religiosas de seus ancestrais. Seu mestre fora o grande rabino Gamliel, o Velho, neto do famoso rabino Hilel. Até os dias de hoje os escritos desses rabinos são estudados pelos judeus.

O jovem Shaul (essa é a forma hebraica do nome “Saulo”) fazia parte da elite intelectual e religiosa dos judeus, que desprezava a seita dos nazarenos, considerando-a um movimento de galileus pobretões e ignorantes:

Por acaso alguém das autoridades ou dos fariseus creu nele? Não! Mas essa ralé que nada entende da lei é maldita. (João 7:48-49)

Mas havia algo, no interior do jovem Saulo que o incomodava. Havia um “aguilhão” que o fustigava. Essa ralé, que nada sabia dos mistérios da Torah, fazia milagres em nome de Jesus, que só poderiam vir de Deus, os quais não eram realizados pelos mestre da Lei. Cegos viam, coxos andavam, endemoninhados eram libertos. Esses pobretões estavam caindo na graça de todo o povo, com seu estilo de vida simples e abnegado. O movimento crescia a cada dia.

Ao contemplar esses fatos, certamente ecoavam na cabeça de Saulo as palavras de seu sábio mestre Gamliel, proferidas no Sinédrio, quando convenceu as autoridades religiosas a soltarem os apóstolos, livrando-os da morte:

Portanto, neste caso eu os aconselho: deixem esses homens em paz e soltem-nos. Se o propósito ou atividade deles for de origem humana, fracassará; se proceder de Deus, vocês não serão capazes de impedi-los, pois se acharão lutando contra Deus. (Atos 5:38-39)

Mas Saulo não deu ouvidos a seu mestre. Ao contrário, esteve presente no martírio de Estêvão, autorizando sua execução. Ele deve ter olhado nos olhos daquele santo enquanto era julgado, e percebeu que seu rosto era como o de um anjo e não de um homem. Ele viu que Estêvão morreu clamando a Deus pelo perdão para seus carrascos. Não tenho nenhuma dúvida de que essa cena deve assombrado Saulo por muitos anos, talvez por todo o resto de sua vida.

Tudo isso devia corroer Saulo por dentro, enquanto viajava a Damasco. Certamente, havia essa crescente dúvida em seu íntimo: “será que estou lutando contra Deus”? A luta interior que Saulo travava contra o Espírito Santo trazia-lhe muita dor. Não é diferente conosco.

Pare de lutar

Para Saulo, render-se ao aguilhão significa sacrificar seu status social e familiar. E para você? O que você terá que sacrificar?

Como lemos atrás, em Romanos 12:1-2, só experimenta a boa, perfeita e agradável vontade de Deus aquele que se oferecem a Deus em sacrifício vivo, santo e agradável. Render-se ao aguilhão significa sacrificar sua própria vontade, para aceitar a perfeita vontade de Deus.

Deus revela sua perfeita vontade de várias maneiras. Pelas Escrituras, pela boca dos irmãos em Cristo, pelo testemunho interior e até pelas circunstâncias. Então, esteja atento para discerni-la!

Talvez você esteja incomodado, exitando em tomar alguma decisão por temer suas consequências. Abraçar um ministério na igreja, pedir perdão a alguém, dizer “não” a alguma proposta, confrontar o pecado de um irmão. Se essa indecisão estiver tirando sua paz, é um bom indício de que você não está experimentando a perfeita vontade de Deus, mas apenas sua vontade permissiva.

Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos. (Colossenses 3:15)

Talvez, em função de uma decisão tomada no passado, você venha experimentando tristeza e angústia. Pare e pense. Talvez você deva voltar atrás em sua decisão. Quando estamos no centro da vontade de Deus, certamente passamos por muitas tribulações. Mas a paz de Nosso Senhor jamais nos abandona.

Não imagine que basta ficar parado que Deus vai controlar tudo, fazendo com que a perfeita vontade divina sempre prevaleça. Ela só prevalecerá quando você sacrificar sua própria vontade. Ore a Deus e compartilhe suas indecisões com irmãos de fé experientes que poderão ajudá-lo a compreender qual é a vontade de Deus para sua vida.

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