Vivendo as verdades bíblicas

imagem de Flávio Cardoso
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No artigo anterior, estudamos algumas verdades bíblicas: as promessas de Deus para nossas vidas e o que nos aguarda na eternidade. Também aprendemos a importância de nos dedicarmos à leitura da Palavra de maneira sistemática e constante. Contudo, não podemos parar aí. Conhecer apenas não é suficiente. Há um nível mais profundo que o cognitivo, que o mero conhecer. Há o nível da fé e da vivência da palavra.

Certa vez assistindo ao programa do Jô Soares ouvi uma declaração interessante sobre a Bíblia. Ele disse que já havia lido a Bíblia várias vezes, mas não havia entendido absolutamente nada. Cabe ressaltar que aquele apresentador é um homem extremamente culto, autor de alguns livros e fluente em vários idiomas. Com certeza você conhece alguém que viveu o mesmo problema. Talvez você mesmo, em algum momento de sua vida teve a Palavra como algo incompreensível. Por quê? Isso acontece porque a capacidade de compreender corretamente as Escrituras é mais moral e espiritual do que intelectual.


"Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente." (I Coríntios 2:14)

Ler a Bíblia apenas como um livro histórico-místico-religioso, buscando, com a força do intelecto, extrair-lhe o conhecimento, será uma experiência frustrante e até mesmo perigosa (II Pedro 3:16). Isso não significa que um não-crente não pode compreender a Bíblia. As Escrituras podem ser compreendidas por todos os descrentes que a leiam sinceramente em busca da salvação e por todos os crentes que a leiam buscando o auxílio de Deus para a sua compreensão. Em ambos os casos, o Espírito Santo age na superação das conseqüências do pecado. Sem a ajuda do Espírito Santo, essas conseqüências fariam a verdade parecer loucura. Contudo, a Palavra de Deus jamais será compreendida corretamente por quem não se dispuser a receber os seus ensinamentos. Então, como posso viver as verdades bíblicas?

Primeiro: é preciso crer

No mundo natural, somos guiados pelos nossos cinco sentidos, quais sejam: audição, olfato, paladar, tato e visão. Dentre estes, seguramente o que mais usamos para nos guiar e orientar é a visão. Daí o porquê é tão difícil nos orientarmos ou nos deixarmos guiar por algo que não vemos. Tomé agiu assim em seu primeiro encontro com o Cristo ressurreto. Ele queria ver as marcas da crucificação e tocar as feridas. Ele precisava dos sentidos humanos para saciar a sede lógica do seu intelecto. Jesus, ao lhe mostrar as feridas disse:


"... não sejas incrédulo, mas crente... porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram." (João 20:27-29)

No Reino espiritual, somos desafiados a não mais ver para crer e sim crer para ver. Não que nossos sentidos sejam maus ou inúteis, muito pelo contrário. A questão é que "as coisas espirituais se discernem espiritualmente" e, no mundo espiritual, nossos olhos carnais podem nos tornar cegos. Leia II Reis 6:8-22. Este é um exemplo claro de como acreditar apenas no que vemos, tocamos ou ouvimos pode nos impedir de vivermos as verdades bíblicas. Por exemplo, imagine que um médico nos diga que estamos com uma doença grave. Que atitude devemos tomar: olhar para os exames e entregar os pontos? Se fizermos isso, de maneira alguma poderemos experimentar a verdade bíblica da cura mediante a fé em Cristo. As Escrituras nos mostram vários exemplos de pessoas que vivenciaram a verdade bíblica da cura, porque creram, apesar das coisas nada animadoras que viam em suas vidas. (Lucas 5:20 e 8:47).

A fé é a certeza do que não se vê (Hebreus 11:1). Isso fere o natural (ver para crer). Isso tira de nós o controle, ou seja, o domínio sobre nosso destino, nos deixa sem chão e nos obriga a confiarmos em Deus, nos lançando em seus braços, esperando sua resposta e definição. O tempo de Deus (kayros) nem sempre é o nosso tempo (kronos). Como é difícil esperar que o tempo de Deus alcance o nosso. Muitas vezes, nesse intervalo, que pode levar anos, nos desesperamos, "tomamos" de Deus o controle, trazemos as coisas para o mundo lógico-visual-palpável e, assim, deixamos de experimentar o milagre e comprovar em nossas vidas as verdades da palavra. As verdades bíblicas são, pois, para aqueles que, deixando a timidez de lado (Marcos 4:40) não se atêm ao natural. Ao contrário: pela fé, adentram o espiritual e tomam posse de tudo o que Jesus conquistou na cruz para nós (Isaías 53:4-5 / Romanos 8:16-17). Jesus nos garante que faremos tudo o que Ele realizou, e que faremos coisas ainda maiores. Também nos assevera que tudo o que pedirmos em oração, se verdadeiramente crermos, tornar-se-á real (Lucas 11:22-24).

O quanto preciso crer para viver as verdades bíblicas? Jesus, certa vez disse:


"... se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível." (Mt 17:20)

Ainda no início da adolescência, ao ler esse texto resolvi descobrir o tamanho de minha fé. Olhei para o primeiro monte que vi e mandei ele sair da frente! Para minha decepção ele ainda está lá até hoje. Triste, pensei: se para mudar um monte de lugar basta a fé do tamanho de um grão de mostarda, e eu não fui capaz disso, imagina o tamanhozinho da minha fé! Eu fiquei triste. Porém, um pouco depois eu entendi esse negócio de grão de mostarda. Jesus, em outro momento compara o Reino de Deus a um grão de mostarda (Mateus 13:31-32). Ele explica que o grão de mostarda, que era a menor das sementes, ao crescer se tornava a maior das hortaliças. Podemos aproveitar essa parábola para entender sobre fé. Jesus nos ensina que nossa fé começa pequena, como um pequeno grão de mostarda. Contudo, durante nossa caminhada com Ele vamos exercitando essa fé, que a cada dia, a cada verdade bíblica vivida e a cada milagre alcançado se torna maior, até o ponto de se tornar uma fé inabalável, e nos tornarmos verdadeiros heróis da fé dos nossos dias. Hoje você ora por uma dor de cabeça e vivencia o milagre. Sua fé é edificada. Pouco depois você é colocado diante de desafios maiores de fé. Você ora por um enfermo de câncer e o milagre se realiza. Você entende então o poder da fé em Cristo e humildemente continua seu crescimento, entendendo que tudo provém dEle. Passa a orar por sua cidade, nação, e pelo Reino de Deus no mundo inteiro. Sem perceber, sua fé cresceu, você diminuiu e Cristo se agigantou em sua vida. Já não é você quem vive, mas Cristo te vive (ou vive em ti) (Gálatas 2:20). Então, as verdades bíblicas passam a ser sua realidade.

Segundo: é preciso praticar

Tiago, o irmão de Jesus, nos exorta, em seu livro, a nos tornarmos praticantes da palavra.


"Tornai-vos pois praticantes da palavra e não somente ouvintes..." (Tiago 1:22-25)

Quando vamos à igreja, ao Grupo de Vida, quando lemos a Bíblia ou somos ensinados por alguém sobre a palavra, devemos colocar em prática aquilo que aprendemos. De nada adiante sermos tocados até o mais profundo da alma, derramarmos lágrimas, levantarmos as mãos e nos emocionarmos diante de uma pregação, se em seguida não colocarmos em prática o que aprendemos. Ouvirmos uma linda mensagem sobre a verdade do perdão e permanecermos magoados. Acreditarmos piamente que o Evangelho é poder de Deus para salvação do perdido e não pregarmos com a boca e com a vida. Crermos que nosso Deus é Jeová-Rafá (o Deus que sara) e não impormos as mãos sobre os enfermos. A nossa fé se consuma através das nossas obras (Tiago 1:22). O Evangelho é prático. As verdades ali expressas não são apenas para o domingo à noite. Elas devem valer para a segunda-feira e todos os demais dias. O mesmo Tiago nos exorta que "a fé sem obras é morta" (Tiago 1:17). Isso nos impele a praticar a verdade do Evangelho.

Um texto que muito nos ensina é o de Mateus 25:31-46 (ler), quando Jesus ensina sobre "o grande julgamento". Observe que a Divindade não estava em quem dava o pão, ou a bebida ou ia visitar. Deus é quem estava nu, com sede, preso e enfermo (versículo 35). E Ele assim estava (e está) através daqueles seus semelhantes (pequeninos) que passavam por essas aflições. O Rei separou o grupo em dois. A sua esquerda, ficaram aqueles que presenciaram a aflição do Filho, viram sua nudez, sua fome, sua sede, mas não fizeram nada. Estes nunca foram verdadeiramente ovelhas e sim cabritos (v. 33). Viveram junto ao Rei, mas nunca se submeteram a Ele. Estes são os da fé morta, da fé sem obras. Ouviram sobre as verdades bíblicas, talvez até se arrepiaram com elas, mas nunca as experimentaram. Elas tocaram sua mente; nunca o seu coração. Por isso se tornaram insensíveis às mazelas humanas (que são divinas também). Para esses, resta o castigo eterno (v. 46).

Do lado direito, porém, ficaram as ovelhas. Essas, sim, são submissas à vontade do Senhor. Elas têm fé, que é consumada por suas obras. Elas vivem as verdades bíblicas. Experimentam-na no seu dia-a-dia. Em casa são bons maridos/esposas, no trabalho os melhores, pois trabalham como se para o Senhor trabalhassem e não conseguem passar incólumes diante das mazelas humanas. Elas se importam, elas se doam, pois elas exalam o "bom perfume de Cristo". Elas saciam o sedento, vestem o nu, alimentam o faminto, visitam o preso, pois entendem que ali está o seu Mestre, sofrendo cada dor juntamente com seus pequeninos. Elas vivem as duas grandes verdades bíblicas. O amor a Deus, sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmas. A essas está reservada a posse do reino, que foi preparado desde a fundação do mundo (v. 34).

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